No caminho de Sefelá

sefela

Germina – Revista de Arte e Literatura

Therefore I will wail and howl, I will go stripped and naked:
I will make a wailing like the dragons, and mourning as the owls.

Micah 1:8

É quase tudo a mesma coisa, pensando bem.
O anelo inútil dos anjos; a esperança sofrida dos crentes;
o desapego trôpego dos bêbados; o desafogo tácito do pranto;
o desespero vago dos sons. E o imperdível número dos astros
cumprindo sua trajetória, até a hora de dormir das crianças.
É quase tudo o mesmo, visto de longe. E a face serena esculpida
sem mármore, na carne, é ainda mais bela à distância.

No caminho de Sefelá as corujas bicam meus braços.

Depois, quando daquele lado estiver Zaanã e forem outros
os escravos, e os barcos partirem para além, eles levarão
na sola dos pés um pouco dessa areia para moldar
a tristeza dos olhos dessa mãe, e as esperanças famintas minguando
nos farrapos dos seus trajes esgarçados.

Mas, por enquanto, vou a caminho.

Eu tive conforto. Pouco, mas bom. Dividi meu pão e meu vinho e,
na época de fartura, joguei até às raposas uns pedaços. A floresta nós
acabamos com ela revezando as mãos no machado. Nossa caça
era pobre e quando as crianças começaram a morrer
nós partimos. Estas as nossas razões.

Antes de partir, carreguei as pedras para o interior da casa.

Tentaram-me as palavras simpáticas mais que promessas descabidas;
mais a saúde do rebanho que uma possível riqueza; o sono justo
e um lugar definitivo mais que sacolas de sal; a madeira com que
fazer um barco que o mar aberto.

Trêmulo, sei que a febre retorna.

O verão sempre foi insípido e seco. A lua sempre esteve lá em cima
e, como um pêndulo, sempre voltava. Mas eu nunca mais voltarei.
O inverno nunca fora tão frio.

Dei nome aos ladrões e virei eu mesmo o bandido.

Não toco flauta ou tambor. Já não bebo. O ar me alimenta
e o vento quente diz que eu devo flutuar. É como fazem
as aves para sobreviver. Deixei provisões sob a cama.
Tenho um grito que deseja fazer-se ouvir e isso é o que importa,
por enquanto. A miséria é maior do que previra.

Distribuo ordens que ninguém ouve. Pelo menos as corujas se foram.

Gosto de sentir as pedras nos pés. Gosto do perfume do mar
e do incenso que eu nem lembrava mais. Do olor da terra
túrgida pela manhã e ter de subir bem alto para entender
onde estou e que o futuro é.

As aves já não vêm aqui.

Prefiro que não haja espelhos e que não me digam. O meu estado
fui eu mesmo quem causou. Comunico estas dores às cabras e em
suas pegadas. As cãibras? Não contem a ninguém sobre elas, eu disse.
O melhor de falar com os pastores é que eles jamais nos entendem.

Não deixei para trás um camelo, uma tenda, uma sombra.

Sei cantar como as aves e não o faço. Sei cultivar o trigo e não o faço.
Sei aborrecer os demais e não o faço. Sei agradar os ímpios e não o faço.
Sei insultar quem merece e não o faço.

O peso das minhas roupas eu deixarei nesta enseada.

Quero que saibam o que vim fazer aqui. Vim buscar as pedras da
minha lapidação. Vim riscar meu nome no couro. Vim fazer com que
jamais esqueçam que sou imperdoável, como este deserto vem sendo comigo.
E que fui habituado a perecer e não deixo que me toquem ou alcancem.

Quando deveria fugir, esperei.

Os cravos são ásperos e velhos. A tarde é mais longa que o normal.
Seus pulsos são cruéis como espadas, mas não há espadas em Samaria.
O que me dói,então, que o grito natimorto encerra e define? São os
outros? É o mundo? O futuro? A espécie de sinais que me deixaram
eu entendi como quis. Se este caminho não me leva a Sefelá, eu vi tudo o
que precisava. De longe, daqui, de onde posso ver, é igual a de onde eu
vim.

Deixai-me aqui.

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