A sobrevida de Sherlock Holmes

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Exceto na forma de plágio, diferentemente da música e eventualmente até mesmo das artes visuais, a literatura é uma arte que não suporta interpretações. Por isso que as tentativas de imitação de obras consagradas costumam parecer transgressões de puro mau gosto, e isso vale desde as tentativas não noticiadas (supostamente originais) até os chamados livros psicografados, nos quais os “espíritos” de autores voltam a escrever, ainda que sua passagem para a outra vida já tenha acontecido há anos. Uma forma efetivamente original de prolongar a vida de um personagem, embora questionada por muitos que não apreciam esse tipo de ficção, há poucos anos rendeu na literatura e no cinema um momento que seria impossível perceber na vida de um dos maiores, senão o maior entre todos, personagens da literatura policial de todos os tempos: Sherlock Holmes.

Mr. Holmes, filme apresentado no Festival de Berlim de 2015 e que aportou tardiamente no Brasil, posteriormente até a edição de 2016 do festival, chega quase ao mesmo tempo nos cinemas e nos formatos DVD, Blu-Ray e streaming. O filme mostra a velhice de Sherlock Holmes e é uma adaptação do romance A slight trick of the mind, do norte-americano Mitch Cullin, autor inédito no Brasil.

Vivificado por um Ian McKellen que nem de perto lembra seus personagens mais conhecidos,  como o mago Gandalf, de O senhor dos anéis, ou o mutante Magneto, de X-Men, no filme dirigido por Bill Condon o clássico personagem de Conan Doyle se encontra em franca luta pela manutenção de um dos mais importantes recursos de todo o investigador e talvez o principal artefato cognitivo de qualquer pessoa: a memória. Além disso, no filme Holmes se vê confrontado com limitações naturais da velhice, como o enfraquecimento físico e o adoecimento, mas principalmente com as dificuldades de aceitação da condição. No filme, Holmes está bastante velho, mas continua trabalhando.

Mérito de um roteiro muito bem arquitetado e um excelente conhecimento do personagem, o filme obtém um ritmo narrativo sequencial, paulatino, no qual a experiência e vida pregressa de Holmes vão oferecendo contornos cada vez mais precisos ao momento atual de vida do personagem, intrincando a trama em um caso investigativo cujo apagamento progressivo da memória exige dele o uso de seus mais conhecidos atributos: a sagacidade dedutiva e o método científico. As surpresas do filme, porém, não se encerram por aí, e um de seus méritos é justamente dimensionar o homem preservando-se o mito do personagem, e este feito, em se tratando de ficção biográfica, é por si só um atestado de qualidade, principalmente por fugir da banalização e do uso venal de um personagem consagrado da literatura universal.

Numa época em que, tanto na literatura quanto no cinema policial, os conflitos são cada vez mais resolvidos com base na violência ou em superpoderes, não deixa de ser notável a busca por recuperar no uso da razão e da inteligência formas de compreensão dos fatos e enquadramento da realidade. Na extensa galeria de personagens investigadores da literatura, desde os criados por Edgar Allan Poe, Raymond Chandler, Maurice Leblanc, George Simenon, Agatha Christie e tantos outros clássicos do gênero policial, o que costuma estar marcado é o refinamento da inteligência em contraposição à ignorância e ao obscurecimento.

Que a literatura e o cinema estejam indo buscar inspiração e personagens no século XIX talvez possa ser um sinal de que, no tempo presente, nos esteja sobrando brutalidade em detrimento de qualquer sutileza. Pode ser uma interpretação apressada, claro que pode, mas a verdade às vezes não se revela ou demonstra apenas por um tipo de sugestão mais ou menos convincente? Para a maioria dos meros mortais é quase certamente que sim, mas isso jamais seria concebível para Sherlock Holmes. E mesmo em um filme em que se prolonga a sua existência para muito além do que imaginou seu autor original, a ele caberá dissolver tanto mistérios e culpas passadas quanto compreender sua própria condição. Trata-se de uma tarefa que mesmo a ele é custoso admitir, já que a ninguém é facultado saber tudo e as razões para uma pessoa perceber isso só fazem sentido individualmente, e quando fazem. No caso do bom e velho Sherlock Holmes, é uma dúvida que só ao final da história se pode saber. Além da atuação magnífica de McKellen, essa é mais uma razão pela qual o filme não permite sequer piscar os olhos.

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