Minha primeira musa chega aos 80

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Que não se pense imediatamente em uma atriz hollywoodiana, muito embora não deixe de ser incrível o fato de que eu tenha me encantado com a Jessica Lange de King Kong justamente por causa dela, desta muito especialíssima “musa” que há muitos anos atrás (nem vale dizer quantos) levou-me para assistir ao monstruoso monstro peludo em um cinema de Bagé, numa época em que havia muitas salas de cinema (isto mesmo, no plural) em Bagé, minha terra natal, lá nos confins do sul do Brasil, dizem as más línguas onde o diabo perdeu as botas. Maldade pura, obviamente.

Freudianos radicais que me desculpem, mas eu sempre tive razões para ter fixação na minha mãe. Se os outros não tiveram, que culpa tenho eu? Minha mãe sempre foi plenipotenciária em matéria afetiva. Carinhosa só de olhar. Cheia de falhas e defeitos também, como qualquer outra mãe, como qualquer outra pessoa. Mas não tenho o menor interesse em investigá-los ou desvelá-los, ainda mais a essa altura da vida, no momento em que ela vem chegando como não quer nada aos seus oitenta anos, tendo enfrentado dificuldades reais ao invés de tergiversá-las, além da maratona de criar os cinco filhos. Isso faz dela uma vencedora? Uma heroína? Penso que não. Faz, ao contrário, uma pessoa que terei sempre para admirar. No seu modo pacato de existir, tem ido adiante em muitas situações que derrubariam a mim mesmo. Nem me atrevo a falar de ninguém mais. A mim, basta que eu reconheça isso. Reconhecer isso, inclusive, me faz muito bem. Poder falar sobre isso me faz um filho feliz.

Dito isto, todo o resto é dispensável. Posso ser sucinto sobre o tema, já que com ela sempre me entendi só de olhar. O mesmo olhar, provavelmente, que vê em mim quem me entende assim também. Pelo menos é essa minha pretensão pessoal na vida; o resto não me interessa tanto ou, pelo menos, interessa menos. O olhar compreensivo antes que julgador. O olhar de quem reflete antes do impulso. Vejo-me neste olhar, embora seja bem mais impulsivo que ela, eu acho. Não sei. A impulsividade é um movimento sempre circunstancial. Não é porque ela seja minha mãe e primeira musa (vou explicar isso) que preciso ser idêntico a ela, até porque, para isso, deveria ser seu clone e sou apenas seu filho.

Vou explicar essa história de musa antes que psicólogos (principalmente se irmãos) de plantão venham desconfiar de alguma conotação sexual nisso. Não poderia haver nada mais ridículo, diga-se de passagem.

É que, como alguns sabem, “sofro” dessa estranha mania de escrever em metáforas, em coisas meio nonsense que os teóricos da literatura convencionaram chamar de poesia. Pois é, como explicar isso? Algumas pessoas nascem crespas e outras lisas. Uns gostam de uma coisa, outros de outra. Eu gosto de poesia há tanto tempo quanto lembre de mim mesmo e isso em mim sempre foi movido pelo que o mundo e os outros me despertaram. Nunca brotou de um “eu” essencial, embora possivelmente esse “eu” aí sirva de filtro a emoções, pensamentos e outras elaborações.

Antes de ir adiante, preciso mais um vez confirmar algo que venho afirmando há tempos sobre essa coisa de escrever poesia. Isso, para mim, não é dom, carma, não me difere de ninguém em relação a nada, não me torna mais especial, não faz com que me sinta mais sublime, não muda nada no universo, mas muda em mim – e isso é só o que me importa da poesia. O resto do que digam sobre ela, que cada um pense o que quiser e puder, mas de modo algum isso é um traço distintivo entre quem escreve versos e quem não escreve. Eu prefiro pensar que é apenas um hábito, uma vontade trabalhada mental e espiritualmente e só atinge a quem se dá ao trabalho. E que ninguém pense que é pouco ou obra exclusiva da inspiração ou obtida mediante as graças de uma musa. Bom, às vezes é um pouco isso também. Aqui, neste caso, é.

Quando tinha seis anos de idade e estava na primeira série do primário (fundamental de então) foi que escrevi meus primeiros quatro versos. Uma quadrinha escrita a mão num cartão de dia das mães não muito caprichado. Daria muito dinheiro para voltar àquele dia e entender de onde e como brotou a vontade de escrever versos, porque minha leitura na época não era mais que a de cartilhas e gibis. Um poema, portanto, mesmo que primário, ainda hoje me parece algo meio inconcebível. Mas eu tinha uma razão para escrevê-lo. Eu tinha ela e a vontade de dizer algumas coisas e abrir meu coração infantil. Foi o que bastou.

Duvido muito que, de todos os versos que escrevi depois, algum tenha saído tão autêntico quanto aqueles. Tenho certeza que não. Mas porque a gente tem essa mania de tentar repetir o feito, vieram as tentativas posteriores, creio que em sua maioria frustradas..

Não pensem que eu vou mostrar aqui a minha quadrinha para a minha mãe. Não vou. Fiz para ela. Já está de bom tamanho que eu abra meu coração em público mais uma vez. E, pensando bem, eu hoje não lhe escreveria quatro versos nem tanto uma nova Ilíada. Mas não me custaria nada agradecer por ser a mãe que é, nem menos nem mais que isso. Pelo hábito de ter sempre um livro a mão e espichar o olho para a vida das outras pessoas com consideração. Dela, essa é a única herança que me interessa de verdade.

Te amo, mãe.

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