Papai Noel do mal

lobomaunoel

Você ainda é daqueles/las que quer perpetuar a fé infantil na magia do bom velhinho? Quer perpetuar a inocência da infância temoroso da antecipação da canalhice adulta? Tsc, tsc. É compreensível, mas é bom contar desde já com alguma oposição. E o seu esforço, lamento informar, pode ter pouquíssima efetividade. O mudo está virado, amigo/a. E, se você tirar a cabeça da tela um pouquinho para o mundo real, irá concordar comigo.

Deixe eu lhe contar o que me aconteceu.

É que peguei meu guri, fomos no super e lá presenciamos umas barbaridades. Vertendo do gauchês para o português: convidei meu menino para acompanhar-me nas compras, no supermercado, e ele aceitou, como costuma aceitar qualquer convite para ir porta afora. Lá aprendemos democracia de verdade, exercitando-a na prática, coisa que na escola se tem uma pálida noção, além dos valores do mercado in loco. Quem não frequenta o supermercado tem uma visão distorcida da realidade, chapada e idealizada. Não é o nosso caso, o meu e o do meu guri. Lá negociamos o que comprar e o que deixar, na maior civilidade. Isso é ruim. Aquilo é caro. Isso vai. Aquilo fica. E assim vamos pelas prateleiras, no mais alto espírito civil e dialógico. Em resumo, aprendemos valores (e que valores!).

Com a proximidade do Natal, é uma temeridade levar uma criança que efetivamente crê no Papai Noel ao supermercado, mas enfim… Tudo deve ser aprendizado na vida, salvo a ignorância, é uma convicção que tenho. Se bem que tem gente se esforçando bastante em aprender a ignorância, produto infelizmente sem obsolescência programada.

A minha sorte, no caso, é que o supermercado é de bairro e, portanto, não tem Papai Noel a caráter, mas apenas as respectivas referências iconográficas. Bolas vermelho-douradas em profusão. Fitas caudalosas. Neve artificial feita de isopor picotado. E, óbvio, a trilha sonora de fundo, que não pode faltar.

Pois então, estávamos nesse dia atravessando o corredor de enlatados, rumo ao dos produtos de limpeza, quando escuto um diálogo improvável, digno de um filme de terror. Meu filho estava, por seu lado, envolvido com o desequilíbrio de umas compotas de pêssego… O diálogo era mais ou menos assim:

– Deixa isso aí senão o Papai Noel ta hoahsaksj hjah.

Ta hoahsaksj hjah significa que não ouvi o restante da conversa, mas vi que era uma jovem mãe que se dirigia a uma menina nos seus prováveis 4 anos de idade. Ela com seus cabelos encaracoladinhos e de vestidinho. Uma bonequinha.

Passado o susto pelo tom ameaçador, seguimos o nosso caminho. Uma curva lá e outra cá e de novo as duas, mais ou menos à distância:

– Te comporta senão o Papai Noel trnen cnjkcdcin hjk.

Trnen cnjkcdcin hjk é algo de uma vilania tão horrível que nem vale a pena reproduzir o que seja.

Não pude evitar o que me aconteceu. Tive pena. E eu detesto penalizar-me, mas tive. Da menina chorosa, da mãe obviamente incapaz de atender a série de desejos irrefreáveis da filha e, principalmente, do Papai Noel, convertido em um personagem maléfico e assustador, cheio de condicionantes e portador por excelência das mensagens mais chantagistas do perímetro.

Passada a compaixão generalizada, veio a tentativa de compreensão. Eu me espanto é que, ao descobrir-se que Papai Noel é uma fábula, as crianças não passem a odiá-lo, pelo menos numa projeção da raiva que poderiam ter daqueles que manipularam como bem entenderam a figura fanfarrona do bom e simpático velhinho gorducho.

Essa mãe, talvez na melhor das intenções educacionais, uniu o Papai Noel ao Lobo Mau, ao Velho do Saco, ao Bicho Papão e a todas as abominações que os adultos vêm representando na mente infantil ao longo dos tempos, despersonalizando-se, quando talvez eles próprios estejam dando a entender que eles não são assim, como dizer? Um exemplo de beatitude…

Quando contamos aos projetos de adultos que há monstros no mundo, eu penso que às vezes estamos antecipando um tipo de autojustificação, porque a face humana comporta naturalmente a ambivalência do bem ou do mal, salvo entre os santos, embora haja quem queira convencer os demais que assim o seja também entre os seres humanos comuns. É um direito inalienável do indivíduo o de fazer crer aos demais a própria perfeição. Porém também pode ser que seja apenas uma perda de tempo de livre escolha. Bom, mesmo que haja alguns que se esforcem bastante, e estou longe de queixar-me disso, cada vez mais contamos apenas com uma pálida noção da intimidade alheia, porque progressivamente ela é mediada por filtros de toda a espécie. E pela arbitrariedade de uma humanidade virtualizada que pode, inclusive, tentar manipular a própria identidade, temperamento, características, etc. Tempos hipermodernos.

Nessa intermediação, todos os ícones do passado já foram para o beleléu. A ambivalência e a falta de credo na ponderação de verdade é uma tendência inexorável, ao que tudo indica. Prova disso são os negacionismos escancarados que se sustentam por aí. Gente flagrada no ato insistindo em inocência. Outros defendo o indefensável e cometendo o impensável ostentando sua dignidade de araque mundo afora. E vamos bem nessa marcha, ensinando às crianças que, na falta de argumentação, a chantagem e a mentira podem ser um bom negócio.

E depois querem que a educação formal dê conta de formar bons cidadãos e a panaceia de um novo mundo, mas sem jamais admitir que estamos entranhados da mediocridade que falseamos talvez essa seja uma exigência exagerada. Ou absurda. Eu mesmo vi essa mãe liquidando com o coitado do Papai Noel abertamente e nem consigo condená-la pela precariedade do artifício. Minha empatia é sem limites, coloco-me até no lugar dos criminosos, os reais e os morais. Quem garante que, num desespero, também não tenha de usar dessa barganha infantil? Mas, por um exercício de crítica, prefiro ceder às pressões por um chocolate ou por uma eventual bugiganga do que em vilipendiar a imagem alheia. E depois não querem que as crianças tenham medo da criatura. Vá entender esse pessoal.

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