Luto pelo Brasil

urna

Não sou adepto do luto, nunca fui, não consigo. Não costumo lamentar-me se as coisas não dão certo ou se acabam. Se não dão certo, não deram. Se acabou, já era. Ponto final. Mas há poucos dias percebi como eu estava gravemente errado e percebi da falta verdadeira que o luto faz. Que essa mania de hiper ou autorresolução pode ser falaciosa e, mais que isso, perniciosa.

Toda essa reviravolta se deu comigo após assistir a um filme de animação japonês chamado “O Túmulo dos Vagalumes”. Os traços delicados de Isao Takahata ao desenhar os personagens do filme, produzido pelo Studio Ghibli em 1988, a princípio até pareciam que poderiam minimizar o impacto do enredo, mas não puderam. No Japão, o filme foi motivo de intensa comoção nacional na época de seu lançamento. É claro que seria, pois ainda estão vivas as pessoas que passaram pelos bombardeios norte-americanos durante a Segunda Guerra mundial e o filme mostra o que sabemos, mas às vezes parece que desejamos esquecer, porque o passado não é sepulto jamais na memória. Ali ele permanece vivo, mas ainda assim portando consigo a oportunidade de ser elaborado, reescrito e ressignificado. Em caso contrário, ele costuma permanecer no seu estado original, sempre muito ameaçador e doloroso.

Sobre o enredo do filme não há muito a contar, exceto de que seu final é trágico, porque as guerras e as respectivas mortes e descaminhos indevidos são as maiores tragédias que os seres humanos já conseguiram causar aos seus semelhantes. É que, ao envolver crianças, as tragédias sempre ficam mais evidentes e comoventes. É como se através delas fossem extirpadas possibilidades do futuro, como se arrancadas para sempre do tempo, inexoravelmente.

Eu penso que, se do ponto de vista pessoal, o luto é uma necessária etapa da compreensão que precisamos para seguir adiante, socialmente ele também deveria ter esse efeito. Mas, ironicamente, parece que “o social” não gosta muito de encarar perdas. É natural. Isso exige o enfrentamento de problemas reis e não seu mascaramento ou ocultamento. Quando isso acontece com os outros, então, mal merece um complacente resmungo, que dirá um luto verdadeiramente sentido.

Nesses termos, qualquer um pode concluir que o Brasil – talvez por ter incorporado muito fortemente a crença de que é um país feliz, do carnaval, etc. – é mesmo um lugar sui generis. Aqui conseguimos lamentar mais o fracasso da seleção de futebol na Copa do Mundo que o horror mascarado (ou nem tão mascarado) na escrita da história desta peculiar localidade geográfica.

Assim, caso alguém pense em questionar com seriedade o impacto histórico de fatos como escravidão ou do (ainda presente) genocídio indígena, por exemplo, logo é desacreditado como revanchista, antiprogressista ou adjetivos correlatos. Isso acontece tanto para feridas antigas como para recentes, como os escândalos de corrupção e a respectiva impunidade, devastação ambiental e violências de toda a espécie, que em seu conjunto conformam uma cartografia indesejável, mas também inocultável de todo.

Há mais de um ano já, em junho de 2013, muito mais que algumas pessoas mascaradas interessadas em ir à desforra de algo aparentemente ainda impreciso (isso mesmo passado mais de doze meses) foram às ruas em protestos que aconteceram em muitos lugares do país, das grandes cidades ao pacato interior. Não havia exatamente um tom de revolta popular, mas o início do que talvez poderia ser um movimento de luto autêntico e inédito, ainda que não de luta social declarada. Então, interrompido por pressões políticas diversas e narrativas esdrúxulas que implicaram em sentidos artificiais e impositivos, o cortejo desfez-se. Mas bem mais cedo do que deveria, isso pelo menos na minha opinião pessoal.

É por essa razão que o lamento da população negra a respeito da chaga mal resolvida da escravidão continua a ecoar nas periferias, onde – não curiosamente – vive a maioria dos descendentes daqueles que foram, por 388 anos, pessoas escravas e que hoje, 126 anos depois, continuam ocupando a área de serviço da sociedade, como demonstra recente pesquisa do Istituto Ethos e reportagem da Folha de São Paulo. É a mesma coisa com a população indígena, que continua sendo furtada e violentada em seus direitos fundamentais com a complacência e até mesmo conivência institucional e governamental. E é também, inclusive, o silêncio da torcida da seleção de futebol, que viu frustrada a promessa da sua grande festa, no hexa “que já estava vindo”. E o da população em geral que, diante de um período eleitoral que avança irrefreavelmente, ensaia um apoio tímido a candidatos políticos que insistem em perpetuar um tom político de progresso ufanista ou de revanchismo barato, mantendo as mesmas concessões de sempre, seja à hegemonia dos partidos de centro ou às agendas mais conservadoras de setores com promissores redutos eleitorais, como o dos setores religiosos, por exemplo.

É provável que o dissenso que foi às ruas em 2013 não retorne em 2014, como alguns esperaram que acontecesse antes da Copa do Mundo, ainda mais depois de que legislação repressiva foi instituída no âmbito do legislativo e os poucos remanescentes dos manifestantes perseguidos a exaustão e criminalizados. É que o dissenso foi se tornando motivo de outro dissenso e assim por diante, até sua dispersão final, como se uma ideia política pudesse esfarelar-se em meio gás lacrimogêneo das ruas e ao cotidiano da vida das cidades e tornar-se um tipo de desolação social ressentida. E assim deram-se e dão-se os fatos. Suspendemos a luta incipiente pela ausência de luto e pela falta de expressão das verdadeiras causas do incômodo social que continua a assolar a nação. No final, melancólico como os finais de qualquer coisa, vemos as imagens do nosso próprio futuro desperdiçadas em cartas bem conhecidas do jogo político.

Pelo que vai acima, eu quero acreditar que o luto que dava amostras de enfim transparecer no rosto de milhares de pessoas bem poderia ser retomado (afinal, o que mudou de lá para cá?), ainda que não retorne a luta (pelo menos naquele modelo de lutas) que se viu em junho de 2013 e que acabou por interromper um processo histórico com o qual a sociedade brasileira parece nunca querer encontrar-se, que é justamente o de reparar os próprios erros a partir de um esforço de compreensão (e não alienação) social. Ou então, pelo menos, que sua presença, a desse luto coletivo ou social, seja incorporada na escrita dos períodos históricos que há entre uma e outra copa de mundo de futebol e, claro, carnavais anuais e eleições periódicas. Quero dizer, um pouco de luto no flow do país do futebol e do carnaval não há de matar ninguém, não é mesmo? Quem sabe até pode evitar outras tantas perdas e tragédias.

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