Mídia e deficiência: quando e como

Entre os próximos dias 13 e 15 de agosto, dentro da programação do VI Encontro Internacional de Tecnologia e Inovação para Pessoas com Deficiência, acontecerá uma série de mesas redondas destinadas a debater assuntos relacionados aos disability studies, ou estudos sobre a deficiência. A última delas, na tarde do dia 15, abordará os temas comunicação e deficiência.

Ao lado de Jairo Marques, jornalista que atua na Folha de São Paulo e de Lara Pozzobon, produtora do Festival Assim Vivemos e diretora da Lavoro Produções Artísticas, debateremos como esses dois assuntos relacionam-se entre si e também com outros assuntos, em suas diferenças e peculiaridades. Não são, infelizmente, tão comuns as iniciativas de debater as relações entre comunicação social e o tema deficiência e, por isso mesmo, há uma gama bastante grande de temas a abordar.

Desde que, em 2003, a ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância e a Fundação Banco do Brasil trabalharam em uma pesquisa quantiqualitativa sobre a emergência das temáticas da deficiência nos meios de comunicação, provavelmente nenhum trabalho tão abrangente e sistematizado foi realizado nesse sentido. Isso não significa que trabalhos pontuais, entre institucionais e acadêmicos, não tenham sido realizados no período, embora o âmbito predominante dos estudos sobre deficiência venha se configurando mais em outros campos do conhecimento, especialmente nas ciências da saúde e ciências sociais. O que se verifica, em decorrência disso, é a existência de lacunas consideráveis a respeito do conhecimento que se dispõe sobre a relação entre as duas temáticas.

Seria improdutivo procurar recuperar todo o apanhado e os achados daquela pesquisa sem que se pudesse atualizá-los efetivamente para, a partir daí, cotejá-los, embora esta seja uma demanda interessante a muitos atores sociais, como governos, movimentos sociais, associativos, etc. Por outro lado, os dados que procuramos levantar são bem menos específicos e realizados em uma metodologia diversa, tendo em vista a disponibilidade presente de novos recursos de tratamento e recuperação de informações, especialmente daquelas publicadas em meio digital no ambiente internet. Já do ponto de vista conceitual, as diferenças são menores, a não ser aqueles conceitos e realidades sociais que, no espaço de uma década, foram substancialmente modificados, como conceitos educacionais, dispositivos legais e outros.

Dessa forma, antes de partir a uma pormenorização maior, é preciso comentar que os dados obtidos tem caráter predominantemente quantitativo. Ainda que sua expressão permita algumas especulações de natureza qualitativa, isso apenas ocorre pela sua natureza de macroindicadores. Trata-se, portanto, não de um ponto de chegada de uma pesquisa extensiva, como a realizada pela ANDI em 2013, mas de um corte específico em uma realidade específica, talvez ponto de partida para análises e estudos mais detalhados e cuidadosos.

De um modo bastante geral, a relação entre meios de comunicação e as temáticas relacionadas à deficiência poderiam ser analisadas sob diversos critérios como, por exemplo, a forma, o conteúdo, abordagens, predominâncias conceituais e outros. No caso dos dados que queremos apresentar, nos fixaremos basicamente no tipo de ocorrência temática nos meios de comunicação e seus números no espaço preciso de tempo correspondente a um ano, considerando as informações disponíveis e indexadas pelas ferramentas de busca disponíveis atualmente e exclusivamente em informações da espécie “notícia” e “reportagem” e desconsiderando, para todos os efeitos, aquelas informações e conteúdos cujos proprietários reservam-se ao direito de organizar e disponibilizar por meios próprios.

Os dados exibidos no gráfico a seguir mostram exclusivamente a predominância temática de conteúdo jornalístico em relação aos temas transversais à questão da deficiência obtidos no período de tempo correspondente a junho de 2013 e junho de 2014, ou seja, são números absolutos de ocorrência obtidos em séries de recombinação pesquisados através do mecanismo Google News ©.

Além dos dados acima, obtivemos outros por cruzamentos que serão apresentados durante a mesa redonda, mas que necessitam ainda de alguma depuração, apesar de representarem algumas situações de forma bem clara, principalmente no que diz respeito ao conhecimento acerca da legislação interessante ao tema, educação e outros.

Em muitas análises jornalísticas e estudos acadêmicos sobre a relação entre os assuntos deficiência e comunicação social, é bastante presente a concepção de que o tema e subtemas são veiculados especialmente em datas comemorativas ou em função de outras variáveis menos conhecidas. Isso não explica, por exemplo, como o maior avanço legal obtido pelo movimento social das pessoas com deficiência, a aprovação com efeito constitucional da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, continue subalternizado em relevância e ocorrências a temas secundários. Caso compare-se os dados com outros temas – como saúde e educação, por exemplo – as diferenças fazem-se gritantes.

O que desejamos pensar a respeito disso sempre será menos importante que a realidade presente. Se os meios de comunicação produzem a informação ou, mais simplesmente, repercutem-na, isso ocorre a partir de uma determinada realidade social. O que os dados obtidos talvez nos indiquem seja onde a sociedade e o Estado poderiam atuar mais para concretizar um ambiente acessível e inclusivo. Mesmo que o tema venha continuar a ser, de certo modo, objeto de interesse mais ou menos restrito a instituições e agentes sociais envolvidos diretamente com as pessoas com deficiência, é preciso considerar que há mudanças em curso que são tanto resultado de políticas públicas governamentais como da ação social e civil propriamente ditas. Caso o conteúdo dos meios de comunicação sejam pensados como reflexo dos movimentos que acontecem internamente à sociedade então a própria deve ser capaz de provocá-los a ponto de refletir uma democracia e um estado de direito para todos, o que parece ser o desejo central de todos agentes sociais interessados às temáticas da deficiência.

Um capítulo a parte mereceriam as formas, terminologias, conceitos e preconceitos ainda elaborados e redigidos pelo jornalismo a respeito das situações de deficiência. Esse tipo de análise, contudo, já é bem mais presente graças ao envolvimento de entidades de defesa de direitos e do interesse do campo jurídico e de ciências sociais. Mas, diferente do aqui cogitado, esse é um tema que trata do “como” ao invés do “quando” e do “quanto”, não que tenha menor relevância, já que dá conta do imaginário, das narrativas e da representação real e simbólica das pessoas. Um capítulo a parte que merece ser tratado com mais cuidado que o disponível neste momento e que faz fronteira aos limites da linguagem e de como dispomos dela para considerarmos uns aos outros.

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