Por via das dúvidas

O caminho ele conhecia bem, mas, por mais que andasse, nunca tanto a ponto de prestar atenção em tudo que ia mudando com o tempo. Ou eram as gretas nas paredes da casa antiga da dona Mariana Saraiva, desbotando diariamente a pintura amarelada, ou era o empedrado cada vez mais liso e escorregadio do calçamento. Por aquele caminho, se tombasse a essa altura da vida, seria um problema tamanho. Pelo menos uma fratura bem grave nos ossos porosos, mais parafusos, próteses ou outra dessas tragédias que espreitam os passos dos velhos. Era também a largura intransponível dos bueiros destapados que a prefeitura prometia sempre consertar e nunca vinha ninguém para fazer nada ou o jogo de bola das crianças, no campinho abaixo, sempre essencialmente confuso e auto-organizado. Aquela voz, entretanto, metida no meio do jogo dos guris, era estranha demais para que ele não a notasse. Não era a voz de uma menina e tampouco tinha a pressa costumeira dos moleques. Nem ele tinha certeza se já tinha ouvido antes voz num tom agudo assim entre os meninos. Ele realmente não sabia de quem era nem muito menos quem seria a figura esquálida que apontava com o indicador para o rés do chão ao seu lado e dizia: “A bola… Ali! O senhor pode alcançar?”

Olhando a bola e os olhos da criança alternadamente, não sabia o que fazer e parecia clamar por uma orientação. No chão, encostada junto ao gradil enferrujado de ventilação do porão da casa da Dona Mariana, era onde estava a bola e bastaria que ele esticasse o pé e a puxasse de encontro ao corpo para entregá-la à criança e seguir em paz seu destino. Mas também por duvidar de que o gesto não fosse causar o desastre de uma queda em plena rua, possibilidade que o amedrontava, decidiu não fazer nada e, sem voltar outra vez os olhos para qualquer uma das crianças, seguiu adiante, rumo da sua casa, logo ao fim do quarteirão. O pedido daquela voz, entretanto, fez com que cessasse os passos, estancando em plena rua, e que voltasse a atenção e os olhos uma vez mais para trás. “A bola… Eles não vão me perdoar se eu não levar ela de volta. E eu não consigo subir até aí…”, disse a criança. Acostumado a andar sempre de olhos baixos, cuidando cada imperfeição do terreno, ele ergueu os olhos e viu o declive que o separava primeiro dos olhos azulados e cabelo louro desgrenhado do menino e, ao longe, de todo o bairro do Povo Novo, margem das sangas que levavam ao Rio Negro e aos limites da cidadezinha.

A vista cansada mal reconhecia, na planície estendida abaixo daquele declive abissal, os mesmos limites de praticamente quando era criança e que continuavam iguais. O mato de unhas de gato e espinilhos ainda estava lá, mesmo que quase reduzido a nada. Ao contrário de antes, quando poucas casinhas de madeira margeavam a rua principal de terra batida, estava agora o asfalto e, em torno da faixa dividida por uma risca branca intermitente, algumas dúzias de casas de alvenaria, comércio miúdo e um pequeno movimento de automóveis e carroças. Bem mais para lá, onde apenas adivinhava o que havia de memória, o que sobrara do matagal, do riacho e dos pequenos afluentes. Para enxergar a claridade daqueles pequenos olhos desesperados, todavia, sua vista ainda era o suficiente. E a mente ainda límpida para perceber que o dono daquela voz estridente como a de uma menina não estava inventando ou imaginando sobre estar em perigo por causa da bola. Não seria uma bola e não seria por ele preferir atravessar as ruas quase incógnito que daria causa à estupidez dos moleques da rua, cujo comportamento ele conhecia bem.

Então, ao passar-lhe a bola com as mãos, cuidou mais de olhar bem de perto a expressão da criança que o aguardava inquieta que propriamente em ser rápido. A despeito da gritaria e do alvoroço que os outros faziam ao longe, ele queria certificar-se do que a intuição estava lhe dizendo sobre aquele menino. E em meio aos gritos dos que já ensaiavam vir tirar satisfação pela demora, ele perguntou: “Como é o teu nome, meu filho…? Nunca te vi antes aqui…”

“Anda velho! Devolve logo a bola!”, gritou ao longe um dos outros, que estavam ainda mais abaixo no declive. Também por reconhecer a voz, ele sabia de quem se tratava: era o neto do seu Amaro Almeida, dono do armazém do quarteirão acima onde ele eventualmente fazia compras, porém não mais a crédito como antigamente, isso porque o seu Almeida também nunca fora justo no preço e metido a valentão, assim como o seu filho falecido e também agora, pelo visto, este seu neto. O menino, franzino quase um fiapo de gente, segurou a bola entre os dedos compridos e fez menção de ir de uma vez e, na sua ida atrapalhada, descendo aos solavancos do barranco onde estava, teve tempo de responder ao seu interlocutor: “É Rafael. Meu nome é Rafael dos Santos Jacinto, mas eu preciso voltar duma vez se não vão me matar…”, mas as últimas palavras do nome e do que veio após dele ele mal pode ouvir. Apenas conseguiu perceber com algum espanto que ele tinha o seu mesmo nome, mas podia quase ter certeza de que aquele sobrenome não era de ninguém que vivesse nas redondezas. Não que pelo menos ele soubesse.

Um tanto paralisado ou mal começando a ensaiar os passos de seu retorno, estava espantado por não ter lembrança de quem pudesse ser aquela criança esquálida e nem por associar sua lembrança a de algum conhecido ou vizinho; depois dessa breve hesitação, conformou-se em ir-se embora dali sem respostas para a sua dúvida, mas sem conseguir deixar de conferir os tapas na cabeça que os outros, no campinho, desferiram no menino que não esboçava qualquer reação a não ser baixar a cabeça e seguir-lhes os passos, ao retomarem o jogo de futebol, capitaneados pelo neto do seu Almeida, o valentão do bairro e das redondezas.

Sem o que fazer mais por ali, apenas continuou seguindo o seu caminho, igual a como fazia dia sim e dia não, quando atravessava o bairro e dirigia-se ao centro da cidade para conferir a loteria e aparar a barba com o auxílio das mãos menos trêmulas dos barbeiros e seus aprendizes. Além disso, era lá, no Salão Boeira, que ele se encontrava com os velhos conhecidos que ainda alternavam-se nas poltronas hidráulicas do salão. Com eles, gastava bons minutos falando mais de política que de futebol, assim como de tudo o que não mais havia para fazer na cidade, culpa do progresso que foi arrebatando ano a ano o cinema, o teatro, o passeio nas praças e tudo, reduzindo a vida a estar dentro de um automóvel ou dentro de casa. Ele e os outros aposentados que se reuniam no Salão pareciam às vezes que fossem uma pintura, de irreais, ou uma resistência à retaguarda no presente do pequeno município de Rosário. Eram praticamente os últimos pedestres de longa distância de toda a cidade, isso que aqueles que tinham família eventualmente falhavam, restando cada vez menos entre todos, descontando-se os dias em que chovia, porque nenhum deles era tolo de arriscar-se à toa.

Por ter de concluir ainda sua caminhada de volta a casa, ele sentia-se cansado até para conjeturar. Pensava em encontrar sua poltrona e o jornal com a leitura inacabada ainda dobrado meticulosamente sobre a banqueta de pés seria seu chamariz para o cochilo das onze da manhã, que em sua imaginação ou como pretexto pessoal, serviria para abrir o apetite. Assim que entrou em casa, contudo, pressentiu que não teria a paz necessária porque, logo ao sentar-se, escutou tocarem a campainha e aquilo era tão incomum àquela hora da manhã que simplesmente concluiu que se tratava de algo que não podia prestar. E foi com essa convicção que se viu compelido a abdicar do seu hábito para atender quem o chamava, sem ter qualquer ideia de quem pudesse ser.

“Mas que verdadeira bosta! Não se pode mais descansar?”, resmungou sozinho ao procurar colocar-se outra vez em marcha. Dentro de casa, absolutamente ninguém para testemunhar sua lamentação, nem sequer um animal de estimação.

Duvidando que o imprevisto visitante persistisse, chegou a estancar os passos e pensar em voltar ao seu intento original, mas à porta bateram novamente e aquela voz fininha como a de um pássaro incomum pareceu atravessar as frestas da esquadria de madeira dizendo quem era e porque estava ali. “Sou eu, o Rafael… O senhor pode ser rápido, por favor? Não consigo mais ficar em pé…”, a voz sussurrava do outro lado da porta, mas num tom de voz que lhe permitiu entender que o que havia ali era uma calamidade e que não seria digno, mesmo de um velho como ele, negar ajuda a uma criança que aparentava sofrer e pedia por socorro. O seu socorro pessoal, especificamente.

Não que ele fosse sentir-se um herói por auxiliar uma criança em perigo e sofrimento, não era alguém que precisasse disso, mas por reconhecer ou imaginar, talvez, a natureza da dor de uma criança como aquela, fez o que não fazia a mais tempo que poderia lembrar: correu apressadamente até a porta. Sem notar que nesse meio tempo um temporal se armara e uma chuva torrencial tornara-se iminente, percebeu apenas o olhar triste daquele pequeno anjo desamparado que parecia estraçalhado ali, junto ao rés do chão onde se aninhara e de onde mal conseguia erguer os olhos. Com muito custo, contrariando a rigidez lombar obtida em anos de escriturário e as dores crônicas da coluna, ele agachou-se e recolheu do chão aquele menino que mais parecia um pequeno pássaro abatido por um caminhão, mas não tinha sido um caminhão e ele por certo era a primeira pessoa a dar com a frágil criatura naquela situação que ele não queria nem imaginar direito qual pudesse ser.

A criança enroscou os braços em torno do seu pescoço e soluçava compulsivamente, sem qualquer condição de narrar o que teria lhe acontecido. Com os olhos muito próximos um do outro, sabiam haver entre si um parentesco não declarado e podiam ambos ver a liquidez profunda boiando mutuamente em suas retinas, como se no reconhecimento de que poderiam ser a mesma pessoa até, não fosse ele um pobre velho e a criança alguém com muitos anos de vida ainda pela frente.

“Meu anjo, mas o que lhe aconteceu?”, ele pensou em dizer, mas reteve as palavras porque sabia que o menino não poderia lhe dizer. A verdade é que sentia, além das roupas molhadas da chuva, uma viscosidade escorrendo entre as pernas da criança, misturando-se ao braço que o sustentava sob os joelhos. “Mas isso não pode ser…”, ele chegou a murmurar sem que o menino pudesse lhe ouvir, porque desmaiara em seus braços, sobrecarregando-lhe o peso e quase levando os dois ao chão, porque suas pernas vacilaram diante do corredor que dividia a pequena casa em duas: de um lado a saleta de descanso e a cozinha; do outro, o quarto de dormir e o banheiro.

Parado ali, tomado de horror e indefinição, não sabia absolutamente o que fazer. O socorrente agora tinha mais necessidade ou tanto quanto o socorrido. O certo a fazer talvez fosse abrir a porta ou a janela e gritar por ajuda, mas para quem? Em meio ao temporal, não haveria ninguém que se atrevesse a andar pela rua e o vento por si só impediria que abrisse a persiana de madeira que dava justamente para onde poderia andar algum passante. Sentindo o vento no rosto e vendo os cabelos do menino movendo-se por sua ação, tamanha sua força, decidiu por levá-lo a banheira e lavar seu corpo ferido, tomando o cuidado de verificar antes sua respiração que agora parecia leve como a de um anjo que dorme, sem culpa nenhuma de nada, como qualquer criança aparenta ao dormir.

Pensava em quem teria feito aquilo e imediatamente lembrou-se imediatamente das outras crianças do jogo de bola, especialmente o neto do seu Almeida, que lhe parecia insuportável mesmo à distância. Porém não tinha quaisquer meios de comprovar sua desconfiança. Além do mais, daquele momento na rua até aquele um bom tempo havia se passado. Tempo suficiente para uma tragédia passar-se em qualquer lugar, perpetrada por qualquer pessoa. “Um crime… Quanta monstruosidade, meu Deus…”, ele pensava alto enquanto despia a criança e o colocava cautelosamente dentro da banheira, sem imaginar a extensão e profundidade dos ferimentos que tinha ou o que havia lhes causado. Sem automóvel e sem telefone, só lhe ocorria sustentar a cabeça do menino para fora da água, sem lembrar-se ou perceber que o contato com a própria água poderia agravar ainda mais a hemorragia.

O tempo que passou a seguir não foi muito, mas também não foi pouco. Sem ter feito seu descanso nem sequer ter almoçado a comida que a vizinha preparava e lhe vendia de dois em dois dias em viandas, estava fraco de repente até para erguer-se nas próprias pernas. A ideia de clamar por ajuda, mesmo se ainda chovesse forte, seria mais que razoável, entretanto não tinha como fazer nada a não ser tentar sair daquela situação de alguma maneira e evitar que uma tragédia inominável viesse a acontecer sem que ele tomasse qualquer atitude, pelo qual já se culpava e lamentava em gritos que se fizeram ouvir através da janela e pelos quais essa vizinha que lhe fazia as viandas e que morava ao lado da sua casa entendeu por acudir, acreditando estar acontecendo um assalto ou sabe-se lá o que ela conseguiu pensar a respeito. Interessa saber que foi ela a providenciar um chamado à polícia, que não tardou em chegar e atravessar a porta aos pontapés, cientes apenas de uma suspeita terrível e imprecisa que se lhes denunciaram.

Ao encontrarem-no de cócoras, ao lado da banheira, foi impossível saber-se o que os policiais entenderam, mas as medidas que tomaram foram remover a criança imediatamente para o hospital e ele para a delegacia. Lá, às perguntas que lhe fizeram, ele não tinha como responder a nenhuma delas e isso por si só selou a suspeita de que, se algum crime ocorrera, teria sido por sua ação, já que a criança não era conhecida de ninguém e não podia testemunhar, porque estava desfalecida ao chegar ao Pronto-Socorro e provavelmente custaria muito a falar, ainda mais em dar explicações.

Se existia alguém que poderia salvá-lo daquilo, era alguém que não podia falar e seu testemunho, vindo de um velho solitário e recluso, era por si só suspeito. Ocorreu-lhe pedir a ajuda dos outros poucos velhos que se reuniam no salão do barbeiro, mas a verdade é que nem tinha certeza se ainda havia mesmo algum que frequentasse o lugar ou se aquilo era uma obra que a sua memória gasta tentava inculcar-lhe, fantasiando com outras. Não sabia, simplesmente. E isso era tudo o que conseguia dizer ao delegado cada vez mais convicto de sua culpa: “Eu não sei… Nunca vi antes essa criança… Mas como eu não abriria a porta numa situação assim?”

O delegado, no mesmo dia, mandou fazer buscas dentro e em torno da casa, a fim de localizar evidências. Por via das dúvidas, o velho ficaria ali preso. A única cela viável para ele passar talvez uma apenas uma noite, se tivesse sorte de encontrar-se prova de sua inocência, estava ocupada por um homem jovem, de cabelos louros como os seus. Exaurido, sem nenhuma energia, deixou levar-se à cela e lá encontrou para procurar descansar o corpo desmontado de dor apenas um banco de madeiras cruas e cheias de felpas, cujo encosto era a própria parede nua. O outro ocupante estava como que amontoado no chão, com as pernas enroladas pelos braços e onde escondia o rosto. Mais que qualquer outro suplício, talvez por um senso de cordialidade ancestral, sentiu-se compelido a iniciar uma conversa e estremeceu da ponta dos pés ao último fio das cãs só ao ouvir o som rascado da primeira sílaba daquele nome amaldiçoado pela segunda vez, num dia mais triste que o inferno, da boca de mais um desesperado. E quando seus olhos finalmente se encontraram, ambos choraram o que a cada um pareceu que pudessem ser até as mesmas lágrimas.

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