A chatice é condição da amizade

robot2

Inevitável hoje não lembrar dos amigos, entrando no Facebook. Mas, bem antes dessa palavra adquirir o caráter polissêmico de agora, a amizade costumava ser uma coisa bruta de tão natural, de tão espontânea e, às vezes, até de tão inoportuna.

O também gaúcho Mario Quintana, entre seus muitos achados, disse certa vez que “há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, que são os nossos chatos prediletos.” Quanta boa maldade tinha o Quintana… Ou sinceridade, talvez.

Pensando bem, tinha mesmo ele, quase certo que sim, razão. Amigo mesmo é chato. Amigo avisa. Dá conselho. Se intromete e, em caso de risco de vida ou morte, está ali para te impedir de fazer o pior. Ou para tentar, pelo menos.

Não tive tantos amigos assim na vida e nem sei se fui um desses para alguém, mas estes para mim serão os inesquecíveis, entre todos. Não os que evitaram meus próprios desastres, mas os que pelo menos procuraram que os evitasse por minha própria conta. Um amigo que te vê indo para o abismo e não dá bola não é amigo, é um monstro, um número, um sujeito inqualificável que só mesmo em redes sociais e na sua torrente interminável de bits pode figurar junto aos da outra espécie.

Lembro como se fosse hoje ainda do meu primeiro grande amigo. Ricardo era o nome dele. Eu era o magricelo da dupla e ele era o parrudo. Ainda assim, lembro que eu odiava que o chamassem de “gordo”. Eu matava um que fizesse aquilo na minha frente, simplesmente. Lembro da credulidade que tínhamos um para o outro, no alto dos nossos oito anos de idade. Era algo inimaginável.

Eu, fantasioso que era, sempre gostei de inventar maluquices e ele acreditava piamente em tudo o que a minha mente resolvia criar. Lembro de ter-lhe dito uma vez que eu não era um ser humano, mas um robô. E saí apitando e andando todo quadrado e ele saiu correndo chorando para ir contar o terrível segredo à mãe, o pobre… Lembro que o primeiro risco de vida que corri foi ao seu lado, com minha bicicleta sem freios e um declive abissal que descobríramos brincando nos arrabaldes do bairro. E ele, amigo que era, disse que eu não fosse, que eu não era louco. E eu fui. E ainda assim ele veio em meu socorro, o Gordo, mesmo tendo me avisado do absurdo de antemão. Amigo impagável que ele era, desses que não dão em árvore.

Hoje não sei onde anda. E muitos outros, perdidos no mundo e guardados somente pela memória, essa implacável… Depois mudou-se, como vamos mudando. E por aqui e por ali encontrando uns mais ou menos chatos, uns mais ou menos amigos. Uns que ficam por uns tempos, outros que nem chegam a fazer casa na gente. Uns falastrões e fanfarrões. Outros tímidos e silenciosos. Mulheres ou homens, tanto faz. Jovens ou velhos, não faz diferença nenhuma. Só tem que ser alguém que se incomode com o que a gente é e faz, de vez em quando. Pensando bem, Quintana tinha mesmo razão em dizer que a chatice é a primeira condição perceptível da amizade. Se não, a gente mal nota a presença.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s