Toy Story Day

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Quem tem filhos pequenos sabe que os Toy Story Days da vida são inescapáveis. Um Toy Story Day é o dia em que aqueles bonecos e brinquedos que tanto fizeram sentido precisam finalmente ser encaixotados e achar um novo destino no mundo, porque eles não cabem mais no armário, no quarto, na casa, na infância.

Há pais que lamentam quando os filhos crescem porque é o sinal indubitável de que eles mesmos estão envelhecendo. Ou porque então deixaram de ser os “seus próprios” brinquedos para dar passos mais largos rumo à autonomia individual. É. Não adianta querer lutar. São só uns bonecos quebrados, afinal de contas. Não são?

Mas, afinal, porque tanto receio, tanto medo, tanta hesitação diante ao mais natural e imperceptível dos fatos da vida, a evolução? É isso. É que este é um daqueles momentos em que a tal evolução da vida se torna perceptível, palpável, sensível.

É uma dobra dessa curva sinuosa. E é claro que haverão muitas outras, em em muitos sentidos e orientações. Esta, no caso, do Toy Story Day, é penosa porque é justamente uma das primeiras delas. Ou porque talvez seja o fim da primeira infância anunciando-se, rumo ao desafio social da vida em seu sentido mais amplo.

Claro que, no fundo, todos os adultos têm um pouco de consciência de que temos um mundo social bem diferente do que gostaríamos para legar aos nossos filhos e, portanto, isso para nós talvez signifique um tanto de sabor de fracasso. Mas isso é uma tremenda injustiça! Ninguém pode arcar sozinho com uma culpa desse porte. Isso é uma injustiça tremenda! Não foi a folha que você pisou sem querer no chão que está acabando com a floresta amazônica. Acalme-se, por favor.

Embora seja difícil resistir à melancolia inerente às caixas de velhos brinquedos, é hora de enfrentar a situação. De posicionar-se.

Àqueles que preferem passar a vida na retaguarda, olhando para a infância perdida dos filhos eu lamento pelo destino que escolheram, que não é senão o mesmo dos bonecos da caixa, vítimas do tempo e da vida.

Adiantar-se a cada passo deles e limpar o terreno de mazelas e problemas tampouco me parece uma boa ideia, porque os privaria de escolher e, sobretudo, aprender pela experiência.

Estar a seu lado, suportando e compartilhando inclusive a angústia de escolher (mesmo que isso não seja mais que encaixotar uns brinquedos quebrados), talvez seja só uma idealização, mas com certeza é a única garantia possível de que, em seu tempo, eles também estejam assim para nós, lado a lado.

Olhando o saldo final da operação, é perceptível que alguns dos brinquedos, furtivamente, “escaparam” da caixa. Certamente eles não fizeram como no filme e fugiram de lá por conta própria. E isso não é a prova viva de que a vida se dá muitos passos adiante e outros tantos atrás?

Como o anjinho do soninho (presente da vovó), a bola mais murcha e inútil entre todas e os bonecos que ainda se mantém barulhentos farão daqui para adiante sem seus comparsas não é possível saber. Mas que é bom saber que a infância resiste a entregar os pontos dentro de nós, isso é. É um alento. Se fosse música, seria um acalanto.

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