Dia dos progenitores

shomem

O mais estranho do dia dos pais, para mim, jamais será a exaltação humana, gesto dos mais naturais e necessários. Hoje, para mim, o estranho é que parece que voltamos às noções mais convencionais de patriarcado, no qual a figura masculina volta a ser sacralizada, como nos melhores dias do séc. XIX. Mandamos ao espaço o discurso pseudocontemporâneo de famílias dinâmicas e, ao invés de perceber que mesmo a função paterna tendo se desviado da imagem do pai provedor e totalizante, nosso desejo e imaginário revela-se ainda infantilizado, como se aguardasse a redenção de alguém superpoderoso, no caso “o pai”.

Por isso, por um desejo meramente inclusivo, penso que hoje devemos comemorar todas as espécies de pai que há e não apenas a que tivemos por exemplo e experiência.

Pais-mulheres, para as mães que levam sozinhas a hercúlea tarefa de manter em pé uma família (que há de todos os formatos, não esqueçamos).

Os pais pilantras, que se escaparam no mundo e deixaram essas pessoas na mão não precisariam, no caso, de uma data especial também? Ou pode ser hoje, identicamente?

Pais heróis e santificados pelo autoelogio contam também, mas esses todos os dias são “especiais” e supimpas. Mesmo que façam-se a todo momento lembrar, lembremos deles também, estes vaidosos.

Os pais que dão-para-o-gasto, cuja aferição demográfica é imprecisa mas que, ao que tudo indica, são extensa maioria.

Os pais biológicos, que compareceram apenas com a carga genética e logo vê-se que são eles mesmos a própria carga.

Os do tipo “caixa-forte”, que confundem dinheiro e afeto, normalmente por um aprendizado indevido. Não seria uma boa inclui-los também para que (vá lá!) pudessem melhorar…?

Os pais emprestados, que podem ser amigos, tios, parentes distantes, vizinhos, alguém qualquer em que se pode confiar, eu incluiria também na comemoração de hoje.

Não fazer isso seria transformar a data em o “dia dos progenitores”. Nada mais fora do tempo, mas cada vez menos duvido de quem saiba dizer em tempos “do que” nós vivemos. Ao menos, então, que seja o tempo de todos…

Eu, cujo pai foi formado na mentalidade do séc. XIX (meus avós paternos são dessa época) e cresci ouvindo/assistindo no dia dos pais a trilha hippie de Cat Stevens, “You’re still young, thats your fault”, cada vez mais percebo que essa data é uma inversão sem sentido. O dia dos pais é dado pelos filhos.

Talvez vivamos sem perceber essa inversão, de que somos filhos dos filhos e de que devemos por meio deles rejuvenescer. Não sei. Seja como for, é um dia virado. Colocar mais gente no mundo não faz de ninguém um pai, isso é certo. Mas não precisa ser homem nem super-homem. Já que somos super, colegas de todos os gêneros e condições, façamos como aquele, em empenhar força em corrigir os erros. Talvez não seja muito nem nos glorifique, mas dê para o gasto..

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