Tudo como dantes

abrantes

Sei que há pais e mães que festejam como vitória “inclusiva” sobre a segregação/exclusão/eixo-do-mal/tudo-que-há-de-ruim as escolas que de modo oficial ou extraoficial “instalam” junto a(o) aluno(a) um monitor/professor assistente/professor auxiliar/professor exclusivo/ou outra terminologia (eu diria eufemismo) qualquer. Eu não consigo. Nem que me autoinjetasse drogas de pseudo-inclusão e self-deception na veia eu conseguiria. Acho que já vim vacinado de outras encarnações contra esse tipo de enganação. Não sei se um dia não terei que assinar também sobre essa linha, mas, se o fizer, será como vencido, jamais como vencedor.

Acho sinceramente que isso é uma patifaria geral. Patifaria das escolas, das famílias, dos gestores, educadores, autoridades, estudiosos, ideologizadores de um modo geral e quem mais aparecer para tentar convencer a clientela que isso é o que há de melhor que se pode fazer em termos de “educação inclusiva”. Penso o contrário. Penso que é o pior. E se isso vai se tornando a prática por excelência é preciso admitir que estamos num barco à deriva no qual, como em tudo, quem pode mais safa-se melhor. Ou seja, tudo como dantes (talvez melhor seria dizer tudo como sempre) no castelo de Abrantes.

Já espero alguém saltar na minha jugular virtual e me cobrar soluções. Injusto! Eu ainda estou averiguando os problemas! E de uma maneira especialmente cruel: vivendo-os. E desde que nem governo algum nem ONG alguma nem coisa nenhuma consegue me dar informações qualitativas sobre o que está acontecendo realmente, verdadeiramente, factualmente com os alunos “de inclusão”, eu penso que a proliferação dessa alternativa do profissional anexado não é nada mais nada menos do que o mais claro diagnóstico possível, ou seja, de que a educação inclusiva, de fato, ela é real e está por aí (se alguém tiver endereços confiáveis na minha cidade favor divulgar!), mas as escolas inclusivas são estruturas arquitetônicas da ficção, seja ela acadêmica ou política.

Dirão alguns eufóricos: “quanto pessimismo”. Claro, para pessoas acostumadas ao proselitismo e a discurseira habituée, o mínimo de realismo soa apavorante, ainda mais se o seu orçamento familiar permite trafegar sociedade afora a bordo de uma bela bolha. Assim é moleza. Assim qualquer um. Assim, deveria ser para todos. #soquenao

Devo esperar muito para que me enfileirem os bons exemplos? Os premiados, agraciados, documentados, encerados e alisados como bichinho de pet shop? Por favor.. Não se cansem com minhas reclamações, afinal vivemos no melhor dos mundos possíveis. Pátria educadora. Não sei que outra panaceia mais.

Sei que é preciso superar as dificuldades e concordo com isso. Dizem-me (alguns alucinados) que políticos estão aí para ajudar. Mas só o que vejo são ministros de alto quilate incapazes de berrar (e isso seria o mínimo) contra cortes orçamentários na educação pública. Eu acho que políticos estão aí para outro verbo e ação. Ou o plural disso, mas eu só queria ter também essa boa-fé. No puedo. Como dijo Martin Fierro: mas sabe el diablo por viejo que por diablo.

Agora superar as dificuldades como faria um Shazan, sem diagnóstico algum, apenas com números de matrículas, com a corrupção roendo as verbas do FUNDEB, com a inoperância do judiciário em agir a não ser quando em favor de suas benesses e um senso de coletividade e espírito civil cindido entre “coxinhas” e “petralhas” e sei lá o que mais, como num fla-flu ou num gre-nal, é muito mais do que auto-engano e boa vontade. Beira o masoquismo. E masoquismo está, felizmente, bem para lá do meu limite de tolerância.

Alguém deve estar festejando a este momento as vitórias inclusivas do Brasil. Não deve ser alguém que está incluido nas escolas públicas que fecham vexatoriamente salas de recursos e oferecem (oferta irrecusável!) uma educação de sexto mundo aos cidadãos. Todos eles bem excluidinhos da silva, sob o teto e a mão protetora de um estado combalido e vampirizado por uma elite econômica de quinta categoria que tem a seu serviço uma escória chamada classe politica. Como Junot em Abrantes.

Anúncios

Um comentário em “Tudo como dantes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s