Obsoleta (p/m)aternidade

eyecontact

Ninguém precisa ser psicólogo(a) para saber da importância do contato visual para o desenvolvimento da personalidade infantil. Mas parece que ninguém mais dá a mínima para o assunto, talvez porque o saldo dessa conta venha a aparecer bem mais tarde na vida. Mas eu imagino que não seja por um desejo expresso de perpetrar o mal que cada vez mais pais e mães prestem mais atenção nos seus gadgets que em seus próprios filhos. E vice-versa.

Porque meus filhos ainda se encontram na idade de frequentar bastante consultórios médicos, preciso ver cenas que me doem e mais ainda por não poder fazer absolutamente nada, afinal trata-se da vida privada dos outros – estes irretocáveis seres diferentes – e de suas opções. Para quem não imagina do que se trata, a cena é corriqueira: um adulto acompanhando seu filho pequeno (bem pequeno) ao consultório médico. Cada qual no seu smartphone.

Olhando a cena não sei do que sinto mais dó, se da criança que na situação de doente nem cogita procurar o amparo pat/mat(erno) ou se do adulto(a) que poderia ter muito bem escolhido um pet em vez de uma criança, se bem que nem pet merece tão pouca atenção afetiva (talvez uma tartaruga ou uma minhoca). Realmente não sei o que é pior, mas provavelmente, na observação oposta, eu que inspire piedade com meu telefone carcomido e obsoleto.

Definitivamente, preciso de um(a) psicólogo(a) e de me corrigir com pressa, porque me descubro um reacionário em muitos aspectos. Um reacionário tecnológico que numa mera análise custo x benefício não vê diferença alguma entre o IPhone 4S, 5C, 5S ou 6. Um reacionário linguístico, que prefere uma palavra qualquer ao mais significativo emoticon. Ou até mesmo um reacionário total, porque muitas vezes tento me convencer de que não preciso me entupir nem a meus filhos de bugigangas, mas de outras coisas.

Seja como for, sinto que preciso reagir. E quando vou a lugares assim, onde há pais e filhos convencidos de que não há mais relação possível que não a mediada digitalmente, eu costumo sentir necessidade de reagir bombasticamente, até. Confesso esse meu instinto destrutivo. Não o faço por uma questão de civilidade, lógico. E também porque confio que logo haverá um app substitutivo para o contato ocular capaz de emular respostas emotivas com base numa interpretação de uma fantástica inteligência artificial que logo há de estar por aí, se é que já não está.

Isso não tem nada de fantasioso. E o mais triste é que nem trágico é ou parece ser. É o que tem que ser. E viva o pragmatismo, a religião da tekhné. E obsoleto(a) é você que ainda me lê! :) kkk

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