Chato que nem sei

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Acho uma metáfora bonita dizer que guardamos uma criança no fundo de algum lugar, mas o certo talvez fosse dizer que a transformamos em quem somos. Que estamos sempre fazendo isso. Minha foto de criança, portanto, é minha própria face de adulto. Essa que vive todas as emoções disponíveis, conforme pode. É uma foto viva que às vezes sossega um pouco para escrever umas coisas.

Não me incomodam as fotinhos das crianças antigas de todos estampadas nas redes sociais, mas elas me trazem uma melancolia incontrolável.

Não sou dado a nostalgias, embora goste de olhar para o passado. Acho que por lá há pistas do que nos virá, ainda. Do que ainda não veio e será consequência disso tudo que, se negarmos ou negligenciarmos, não nos ajudará nem um pouco a entender onde iremos dar ou nos conduzir melhor para encontrar o futuro numa situação melhor, na medida do possível.

Minha infância foi comum, não foi gloriosa, nem mais pura, nem melhor, nem pior que a dos outros ou a dos meus filhos. Foi a infância possível, na família possível, na cidade possível, no país possível, no contexto possível. Não tenho fantasias sobre ela. E não sinto saudades, sobretudo porque a infância é um tempo de vulnerabilidade, de que se depende muito dos outros e nem sempre os outros podem nos ajudar como desejam. Fora os que não se esforçam muito.

Neste ano, mesmo que se eu quisesse, não poderia desvincular a data de hoje à foto do menino Aylan. O menino sírio encontrado na praia, morto, em busca de uma situação de vida melhor.

Esse desencontro de situações, que às vezes acontece – e é muitas vezes inevitável – entre a infância e a morte é algo em que ninguém gosta de pensar. Este é, afinal de contas, o choque que essa imagem traz e, principalmente, porque há razões específicas para isso ter acontecido, mesmo que isso tenha acontecido sem razão alguma de ser… Nada que importasse tanto, pelo menos.

Eu também lembro de todas as crianças vitimadas pela violência, claro. Elas estão em toda a parte, denunciando indícios (ou mais que isso) da nossa falência enquanto espécie porque, ao desproteger a infância, sabemos muito bem que estamos comprometendo o nosso futuro coletivo. E isso não é darwinismo social, é a realidade dos fatos.

Aquelas crianças que, vulneráveis por serem crianças, amplificadas em sua condição de vulnerabilidade pela pobreza material e pela falta de acesso a mínimas garantias existenciais extrapolam para mim qualquer melancolia individual e nostalgia, expondo o trágico que ronda a vida humana e o delicado equilíbrio que sustentamos. E que às vezes não sustentamos. E para o que muitos não estão nem aí.

Morbidez minha, pensarão alguns. E que deveria estar era no parque brincando com os brinquedos novinhos dos meus filhos. Não vou. Já fui ontem, estamos exaustos e hoje resolvemos simplesmente ficar à toa. E nesse ano não teve brinquedo novo. Culpa da crise e seus preços exorbitantes. Se você não a está sentido é porque é um sortudo! E também porque nem sempre o brinquedo é necessário à brincadeira. É só um acessório sem vida própria.

Nós mesmos, adultos que somos, brincamos de cuidar da infância e do futuro com uma displicência incomum para a nossa faixa etária e pretensa seriedade. Uma displicência de certo modo melancólica, porque sabemos mais ou menos claramente que nossa descendência arcará com a conta do nosso esbanjo desenfreado. Não é a criança do passado que vai nos salvar para o futuro, mas a criança que possivelmente subsista em nós, ainda não completamente entorpecida pelo vício do auto-engano e dos artifícios com o qual nos divertimos vida e internet afora. Porque criança mesmo é quem ainda têm a aprender na vida e guarda algum espanto. O resto é chato que nem sei.

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