A realpolitik me faz votar em Marina

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Marina Silva em Xapuri, Acre. Foto: Wikipedia.

Minha candidata à presidência da república não deveria existir, pelo menos não nestas eleições. Ela nasceu e viveu boa parte da vida num lugar que dizem, como fosse piada, que também não existe, embora esteja contido no mapa desse imenso país, numa região estranhamente dominada pela natureza e pelas diferentes formas pelas quais a população encontra para viver com ela. Nela. Através dela. Pelo menos enquanto ela dure. Enquanto ela esteja ainda lá.

Até os dezesseis anos viveu, lá no Acre, na invisibilidade das letras sem sentido. No analfabetismo. Foi empregada doméstica. Eu nunca imaginei que teria um dia como candidata à presidente da República uma mulher que não procura falsear no seu curriculum vitae que foi empregada doméstica, muito menos inventar qualquer coisa ali, para parecer mais palatável a imensa massa de eleitores da classe média, extrato econômico da população que costuma decidir eleições conforme seus mais conscientes e inconscientes temores e anseios.

Minha candidata nasceu chamando-se Maria Osmarina Silva de Souza, mais conhecida pelo apelido de Marina, nome que registrou em 1986, quando se candidatou a deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores. Na mesma eleição, o líder e mentor Chico Mendes concorreu a deputado estadual e ambos não foram eleitos. Chico não sobreviveu, como se sabe, à violência que ainda hoje grassa no norte do país em disputas territoriais. Marina teve outra sorte e outro destino político, em uma trajetória muito bem conhecida.

Mas minha intenção aqui não é falar da trajetória política da candidata Marina Silva tanto quanto do porquê da minha guinada de opção eleitoral, mesmo que isso talvez não seja do interesse de muitas pessoas.

Pois então. Mais ou menos até ontem eu estava convencido a votar no candidato Eduardo Jorge, do PV, naquilo que seria uma espécie de jornada particular em torno de uma candidatura “pura”, movida ideologicamente ou, pelo menos, uma candidatura que agredisse menos que as demais as minhas próprias ideias. Até então, nem o apelo fácil ao voto útil era capaz de demover-me da intenção, mas aos poucos fui sendo tomado pelo fantasma irresistível do pragmatismo político, essa que parece ser a única forma aceitável de pensar e fazer política no Brasil contemporâneo.

Antes de assistir a forma radical com que Eduardo Jorge aniquilou os demais concorrentes nos debates a que assisti, pensei também em votar na candidata do PSOL, Luciana Genro, exatamente pelas mesmas razões. Como se fosse possível esboçar – pelo menos no interior da minha subjetividade – uma reação à disseminada realpolitik, que levou de roldão nos últimos anos os últimos vestígios de uma política realizada por princípios, talvez numa razão superior aos 95%, se consideradas todas as legendas partidárias e, ainda mais, a intrincada rede de coligações que amarra as intenções de uns nas mãos de outros.

Mas eu cedi à tentação de concordar com a tese bismarckiana de que a política é mesmo a arte do possível. E, mesmo que isso me traga mais desalento que esperança, por suplantar a emergência de um sentimento social autônomo e por estrangulá-lo no caminho estreito das seções eleitorais para respirar-se novamente apenas em novo período eleitoral, trata-se de uma tentação inelutável. Praticamente de um beco sem saída.

Se a ingenuidade não tem mesmo lugar na política, a mim só resta lamentar por isso. Num “outro mundo possível”, o candidato Eduardo Jorge seria um bom presidente para o Brasil. E isso menos pelo tom caricatural que configurou sua aparição nessa eleição e mais pelo necessário encontro entre um país amarrado a um modelo de economia centrada na exploração desenfreada dos recursos naturais e seu próprio futuro, no qual os dilemas que as novas gerações enfrentarão já despontam, como a poluição exagerada, cidades trancadas em si mesmas, carência de água, etc etc etc.

No mundo “possível” da política pragmática há, no entanto, apenas dois cenários em questão. E eles estão expressos nas candidaturas de Dilma e Marina.

Embora eu não creia tanto em que haja uma cisão ou uma ruptura de modelo em vista, pelo menos no plano simbólico Marina representa um pouco do Brasil que não se reconhece ainda como nação, mas precisa chegar a isto para ter um vir a ser a todos os seus cidadãos, já que todos são seus contribuintes. Vinda do Acre, o estado que “não existe” na piada, a candidatura de Marina diz respeito a uma parcela da população que tenta fixar-se no seu território ao invés de correr em busca de uma vida concretizável nas metrópoles e nas intensas relações de consumo necessárias para viver-se nos grandes centros urbanos.

Se a candidatura Dilma representa a ascensão da capacidade de consumo da população pobre, do IPI zero para aquisição de produtos da linha branca, automóveis a perder de vista nas ruas e necessidade brutal de fornecimento energético, Marina lembra mais os povos do Xingu, daquelas pessoas cuja existência em si mesma é um óbice a um projeto de desenvolvimento social que não se importa em conservar o habitat e o modo de vida e de geração de renda de milhares de pessoas que dependem de um ecossistema que, por outro lado, é por si só um entrave aos planos de geração de energia para uma “nova classe média” sedenta por consumo de eletrônicos, automóveis e bens de consumo com grande efeito gerador de CO2, tanto no uso final quanto em seu processo produtivo.

Na disputa entre Dilma e Marina há, portanto, um background bem mais significativo que as campanhas eleitorais podem revelar, porque centradas em objetivos eleitorais numéricos emergenciais no qual vale mais o embaraço ao outro do que os próprios programas de governo. A disputa entre um país do centro sul, para o qual o norte pouco existe e, quando existe, interessa apenas enquanto reservatório aparentemente inesgotável de recursos naturais e um país do centro norte, do qual tanto Marina quanto o ex-presidente Lula vieram, mas com destinos bem diferentes.

Um dos argumentos que tem sido mais utilizados pela campanha dos militantes pró Dilma contra Marina na reta final do primeiro turno, principalmente nas redes sociais, reside em caracterizar a candidata do PSB como alguém que teria propostas vazias e inconsistentes, distantes do que seria necessário para a condução da economia brasileira, além de outras ameaças já desmentidas pela própria Marina, seja a respeito da flexibilização das leis trabalhistas ou o seu desejo de encerrar os programas de compensação social do governo, como o Bolsa Família, por exemplo. Dentro dessa visão rápida, Marina não teria condições de enfrentar a realpolitik, porque ela envolveria uma capacidade de articulação política ampla como a que, por exemplo, sustenta o governo atual.

Pois essa é justamente a razão principal pela qual mudei minha intenção de voto. Se é para ser pragmático e construir novas relações de força entre os partidos, Marina é uma opção pelo menos ainda inaudita, enquanto que o PT não propõe qualquer mudança nesse sentido, consolidando-se no núcleo duro dos partidos de centro no Brasil, junto ao seu principal aliado, o PMDB e até mesmo ao PP, que seria o braço mais à direita entre todos os partidos, sucessor direto do antigo PDS e da antiga ARENA. Se Marina irá manter a articulação nos mesmos moldes do governo atual, então não há tanto a temer em relação a alguma instabilidade política ou decomposição no Congresso. Se ela fizer diferente, talvez a distinção posterior entre os partidos identificados à direita e à esquerda mude bastante, forçando o PT a buscar uma nova composição na oposição. Talvez mais à esquerda ainda junto ao PSOL e PSTU ou, lamentavelmente para alguns, à direita, junto à gama de partidos cuja única vocação política parece ser o desejo de assentar-se no poder. Este seria o impasse por excelência para o PT caso Dilma perdesse as eleições, ou seja, onde e na companhia de quem locar-se para retornar ao cenário político como alternativa.

Para uma candidata que há pouco sequer existia, de um estado que é piada nacional, de uma região que é mais desconhecida para maioria das pessoas que o leste europeu, cuja aparência da população não nos deixa esquecer de que nossa identidade não é centrada exclusivamente nos habitantes do centro ou do sudeste, Marina é um fantasma e tanto para uma eleição que até poucos meses era dada como certa e definida de véspera. Não é mais.

Por redimensionar um jogo político dado como esgotado em si mesmo e por representar a possibilidade de alterar-se um cenário de pasmaceira centrífuga, vou precisar mudar de voto a menos de uma semana das eleições. Vou ter de deixar meu candidato preferido em nome de um pragmatismo mentecapto que significa que nossas opções políticas são imaturas demais para enfrentar os temas que Eduardo Jorge enfrentou de peito aberto, sobre energia sustentável, aborto, entre tantos outros. Em seu lugar, todas as mais sensatas pessoas clamam por que se faça o melhor possível. Para quem, como eu, não vê no atual governo o melhor possível sendo feito em muito setores e em muitos direitos fundamentais, Marina pode ser mesmo apenas uma aposta. Eu, pelo menos nessa eleição, vou preferir apostar no duvidoso que manter-me no marasmo que trabalha em comunhão aos setores mais conservadores da política brasileira. E vou sem medo algum. O máximo que pode acontecer é minha candidata perder a eleição, mas sua presença irá cada vez mais exigir que o Brasil assuma-se o país continental que é e responsabilize-se não por promover um aceleramento ao pós-capitalismo consumista, mas por conservar uma sociedade diversa e digna. Em todos as regiões e estados da federação. Inclusive no Acre.

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2 comentários em “A realpolitik me faz votar em Marina

    1. Oi Rose. Pois é. Talvez nunca se venha a saber disso. Bom, em 7 dias saberemos se a hipótese pode mesmo existir e aí então tudo que virá através dela. Até agora, sabido mesmo é o apoio que a candidata Dilma já conta e que inclui entre outros Sarney, Collor, Renan, Katia Abreu, etc.

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