O insepulto

Conto publicado na Ed. 1.368 (setembro/outubro de 2016) do Suplemento Literário Minas Gerais, entre as páginas 17-19. Para acessar, usar o link abaixo:

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Ou leia a seguir:

“Que esperança! Se acertei uma boiada, não aceito um animal a menos!”, disse o comprador do Frigorífico Santa Úrsula, homem retaco e calvo que só faltou espumar diante dos homens que trouxeram as vacas que ele acertara com o seu Arlindo de Menezes, naquela que era a sua última ponta de gado. O estancieiro estava liquidando um a um os rodeios após vender a propriedade, cujo destino seria servir para a plantação de eucaliptos, cultura que chegava à região a fim de alimentar a indústria da celulose. Por dois dias consecutivos, quase todos os seus animais foram transportados e finalmente embarcados rumo ao frigorífico e o serviço nem tinha sido tão penoso quanto os compradores imaginaram, apenas demorado, porque o transporte fôra todo feito a cavalo. O gado do velho homem minguava há tempos e, entre as vacas da última tropilha, vinham também bois velhos, refugados por qualquer motivo, mas que por condescendência os compradores aceitaram carregar junto. Esta, aliás, era uma das razões do atraso todo.

A dificuldade maior em fazer o transporte pela estrada residia em que os campos do seu Arlindo eram muito interiorizados e, por isso, o ajuste com tropeiros a cavalo fôra indispensável. Não havia caminhão que pudesse fazer aquele caminho de forma mais expedita, ainda mais em agosto, quando o barro inutiliza as estradas vicinais de chão batido. Provavelmente por ter se cansado da espera, o homem parecia impaciente. O transporte dos animais já durava cerca de três dias de trabalho ininterrupto dos peões que iam e vinham por dentro dos campos vizinhos do seu Arlindo, como os tropeiros de antigamente, e precisavam fazer grandes voltas em campos onde muitas vezes já não existia mais ninguém para dar passagem e apenas o matagal principiava a florescer, dando amostras da primavera que se anunciava.

Ao contar o gado pela terceira vez, na mangueira improvisada, o homem do frigorífico parecia estar fazendo o maior trabalho da face da terra, porque não podia falar sem dar escândalo ou esbravejar. Os peões se entreolhavam e até duas crianças que estavam acompanhando o pai no serviço percebiam o exagero nos gestos dele. Ele claramente valorizava-se, porque de longe, numa caminhonete estacionada junto à mangueira que o frigorífico alugou para receber o gado que andava comprando naqueles dias, encontrava-se outro homem a quem aquele parecia dedicar sua atenção e explicações; um seu superior: gerente ou alguma outra função superior a que ele exercia.

Este homem, depois de falar um instante ao telefone e fazer anotações num pequeno bloco de notas, sob a sombra rala de um cinamomo, chamou o outro para perto de si e qualquer um que andasse ali perto teria ouvido o final da conversa, que se deu quase aos gritos. “Pois mande um deles no caminho de volta. Este boi velho deve ter ficado por aí, se misturado com o gado nos campos de alguém ou se escondido…”, disse o sujeito. O comprador concordou tapeando-se a testa, como se estivesse a dizer a si mesmo: “Como não pensei nisso?”. Porém não pensara e, ajeitando-se na japona quadriculada, estendeu a mão para pegar da cuia de chimarrão que o outro lhe alcançava. Eram colegas de firma, estava visto. E provavelmente teriam de arcar com o prejuízo do extravio se ninguém encontrasse o animal ou então tomar outra providência. De longe, mais ou menos longe, eles observavam os homens que, apeados, dali poderiam dispersar-se para a cidade, porque o seu serviço estaria concluído. Bastava dar-se o pagamento e “tchau e gracias“.

Os tropeiros improvisados tinham um fogo incipiente no chão onde aqueciam duas cambonas de água e uma panela de ferro em que era fervido um cozido de charque e batatas, preparado pelo mesmo homem velho que distribuía de mão em mão a cuia de mate. Alguns cuidavam dos cavalos, ajustando arreios ou apenas observando para que não fossem pastar longe demais. Com exceção de Anastácio, que mantinha o palheiro sobre uma das orelhas, todos fumavam. Até os dois meninos ainda pouco crescidos fumavam cigarros de marca. Um ou outro tinha uma sacola de fumo em ramas, e faziam cigarros enrolados em papel acetinado; o velho Anastácio era o único que sacava da faca para picotar o crioulo, enrolando-o vagarosamente na palha. Enquanto os mais novos tragavam expressamente, o velho fazia tudo em etapas, parecendo bem mais atento à comida que preparava, reacendendo o pito apenas quando não precisava mexer nas panelas ou usar as mãos em outra coisa.

Eles conversavam baixo e calaram-se ao perceber que mais uma vez o comprador vinha falar-lhes, mas ele vinha sem a bolsa de dinheiro nas mãos. Embora os mais velhos conhecessem e já tivessem estado a serviço do Seu Arlindo para uma tropeada rápida ou outro serviço ocasional, não gostaram de saber que seu pagamento estava ao encargo, dessa vez, de estranhos. Como não tinham escolha, aceitaram. O serviço andava difícil e a cidade prometia cada vez menos, tirando-se pequenos serviços e muitas chances para entreveros no pequeno comércio das periferias.

Buenas, indiada… Tá faltando um boi nas conta. E vou les dizer… Ou descontamos da paga ou…”, ele nem chegou a falar e o cozinheiro, o mais velho entre todos, como se estivesse esperando o anúncio, adiantou-se: “O senhor não se apoquente… Eu já me vou buscar este animal. É um dos bois velhos… Sei onde ele pode ter ficado… Me dê só até o fim da tarde para regressar com ele, que tal pro senhor?”

O comerciante estava visivelmente contrariado e, sacando do telefone, consultou outro colega, não o que continuava suas anotações dentro da caminhonete, mas alguém que estaria provavelmente longe dali, na sede do frigorífico, sabe-se lá em que cidade isto ficasse. Desde lá, recebeu alguma ordem e ruminou mentalmente como dizer ao velho, nitidamente respeitado por todos os demais. Desligou o telefone e anunciou: “Pois o senhor pode ir. Mas… Se não voltar até o fim da tarde, nós vamos embora. Deste modo, que o boi velho então será seu… Nos acertamos?”

Entonces está mui bien…”, disse o seu Anastácio Nunes, no seu portunhol. O homem voltou à caminhonete e o tropeiro ao seu mate e à sua panela de carreteiro. O palheiro continuava a dormir sobre a orelha.

Dos homens que o seu Arlindo conseguira reunir para o serviço, o único do qual ele se lembrava era justamente o velho Anastácio. Incontáveis vezes ele estivera cruzando aquelas coxilhas e por um tempo fôra seu capataz, por isso quase nem era mais anunciado pelos quero-queros que o sabiam tão comum por ali quanto os pedregais que apontam de Caçapava ou Lavras, parecendo às vezes que poderiam a qualquer momento despencar ladeira abaixo. Desta vez, até crianças vinham em companhia dos mais velhos, duas ao total, apesar de que o seu Arlindo não gostasse muito de ver criança em serviço. A presença do seu Anastácio entre os tropeiros foi o que fez com que ele cedesse. De mais a mais, o gado já não era mais seu e nem suas eram aquelas coxilhas, cerros e sangas, então não estava mais se importando muito com nada.

Antes de soltar o gado na invernada dos fundos, rumo dos campos do seu compadre Maneco Freitas e dali para o corredor, o seu Arlindo postara-se ao lado do velho peão, para a última contagem do gado. Do lado oposto da cancela, estava uma das crianças, que talvez até fosse neto do seu Anastácio, porque tinha a mesma pele cobreada e lustrosa, os olhos escuros e os cabelos retintos escapando por um boné amarelo, que mais lhe realçava a tez. Todavia, todos aqueles homens tinham essa aparência. Ele visivelmente perdera-se nas contas, mas os dois homens velhos não.

“Este boi velho vai também, Anastácio… Tem paciência com ele, o coitado…”, disse o estancieiro. “Vai le doer sair da querência…”, o peão respondeu, continuando a seguir: “Mas eu ponho o guri no seu costado e tudo vai andar bem, o senhor não se preocupe…”

A mangueira foi esvaziando-se rapidamente entre gritos e assovios dos tropeiros, erguendo a polvadeira composta por terra, esterco e pedregulhos que caiaram mais uma vez as tronqueiras e moirões dali. O seu Arlindo caminhou de volta ao automóvel onde se encontrava seu único filho. Era com quem iria viver de agora em diante, na cidade. Por não querer flagrá-lo no momento triste de dar adeus ao lugar, o velho Anastácio não virou a cabeça nem puxou as rédeas do seu cavalo, mas sabia que o outro só podia ir de cabeça baixa, sem ter ideia certa de para onde mesmo se dirigia, com a única certeza de que não estaria mais ali, na Estância do Angico, mais uma a ser tomada pelo cultivo de eucaliptos.

Seu Arlindo tomou o rumo da estrada à direita, ao contrário da tropa, que foi para a esquerda. No seu caminho, a poeira que encontrou foi causada pelas patrolas da prefeitura, que vinham no sentido contrário, em mais uma arrumação provisória da estrada. E, depois, a solidez escura do asfalto e a cidade.

A tropilha de vacas era de tamanho mediano e exigia atenção dos condutores. Tinha duas madrinhas que disputavam entre si a liderança da manada e por isso mesmo volta e meia dispersavam, principalmente quando se derribavam de uma coxilha mais alta ou de um cerro. Os dois ovelheiros acoavam de longe, mas eventualmente era preciso que um dos homens pegasse a galopear, a fim de conter um estouro maior ou o encontro com o gado dos campos por onde passavam. “Pega, guri…”, costumava dizer nesses casos o velho Anastácio, dirigindo-se aos meninos para que eles corressem em seu lugar, porque ele mesmo já não corria, apenas seguia a trote, culatreando a tropa. Ao ouvir aquilo, os meninos pareciam desembestar e varavam os campos como flechas. No mais das vezes, eles levavam os animais no costado do aramado, ora feio e judiado, ora caprichado, justamente quando lindavam com os arvoredos novos.

Não era a primeira vez que crianças acompanhavam uma tropa a comando do seu Anastácio e, para elas, muitas vezes o seu cavalo tordilho parecia ter um jeito mágico de aproximar-se das vacas. Muitas chegavam a crer que o animal falasse com elas, porque elas simplesmente aprumavam-se à sua aproximação. Ou era a voz do homem, talvez. Na maior parte do tempo, eles viam aquilo acontecer diante dos seus olhos sem entender nada, porque entretinham-se mais mesmo era com as suas correrias. O velho gostava de dar com os olhos na criançada, bem como uma vaca com cria olha satisfeita para a sua prole. Ao perceber, entretanto, que desta vez uma delas havia deixado um dos bois velhos de lado por descuido, lastimou-se, culpando-se por delegar a crianças um serviço que requer paciência e atenção, como é o de acompanhar gado velho, ainda mais de um animal que não quer se bandear em viagem.

Precisando decidir com rapidez o que fazer, acabou optando por acompanhar os demais. Os outros não podiam prescindir dele, afinal também era o cozinheiro e levava nos arreios os avios do mate, cambonas e até o charque para o almoço. “Antes um boi que a boiada”, pensou alto antes de seguir os demais rumo à sanga forte, no potreiro vizinho aos campos do seu Maneco Freitas, a meio caminho de chegar à estrada. O boi ficara por ali ou escondera-se num capão de mato. Fosse como fosse, não era hora de pensar muito nisso, mas de tocar a tropilha para a frente em direção ao seu último destino.

Mais tarde, ao decidir seguir de volta para buscar o boi estropiado, Anastácio imaginava saber por onde o animal seguira ao perder-se do controle de um dos meninos. Ou imaginava que o boi, tão velho quanto ele, reconheceria o seu assovio e daria as caras dentre as árvores de algum mato de sanga.

O velho changueiro, acostumado a palmilhar cada touceira daquele lugar, sempre a serviço de outros, ganhou os campos logo ao deixar a cidade, a trote, permitindo que os demais levassem o seu pagamento e, porque não gostava da companhia de cachorros, ia sozinho, emitindo ao assovio uma velha toada que aprendera de seu avô: a única que guardara de memória e que aprendera ao acompanhá-lo em tropeadas de outras dimensões e distâncias, muitos anos atrás.

Ao lado do empedrado, era naquele lugar escondido por uma canhada que logo dava início um longo platô entre as coxilhas onde ele imaginava que o boi fôra esconder-se. O lugar se estendia até a curva que o antigo corredor fazia com campos vizinhos pertencentes aos netos ou bisnetos desse Joca Tavares que dava nome ao lugar e, mesmo próxima à estrada nova, era de difícil acesso, porque sobrevinha de uma biboca. O peão subiu com calma o alto declive sinuoso e teve dó do tordilho por estar lhe promovendo aquela canseira toda.

Se custasse a encontrar o animal perdido, dali a pouco sobreviria o crepúsculo e logo a sombra se espalharia sobre a súbita planície, porque a noite chega rápido no inverno. Talvez ele já soubesse que seu tempo de voltar em tempo de receber o pagamento pelo boi se acabava. Encontrar ou não o boi extraviado, agora sua propriedade, a essas alturas dava no mesmo. De um dos tentos que tinha preso aos arreios, ele foi buscar uma vasilha pequena onde guardava água fresca e tomou um gole que lhe pareceu até gelado demais, por ter estado por um longo tempo junto ao corpo do cavalo. O calor sutil que o dia ensolarado depusera nos campos aos poucos se desvanecera dando lugar ao frio trazido pela aragem do sul. Num atino, o velho pensou em acender o fogo ali mesmo e tapar-se com o poncho para passar a noite, como por muitas noites fizera, mas o cansaço impedia seus movimentos, além da friagem ir encarangando-lhe pouco a pouco o corpo todo.

Não fosse o pedregal que formava quase uma parede, seria impossível resistir sem um fogo de chão, mas ele tinha vontade apenas de acender o seu crioulo e ficar imaginando onde estaria o boi velho, para ir buscá-lo no outro dia. O cansaço impedia movimentos maiores e, alternando os lábios entre o assovio da toada que insistia em permanecer saindo da sua boca e do palheiro, Anastácio voltou a olhar para o lugar, comum e familiar em tudo, com o cigarro tostando seus lábios sem que ele, de repente, atinasse até de cuspi-lo fora.

Graças ao enguiço das patrolas da prefeitura que remendavam a estrada pedregosa, no outro dia bem cedo dois patroleiros perceberam na planície elevada, próximas daquele amontoado de pedras coberto de líquen branco, alguns objetos esparramados no chão e ambicionaram-nos. Coisas perdidas e sem dono que eles faziam o favor de recolher ao tempo em que atravessavam a estradinha, para lá e para cá.

A dupla estacionou a patrola e o pequeno caminhão no vão entre o arame e o caminho de terra e adentraram-se nos campos sem dificuldade, alçando a perna entre os fios esticados. Os objetos que recolheram num saco de estopa eram miseráveis, bem como a qualidade dos arreios e cordas que um cavalo perdera por ali, sabe-se lá em que condições, porque eles esticaram os olhos em volta, mas de imediato não viram nem rastro do animal. Um deles, mais corpulento, ao topar com uma cambona escurecida e amassada, depositada no chão, deu-lhe um pisão, decerto por avaliá-la mal. O outro deu um chute em uma pequena bola enrolada em couro desgastado, possivelmente uma pedra, presa a um tira de couro que voou para ali perto.

Ainda assim, já desmotivados porque julgaram precipitadamente que teriam melhor sorte nos achados, subiram um pouco mais a encosta empedrada. Todos diziam que, naquele lugar, era possível enxergar-se os limites de quatro municípios: Bagé, Dom Pedrito, Lavras e, bem mais distante, as pontas ao sul de São Gabriel. “Vamo lá?”, perguntou um deles, já no caminho da subida. O outro, a quem não restavam muitas opções, foi subindo também.

Num dos lados do pedregal, lá em cima, antes mesmo de olhar para aquelas lonjuras, os dois encontraram um boi de aspas imensas que jazia com uma pata presa no lajeado e porque grandes corvos e alguns caranchos começavam a dar conta do cadáver, decidiram afastar-se e dar meia volta, em resmungos e em combinações de olhar, quase sem dizer nada.

Um pouco abaixo, na direção do sol nascente, estava o cavalo que perdera parte dos arreios e não saía do lugar. Um deles desceu para tentar sujeitar o animal, mas o cavalo não permitiu que tomassem das rédeas amarradas em torno ao pescoço e acabou desabalando-se canhada abaixo, num galope desconcatenado que parecia ir desabar e desmontar-se todo. Nenhum dos dois homens sequer cogitou em persegui-lo e nem tinham ideia de para onde ele poderia ir, se para um capão de mato ou para as plantações de eucalipto que proliferavam na paisagem, entre porteiras abertas. E como os corvos e tatus dão jeito apenas em vísceras e desprezam carne dura e osso, os dois cadáveres terminariam mesmo daquela maneira e nunca mais seriam vistos, de tão escondido o lugar, se ninguém mais os fosse buscar.

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