Brumoso

o que me aconteceu
foi quase nada, mas mudou tudo
mudou a cor que eu via antes na rua
mudou de uma hora para outra
a hora do dia, a estação do ano
e isso de que eu saberia
como envelhecer sem dor nenhuma

as minhas juntas são
serpentes traiçoeiras
aninhadas nos ossos
levando-me aqui e ali
nem sei por quê

mas isso poderia
salvar-me até melhor,
se insistisse,
como se eu fosse alguém em especial –
mas eu não sou

sou o sujeito comum
atravessando a rua
e voltando a aparecer
logo em seguida
por entre os carros –
sou quem move o asfalto
recortado sob os pés
com perfeita precisão –
como uma moldura intacta
preserva aonde for
a própria imagem

por hoje eu gostaria
de me ocupar assim
mas eu não posso aceitar
sequer entender-me com o tempo –
ele na sua eterna pressa,
eu a bomba por explodir

mas não me importo mais
reconheço minha parte em tudo
no errado, no certo, no incerto

eu que levei o rio comigo
eu que o sequei no aluvião
pois que seja –
eu ainda preciso do mesmo:
a luz que vejo se afastar de mim
o dia de hoje, já no passado –
e eu olho mais por estar alheio:
a bruma ainda me toca a mão

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