Tão simplesmente (a flautista de porcelana)

porcelana

Germina – Revista de Arte e Literatura

1

tire seus dentes de mim
por favor, com delicadeza
até que minha pele esqueça
até que ela amoleça
mais uma vez, entre os dedos
do futuro, onde tudo se oculta

2

bom mesmo é quebrar
ou partir ao meio os lugares
remover a casca das palavras
com unhas indelicadas
e, à inacessível invocação
do silêncio, blasfemar

3

o domingo dentro de cada dia
se espreguiça latejando
na mesma punção que ele causa
e balança como os cabelos
de uma boneca esquecida
no vento

4

seus olhos parados
o que veem ou sabem?
não têm desastres
ou recomeços por dentro
só um inútil esquecer-se
no corpo imenso

5

ela leva uma flauta
que não sabe soprar
e pede ao vento que toque
mas ele recusa
e olhando em seus olhos
a refuta

6

a visão enorme dos dentes
interrompe a passagem do tempo
e numa corte de insetos
um vagalume
a levará sem que ela queira
ao caminho do azar e da sorte

7

(a flauta em sua mão
objeta
ela quer apenas
ser aquela coisa
que ela não é
inaudita)

8

o que eu faço de melhor
são desenhos nas nuvens
que tapam o sol inclemente
só eles não chovem
nem podem ser vistos
tão simplesmente

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