Isto não é sobre Lincoln

Filme-Lincoln-2012

Recém ontem fui assistir o filme Lincoln, produzido e dirigido por Steven Spielberg e estrelado pelo absoluto Daniel Day Lewis. O filme é de 2012 e trata de um momento crucial na história norte-americana. O acirramento da Guerra de Secessão e a aprovação e assinatura da 13ª emenda, dando conta do fim da escravidão por aquelas bandas de lá. O filme narra os quatro últimos meses da vida de Lincoln e seu empenho político pela aprovação da emenda.

Muito mais que um filme biográfico, é um filme sobre política e mostra toda a habilidade de bastidores de Lincoln em tratar e convencer a classe política, essa organização perene e atemporal da história da humanidade. Não sei até que ponto é fictício ou realista, muitos historiadores e biógrafos condenaram o filme em muitos aspectos.

Mas, pessoalmente, custo a imaginar que ele tenha conseguido passar a emenda através da compra de votos ou do subsídio de políticos. Ou será ingenuidade minha? Enfim, não sou grande conhecedor da biografia dele nem da história dos EUA para afirmar o que quer que seja, mas não consigo evitar um sentimento de empobrecimento político diante desses eventos da semana, os de sexta e os de hoje, aqui no Brasil.

Sinto uma verdadeira miséria política permeando os “debates” e briguinhas de uma população que sobretudo não merece isso tudo. De uma população que amanhã voltará a sua “marcha” de sempre, em ônibus lotados e caríssimos por vias entupidas de carros que deveriam ser emblemas de cidadania, mas são apenas objetos poluentes e dispendiosos evidenciando o nosso descaso com a mobilidade urbana, transporte decente e tantos outros problemas reais, de todos os dias.

Também tendo a pensar em eventos políticos críticos como este que Lincoln viveu (e pagou com a vida por viver) e mais uma vez sinto essa sensação de mesquinharia, muito, muito menos do que o povo merece e do que as grande lideranças da virada do século poderiam ter protagonizado, mas não puderam, quiseram ou sei lá o quê.

Fico procurando pensar no que houve, nos últimos anos, que mobilizasse algum sentimento ético em nosso país, principalmente entre a classe política. Penso em depois da abertura política e das Diretas Já. Talvez a primeira eleição do Lula, mas ela só veio depois daquela famosa carta ao “povo” brasileiro. Ou antes, na Constituição, aquela que o PT inclusive recusou-se a assinar, por considerá-la “reformista”, entre outros termos. Talvez a Reforma da Previdência, uma entre tantas mimeses do PT em relação ao PSDB, razão da maior cisão que o PT já passou, culminando na formação do PSOL e na perda de militantes históricos, até mesmo fundadores do partido. O impeachment de Fernando Collor. Alguma coisa que não tenha ocorrido sob a égide do “centrão”, mais ou menos sempre comandado pelo PMDB?

Não, acho que nada minimamente comparável. Temas como aborto e outros tabus sociais jamais foram tratados seriamente por aqui, apenas tergiversados por pessoas apenas travestidas de “progressistas”.

Sem entrar no mérito de números e estatísticas oficiais e outras análises economicistas, de indicadores baseados muitas vezes em índices de sobrevivência, politicamente acho que quase nada, não que eu lembre. Parece que desde o Plano Real instaurou-se a pax perpétua brasileira e, a despeito do que tenha melhorado ou piorado – e isso é tão passível de aferir quanto os hábitos de leitura de cada um, ou seja, sem chance de haver concordância – parece haver uma força inercial movida a boas doses de ideologia consumista. Tem nos bastado, é o que parece, nesses últimos 30 anos mais ou menos.

Do PT e de suas gestões eu lamento não terem aproveitado um pouco mais esse período de tranquilidade política para executar um programa de governo mais ousado, pelo menos do ponto de vista dos investimentos sociais (reforma agrária, educação, saúde, essas coisas). Talvez seja cedo dizer. Talvez Dilma ainda o faça. Espero sinceramente que sim, mas não digo quantas fichas estou apostando nisso.

O quanto de turbulência poderá vir desse movimento de oposição é difícil saber. O PSDB, por estar amarrado em um dança de cadeiras e poder que circula em torno do próprio centro de Brasília, está de fora ou está muito mal alocado aí, talvez por não querer identificar-se com alguns perfis menos afeitos à democracia e ao estado democrático de direito. Não sei. Não tenho proximidade com ninguém do PSDB, embora não precise de muito para entender o seu cenário político.

Para mim, o joguinho da semana vai mesmo ficar no zero a zero, mas a emoção só deve aumentar, porque senão é fim de jogo. Por mais que se grite nas redes sociais, uma nova pesquisa de popularidade do IBOPE vem por aí. Talvez ela verá outros resultados nesse fla x flu. É esperar para ver. Que o PT, que por muitos anos agradou a classe média sobretudo por ser uma promessa ética e conquistou seus votos, optou por outra trajetória não há a menor dúvida. Isso alguns nomes do PT com decência já disseram em alto e bom tom.

Eu pelo menos não preciso esperar ver a sangria de ninguém para entender que há um crime em curso. E acho deprimente tanto o comportamento de pagar pessoas para protestar quando ameaçar ir e não ir, ou seja, bater e esconder a mão, como faz o chique PSDB. O PSOL eu penso que só vou mesmo voltar a acreditar nele quando puserem na mesma faixa o seu sol sorridente e um “fora dilma”, como compete a um partido que se diz de esquerda, mas está fazendo apenas o mesmíssimo que os tucanos. Triste.

Sobre o “golpismo”, é um episódio (se é que se pode chamar assim) ainda mais triste que mobiliza pessoas que dariam bons cínicos a converter-se em meros hipócritas. A insinuação de que suas origens estaria no movimento que derrubou Jango é estendida demais, na minha opinião. Basta pesquisar “FORA FHC” no Google e ali estão as razões desse meu pensamento, de que a ira por impedimento é bem mais recente: esteve em todas as manifestações sindicais dos anos 90, por exemplo.

Ou este texto aqui, do ex-governador, ministro da justiça e da educação Tarso Genro, que – se trocássemos FHC por Dilma – poderia muito bem ter sido assinado por um Rodrigo Constantino da vida. Confesso que esperava mais de articulistas e especialistas em análise política. Até agora só tenho lido coisas lamentáveis até de pessoas que gosto, como Janine Ribeiro, Juremir Machado da Silva e outros. Durante a semana, talvez novas leituras “me representem” melhor. As que li até agora estão meio ridículas e cagalhonas (desculpem o termo), em sua maioria.

A nação precisa reagir, por Tarso Genro: http://www.correiocidadania.com.br/anti…/ed127/politica2.htm

Sobre comparar a dimensão política de Liconln e Lula seria um despropósito tamanho. Impensável. Mas, enquanto cinema, o Lincoln de Spielberg é muito, infinitamente melhor que o Lula do Fabio Barretinho. Com Daniel Day Lewis não poderia ser diferente.

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