Voltaireano

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Pensando no meu dia a dia, trivial como todos os dia a dias, chego à conclusão de que já vivo num mundo inclusivo e que, por conta disso, posso me considerar um sujeito de sorte e só não me aposento dessa coisa toda se eu não quiser.

De manhã cedo vejo da minha janela cadeirantes, muletantes, pessoas amputadas e pessoas idosas indo e vindo de uma clínica de fisioterapia que há aqui perto de casa, no meu quarteirão. São pessoas que vão e vêm na mais absoluta naturalidade, com seus andadores, cadeiras de rodas e etc.

Alguns eu conheço de nome. O seu José perdeu o movimento de uma perna num acidente e vai por ali em busca de aliviar dores incômodas que, todavia, são incapazes de tirar seu sorriso do rosto. “Pior se tivesse morrido”, ele diz. Recusa-se a ser uma vítima de si mesmo. É o herói da reabilitação. Para mim seu heroísmo autêntico falta a maioria das pessoas que vivem pela autojustificação, autoindulgência e autoengano. Eu aí incluído, não vou me fazer de santo.

Conheço também muitas pessoas que tratam da melhor forma possível seus problemas psicológicos e estão aí, produzindo e vivendo. Acho isso realmente fantástico, porque há uns 40 anos atrás isso seria totalmente impossível.

De tarde levo meus filhos na escola. Na sala de aula da minha filha há um colega autista de quem nunca ouvi uma queixa importante e sua melhor amiga, que tem deficiência física, nem sei com que diagnóstico nem isso me interessa. Ela é uma fofa. Se eu estivesse na turma delas, ela também seria a minha melhor amiga.

Hoje mais cedo levei minha filha, junto com o meu filho, a sua aula de dança. É aqui pertinho de casa. Ela faz aulas de street dance e sapateado. Sua tutora e colega mais experiente tem síndrome de Down, igual ao Rodrigo. No caminho de volta cruzo com outra menina com síndrome de Down, vizinha que volta da escola e com muitos outros clientes da clínica, cada qual no seu destino.

Não penso que o mundo, aqui resumido na rua onde moro e no meu trajeto diário, precise ser mais inclusivo que isso. Precisa ser melhor, ter um trânsito mais humanizado, caminhos tranquilos, lugares para um lazer seguro e acho que está bom, desde que ninguém esteja insatisfeito com isso e algo tenha que ser melhorado. Mas isto é para todos, inclusive para os que não tenho maiores simpatias. É o que se espera de um mundo civilizado.

Do ponto de vista “macro” há profissionais interessados cada vez mais, entre todos. Novos pais com muita vontade de colaborar com a causa inclusiva. Um terceiro setor hábil em relações políticas. Não há porque duvidar que as coisas não vão por um bom caminho, ainda mais com o aporte de leis fabulosas, como a Lei Brasileira de Inclusão, por exemplo. E políticos verdadeiramente comprometidos com as causas das minorais, especialmente aquelas em situação de desvantagem. Eles dizem isso e basta para que eu acredite neles. Por que haveria eu de duvidar de pessoas que ocupam cargos tão importantes?

Decididamente, não tenho com o que me preocupar. Espero que tudo isso que conspira para um mundo melhor apenas se aperfeiçoe e que ninguém sinta-se ou perceba-se excluído. Dessas preocupações eu deveria me sentir livre e cuidar sem solenidade bem mais da minha própria vida. Muitas vezes tive essa sensação e hoje, depois de um dia feliz, acho que é por aí mesmo. Há pessoas e instituições e entidades e partidos políticos e personalidades cuidando do bem estar púbico. Por que cargas d’água vou eu me preocupar, não é verdade?

Acho que está tudo bom e bem. Como dizia o bom e velho Voltaire “Se este é o melhor mundo possível, o que será dos outros?” Mas nem esta pergunta eu não me farei mais, só não vou dar as costas totalmente que aí é já dar chance para o azar. Um olho aberto e outro fechado deve ser o suficiente para levar a vida numa boa. E, realmente, a essa altura é o único que me interessa.

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