Tire a mão da minha bolha

bolhinhas

Repentinamente fui apresentado àquela que parece ser a forma mais inteligente de explicação dos fenômenos sociais contemporâneos mediados pelo mundo digital. Trata-se da teoria das bolhas.

Derivada das teorias econômicas sobre os nichos de mercado, de froma resumida pode-se dizer que a teoria (cuja autoria me é desconhecida) preconiza que as pessoas deixam-se cada vez mais influenciar pelos valores culturais compartilhados no círculo de influência (ou bolha de amigos) de cada indivíduo, alienando-se de todo o resto. Tenho encontrado versões mais ou menos elaboradas da aplicação da teoria das bolhas em inúmeras fontes de informação, em artigos de jornais, revistas, blogues e até mesmo em perfis e murais célebres das redes sociais, onde às vezes a colisão de bolhas é o bastante para o rompimento (às vezes escancarado) de relações, ou e-relações.

Embora eu possa garantir que já tenha visto algumas dessas bolhas com impressionante nitidez, às vezes tenho, por outro lado, a impressão de que tudo seja apenas uma teoria de acomodação ou um tipo de metáfora tecnológica. A origem da explicação viria de uma desmentida informação de que o Facebook usaria algoritmos de interesse para limitar o acesso e oferta de informações para os usuários. Ainda que o desmentido pareça bastante claro, a imagem construída solidificou-se a ponto de servir de analogia para análises políticas, culturais, etc.

Na última semana, a notícia e a cobertura jornalística da morte do cantor Cristiano Araújo catalisou nas redes sociais um debate sem precedentes. A morte brutal, ocasionada por um acidente de trânsito, criou uma espécie de ruptura de interesses como a que foi visibilizada durante as eleições de 2014, na qual se dividiram situacionistas e oposicionistas. Da mesma forma, a morte do cantor fez emergir uma polarização distintiva de qualificação das mais rasteiras, tendo-se em vista que o cantor seria apenas um fenômeno de uma “cultura menor” televisionado por um meio de comunicação “detestável”, segundo seus detratores e, de outra parte, um ídolo da música contemporânea, de acordo com seus fãs.

Desnecessário recorrer à sociologia cultural para entender a necessidade de descolamento de identidade (porque ele é diretamente proporcional, nas redes sociais, às tendências de autoafirmação), mas é bastante melancólico constatar que uma nação que há pouco propugnava pelos benefícios da inclusão social deseje ser tão binária entre a produção e o reconhecimento cultural de classe (pois é disso que se trata, ainda), como se houvesse ainda tempo social e necessidade para um julgamento desse porte.

Admitindo a veracidade da teoria das bolhas culturais e digitais, é mesmo notável que às vezes as bolhas rompam-se. Mas para provar-se que seus núcleos realmente se comuniquem será preciso bem mais que teorias sobre tolerância, coexistência e diversidade. Um meme, talvez, tenha melhor sorte..

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