Disputa de narrativas, ideias lacradas ou mera briga de foices?

No populário brasileiro, nenhuma briga pode ser mais encarniçada do que a briga de foice. Trata-se de uma espécie de escaramuça peculiaríssima na qual ninguém invoca o bom senso, as regras, se haviam, foram previamente inutilizadas pelos contendores e o único limite aceitável, já que não há outro que seja conhecido, é o da decapitação final do adversário. Pois não é nem mais nem menos que isso em que tem se transformado a grande maioria das disputas de opinião em torno da aspiração da verdade desde que o impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff foi votado pela Câmara dos Deputados, em 16 de abril deste ano, em sessão presidida pelo agora cassado ex-deputado Eduardo Cunha. E pode-se debitar este mesmo qualificativo tanto às mais especializadas opiniões quanto às menos importantes, que se fazem de boca a boca ou, como mais usualmente, de teclado a teclado.

O cenário, como qualquer leitor atento já percebeu por conta própria, é desde então marcado por um profundo desencontro de expectativas, ideias, perspectivas, compreensões e também de um termo cada vez mais caro a uma boa parte das opiniões escritas e divulgadas nos meios de comunicação e redes sociais: as famosas narrativas. Com efeito, provavelmente não existe viva alma entre os leitores que ainda não tenha tomado conhecimento do amplo dissenso de opiniões como expressão de uma possível “disputa de narrativas”. Em que pese a acepção do termo recém incorporado pelo jornalismo opinativo ter assumido uma importância desproporcional na disputa pelo esclarecimento dos acontecimentos políticos recentes, de certo modo não deixa de corresponder ao seu significado original, de construção arbitrária dos fatos, sejam eles ficcionais ou apanhados diretamente do real.

De acordo com o dicionário Houaiss, “narrativa” é um termo polissêmico que tanto pode significar o ato ou efeito de narrar, seus diferentes estilos e modos, o mero encadeamento de acontecimentos ou mesmo forma de denominar a escrita ficcional de um modo geral. De posse dessa definição não custa muito notar que a disputa política em torno do impedimento extrapola em muito a oficialização ou a legitimação discursiva, mas chega às raias da validação de cada fato ou afirmação que venham a público, degringolando para uma guerra de informação nos moldes do bom e velho Ésquilo (525 a.C. – 456 a.C.), ainda que a célebre sentença atribuída a ele, “na guerra, a verdade é a primeira vítima”, também não possa tanto assim corresponder à verdade. Mas, bem dizendo, alguém está ligando para isso?

Verdade verdadeira ou mentira mal contada, na mão de um bom contendor tudo serve para golpear, já que este é um verbo que também não pode faltar. E caso uma informação qualquer se comprove equivocada ou fraudulenta, uma outra ainda mais grave ou impactante sempre estará a postos para tomar o seu lugar e fazer o corpo cerrado do “bom debate”, ainda que se recorram a frases não ditas, declarações não feitas e estratégias informativas do mesmo gênero, tão verdadeiras quanto uma plantação de animais pode ser.

Bem, dessa situação precisa e de uma crônica futebolística imaginativa, com o auxílio de factoides de segunda ordem sobre celebridades e subcelebridades, vem sobrevivendo boa parte do noticioso brasileiro há mais de um ano já. Por outro lado, por ser alimentado por um colunismo jornalístico interminável e por viver-se irremediavelmente no império da opinião, o inconveniente da dissidência de ideias é pulverizado, à medida em que prosperam canais e fontes de informação monotemáticos, talhados para o debate sectário e muitas vezes criados exatamente para esse fim. Não há “verdade” que resista a um embate assim, porque a mais primária filosofia e hermenêutica ensina que a “verdade”, ainda mais nestes tempos de hiperinformação, é como um filme a depender mais do revelador do que a quem é revelada; ou exatamente por isso.

Enquanto os fatos sucedem-se autonomamente sem formar qualquer narrativa, quem tomaria para si a tarefa de atar os pontos dos fenômenos políticos nesse interregno? Ninguém melhor que o colunismo de opinião; isso ocorre justamente por ser composto de uma miríade de facetas e possibilidades infinitas, capaz de satisfazer do mais incauto ao mais bem informado leitor, deste ponto em diante denominado “consumidor de informação”. Assim que, na ausência de uma escrita linear e inquestionável, emergem, antes da narrativa, os narradores, pessoas cuja formação, interesses e ideologia inspiram autoridade e conhecimento de causa, além de uma vocação precípua para contar uma história, isso às vezes de modo mais convincente do que a dedução individual seria capaz de perceber por si só ao analisar os acontecimentos.

Eis que assim, e não de outra maneira, emergem as narrativas. Algumas apoiadas nos bastidores mais insuspeitos da política partidária brasileira, outras no rigor e compromisso acadêmico de quase fornecer atestado metodológico (se necessário, ideológico também), muitas outras na boa vontade dos respectivos “consumidores de informação”, tudo isso atestado pela repercussão notada principalmente nas redes sociais e nas previsíveis reações às narrativas porque, como se sabe, não há mais tempo nem lugar para leitores passivos no mundo contemporâneo. E mais muitas outras apoiadas em factoides e problemas criados para soluções previamente estipuladas, como costuma acontecer nas narrativas dramáticas, especialmente entre as mais singelas.

Esta profusão de opiniões acabadas, emitidas e retransmitidas com a facilidade de um clique ou toque cumpre funções distintas, entre algumas outras improgramáveis. Dirigidas a um público potencial de “consumidores de informação”, elas vêm a calhar para todos aqueles que estão em busca de ideias taxativas e lacradoras, como costuma ser repetido em uma gíria comum nestes dias. A questão de “lacrar”, ou simplesmente fechar questão, confere mais com uma expectativa do leitor em dar-se por satisfeito com uma versão narrativa qualquer do que por uma interpretação e exame finalístico dos fatos, especialmente os sociais e políticos, multiversos por natureza. Essa busca desenfreada por autoridade, por substituir o próprio pensamento dedutivo por um discurso competente e de credibilidade não é obviamente nenhuma novidade nem apareceu ontem. Quem alerta sobre isso é um dos principais teóricos da hermenêutica no séc. XX, Hans-Georg Gadamer, que dizia, entre outras coisas, que o respeito à autoridade gera uma obediência incondicional e uma profusão de preconceitos que bloqueiam o agir especulativo. Gadamer, no seu Verdade e Método, refere-se às escrituras bíblicas, mas trata-se de um alerta em tudo atemporal que vem a “lacrar” perfeitamente com tempos de conturbação política. Nestes, as autoridades conseguem muitas vezes representar alguma estabilidade, ainda que o conjunto de opiniões, assim tomado, mostre-se muitas vezes dissociativo ou esfacelado por fatos ainda mais novos. Em tempos assim, o volume da pronúncia de emissão costuma ser bem mais valorizado que os argumentos.

Também ocorre que o império da opinião parece-se mesmo mais com um império que com uma democracia. Como espécies de feudos ou redomas intelectuais, ao lado dos formadores de opinião, desfila algo como uma procissão de crédulos incansáveis a salmodiar o que lhes é tutelado, absorvendo-se em maior ou menor grau o ruído comunicativo e com doses lenitivas de reabastecimento ideológico e reforço na mensagem. Além de deselegante, teria pouca utilidade citar nomes a este ponto, mas são estes indivíduos a servir de totens e a emitir elipses pouco variáveis da sua ordem discursiva, a partir do seu centro em direção raio de sua credibilidade. Por isso é tão raro ou quase impossível flagrar-se sequer uma nota de arrependimento, uma mea culpa por um equívoco ou uma injustiça praticada e publicada por estes dias. É claro que sua presença atestaria a fragilidade do emissor, mas isso na contemporaneidade é irrelevante dado que a função a cumprir justifica antecipadamente qualquer deslize, a menos que seja contestado por um emissor equivalente. Porém isso, em impérios, obviamente não costuma acontecer.

Na planície abaixo, entretanto, as batalhas são esfuziantes e escarnecidas. Sob o tramado por vezes incompreensível de ideologias, opiniões e também narrativas dos mais diversos matizes, projeta-se uma sombra muito pouco permeável em direção à sociedade. Aliando-se a reprodutores chave, algo como uma intelligentsia conectada, perfaz-se o cenário perfeito de obscurecimento, ideal para a confrontação irracional e simplificadora, de segunda ou terceira ordem, levada a efeito de indivíduo a indivíduo. Neste ponto, a maior baixa neste clima beligerante não seria mais a verdade, como teria afirmado Ésquilo há milênios atrás, mas a própria comunicabilidade. E desde que as pessoas não privam-se de lutar em prol das ideias pelas quais foram lacradas, seja por A, B ou C, o enunciado wittgensteiniano “Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen” (sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar) perde completamente o sentido. A despeito da notável incomunicabilidade, o silêncio é indesejável. Aliado ao obscurecimento, seria a evidência última da mais completa e generalizada desorientação.

No plano político, evidentemente a superposição de narrativas dá-se em outra esfera. Nos meandros do poder político e econômico há mais razões incompreensíveis do que seria razoável imaginar. Para isso, entretanto, não há qualquer limite anteposto, ainda que no baile da política partidária e ideológica brasileira há muito tempo seja impossível distinguir os donos dos dedos, das mãos e até mesmo a identidade dos bailantes. É uma outra espécie de obscurecimento, tendo-se em vista que costumeiramente é em seu nome ou de suas ideias, práticas e legendas que as pessoas acabam por digladiar-se.

Vulgarmente, é o que o populário brasileiro, como dito no início desse texto, denomina por “briga de foices”. O aprofundamento dessa conduta belicosa, portanto, fatalmente descamba para uma variação ainda mais perigosa do embate, que seria popularmente conhecida como a “briga de foices no escuro”. Como quem não deve não teme e há provas suficientes para atestar o estado regressivo da sociedade brasileira contemporânea, quem garante que não existe mesmo a possibilidade de estar-se rumando para tal estado de coisas?

Como qualquer estudante do ensino fundamental sabe, esse estágio da evolução humana antecede até mesmo o da disputa pelo fogo. Mas o que há para temer senão um tramado de palavras e mútuas acusações, não é mesmo? Pouco há para se preocupar, dirão os mais precipitados, afinal está mais do que comprovado que a linguagem é inofensiva e não produz resultados factíveis. Dentro ou fora de uma “narrativa”, o que vale é ajustar o volume do discurso, porque qualquer um pode se tornar aceitável de uma hora para outra. Não parece ser outra a natureza da nova barbárie que vamos nos impondo cada vez mais: uma gritaria sem qualquer limite e sem nenhuma outra finalidade a não ser fazer prosperar o silêncio, custe o que custar, desde que seja um que nos permita, a um tempo só, a própria paz e a danação alheia, mesmo em sucessivos, infinitos, desoladores e frustrados golpes de mestre.

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