“Ele”, o índio

indioAmanhã, 19 de abril, é o dia do índio. Isso porque, no Brasil, todo o dia é o dia do “não-índio”, contrariando aquela famosa canção de Baby Consuelo.

Pois a a data neste ano será comemorada justamente na semana em que as populações indígenas mais protestaram e compareceram a público, saindo de suas aldeias para lutar contra a famigerada PEC da demarcação, o que a mídia impressa e televisiva praticamente ignorou.

Na escola dos meus filhos (e penso que isso tenha se passado na maioria das escolas), nem sinal de “projeto” pedagógico envolvendo as populações indígenas. Só uns trabalhinhos bem mixurecas, sem contexto nem aproximação alguma com a realidade. Uma coisa assim, quase incidental, despreocupada mesmo. E inútil, por isso mesmo.

Isso serve para me esclarecer de que, cada vez mais definitivamente, o indígena é, entre todos, o sujeito por excelência a ser ignorado no mundo contemporâneo, talvez porque seja e represente essencialmente – e sem qualquer artifício – uma espécie de óbice natural à desenfreada sociedade de consumo. Um óbice per se.

E já que ocupar-se de seus problemas seria uma “perda de tempo”, isso no senso comum e na visão lucrativa de pessoas inescrupulosas que não imaginam outra forma de ganhar dinheiro a não ser prejudicando os demais (prejudicando a quem quer que seja, desde que não a si próprios e seus lucros) que tal encontrar por aí, nessa internet toda, alguma coisa para mostrar às crianças sobre os irmãos curumins e cunhatãs? Não custa muito, mas para facilitar a vida dos navegantes, selecionei algumas animações muito bonitas.

Brincando na aldeia

Pajerama

A lenda do dia e da noite

A Iara

Povos nativos

Vejo corriqueiramente muita gente propagando teorias e ideias tendenciosas afirmando que os indígenas vivem ou estão fora do “nosso” tempo histórico e que, por isso, deveriam assimilar o modo de vida da maioria. Pessoas que estariam, portanto, fora do tempo e de lugar. Fora do mundo como ele é.

Mesmo que isto pudesse ter mesmo um pingo de verdade, o que isso significa, afinal de contas? Que o homem branco está coberto de razão e o indígena aí meramente atrapalhando o curso “natural” e “irrefreável do progresso”? Não haveria uma razão menos óbvia que essa? Pelo menos uma que não contasse com a nossa complacente estupidez e ignorância?

Pode até ser que a maioria das populações indígenas esteja mesmo em outro tempo histórico. Um tempo anterior, no qual ainda não haveriam barbarizado-se o suficiente para destruir o próprio lar, como “nós” fazemos com um aparente orgulho, muitas vezes.

Prefiro pensar que eles estão aí justamente para mostrar que a evolução não é uma linha reta e pré-definida, mas uma história que contamos e escrevemos, simplesmente ocultado e apagando dela quem não queremos, quem desejamos proscrever. Não é isso o que foi feito com as populações indígenas nessa semana, afinal de contas, ao ser sonegada sua mais que justa aparição nas primeiras páginas do jornais?

Muitas pessoas, num exercício de hipocrisia sem tamanho, afirmam que os indígenas, além de obstruir um suposto projeto de desenvolvimento nacional (mesmo que seja o modelo subindustrial, poluidor e depredador) não têm nada a oferecer, que são pessoas que já deveriam ter sido exterminadas como o foram no passado em outras nações latinoamericanas, como o Uruguai, por exemplo, que não deixou um charrua vivo sequer para contar a história. Que são pessoas que não têm nada a dizer nem caminho a apontar, que estão tão envolvidos em desmatamento ilegal quanto os brancos e outros argumentos do mesmo estilo.

Para mim, muito antes pelo contrário, os indígenas são das poucas pessoas que estão aí para demonstrar o caminho que eles mesmos não querem tomar, já que a sociedade coerente e civilizada obedece invariavelmente à lógica de manada dos mercados, seja ele o macroeconômico quanto o da mais ínfima economia doméstica. Eu apenas sinto uma ponta de inveja por perceber que eles, mesmo lutando contra chacinas, políticas públicas enganosas e descaso descarado, sabem o que não desejam “per se“. Ai de nós, não índios. Pelo menos usemos esse dia “deles” para percebermos isso e para entender melhor o que eles estão tentando nos dizer.

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