Luto

luto

Não sou psicanalista nem tenho pretensão de sê-lo, mas eu já não consigo esboçar uma reação, uma palavra sobre as atrocidades recentes que têm ocorrido no mundo. Principalmente depois de junho de 2013, no Brasil, e da reprodução daquela fotografia do menino sírio na praia, alguma coisa em mim padeceu. No episódio terrível do rio de lama tóxica mais um pouco calou-se em mim e um profundo desânimo de usar palavras para estes assuntos. Não tenho a nada dizer sobre isso, nem tampouco sobre os atentados em Paris.

Isso não impede que eu leia e concorde ou discorde de algumas ideias e interpretações, mas eu mesmo não consigo ter ideias ou interpretar nada. Não estou falando de empatia, que é uma bela palavra mas que, desacompanhada de um gesto correspondente, faz ainda menos que a desolação. Eu sinto que não estou desolado. Estou em luto. Um luto que já vai se emendando no outro, tanto na direção do passado quanto do futuro. Um luto que não sinto muito por aí porque atualmente, em seguida às grandes tragédias, eu já vejo a miséria da culpabilização assolar a possibilidade de que este país e este mundo se recomponham com alguma dignidade desta guerra não declarada, mas em curso, que leva de arrasto consigo a natureza, religiões, sistemas políticos, ideologias, teses econômicas, desejos, literaturas e, principalmente, pessoas.

Eu acho que desaprendemos o luto porque dia a dia banalizamos a morte. E eu acho também que devemos reaprendê-lo não em seu sentido lúgubre, mas no reflexivo. A morte, porque a sabemos inevitável, nós desaprendemos a respeitá-la e, já que todos morreremos, parece que não há muito a fazer pelo seu oposto, que é a vida.

A maioria das manifestações e coisas que leio me soam, por isso mesmo, espécies preguiçosas de desespero e desamparo, mas o luto da perplexidade, de encontrar-se sem palavras, sem definições nós parecemos ter receio em adotar abertamente, porque talvez alguém nos tenha ordenado implicitamente isso: que a nossa palavra deve ser sempre imperativa, taxativa, obsessiva. Parece que, sem registrá-la, estamos tão mortos quanto aqueles mortos, os de verdade.

Porém não temos substitutos para as palavras. E o silêncio do luto ocupa demais a nossa mente permanentemente tão atravessada pelas ideias, imagens e pensamentos dos outros, que é até difícil saber de quem é um pensamento, de onde ele vem, qual sua razão de ser e estar em nossa perspectiva.

A culpa, por outro lado, todos sabemos e rapidamente a apontamos. É dos islamitas. É dos chauvinistas. É dos empresários. É do governo. É da oposição. É dos Estados Unidos. É dos bolivarianos. É dos fascistas. É dos neoliberais. É das feministas. É do Bolsonoro. Da Dilma. Do Aécio. Do FHC. Da Marina. E etc.

O que eu sinto mesmo é que muitas vezes dói muito pertencer à espécie humana, porque tudo nela está contido e temos mais de semelhante com essas pessoas aí de cima do que eventualmente desejaríamos. Nela está contido o desejo de morte e o de vida. Quando o instinto de vida predomina parece que o certo a fazer é festejarmos. Mas quando é o de morte, precisamos do luto que recusamos porque fazê-lo significa dar a mão à palmatória e reivindicar nossa fabilidade, condição primeira para cessar o imenso ciclo de violência que, para a desgraça de todos, talvez apenas esteja insinuando-se e sempre pode piorar.

Sem reconhecer isso é possível que sigamos adiante no esclarecimento, mais muito pouco em direção às soluções que precisamos para sobreviver por mais tempo no planeta, sejam milênios, séculos ou meses.

Estou de luto porque não reconheço isso claramente nem em mim mesmo e gostaria também de simplesmente punir aqueles que poderiam me parecer os monstros que atacam minhas ideias supostamente corretas, não fossem eles outros tantos de nós mesmos, os seres humanos. Estou de luto e de folga. E se me for vedado o luto, estou apenas de folga.

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