Tristes clowns

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Depois de muitas décadas na minha vida, voltei a pisar no piso esparramado sob a lona vermelha de um circo de rua. É uma experiência bem interessante para pessoas da minha idade, que provavelmente viram os circos na época em que até tigres e elefantes revezavam-se no picadeiro, assim como para as crianças que, por sua vez, podem ver um espetáculo que é (ou pode ser, isso depende do ponto de vista) encantador justamente pela imperfeição dos números, algo bem diferente das criaturas renderizadas que hoje povoam e “divertem” o nem um pouco pequeno mundo dos pequenos.

Bem diferente dos circos teatrais, os circos de rua guardam uma aura de coisa mambembe, viajante. Ainda lembro que há muitos anos atrás o sonho de muitas crianças era fugir atrás do circo, que parecia um lugar recheado de magia e espetáculo. É claro que uma simples visita fora do horário de espetáculo pudesse mudar um pouco a perspectiva dos pretendentes a acompanhantes, porque ali o glamour escasso de malabaristas e acrobatas estava desnudo e a vida dos artistas circense revelada em sua realidade, ensaios intermináveis e trabalho pesado. Sem falar na tristeza inerente às feras enjauladas, coisa que felizmente não se vê mais hoje.

Mesmo assim, acho que eu não estava preparado para ir ao circo. Não que eu imaginasse reconstituir uma nostalgia infantil e frustrar-me de alguma maneira em função disso, não é isso. É que não imaginei encontrar o que acabei encontrando. Não falo de nenhum número magistral ou coisa assim, mas do comportamento humano, que consegue ser sempre surpreendente, embora nem sempre no sentido positivo do termo.

Acho que para compensar os custos de manutenção e obter o máximo lucro possível, os artistas do circo ou estavam apresentando-se no picadeiro ou revezando-se na venda de inúmeros produtos entre a plateia. Refrigerantes, pipocas, balões, brinquedos e mais uma dezena de outras bujigangas eram vendidas logo na entrada e, depois, em intervalos do espetáculo. Em meio ao barulho ensurdecedor e pisoteamento de pés, os pobres pais sacrificavam seus vinténs para o regozijo da criançada. Então acho que foi nesse momento que imagino ter visto um retrato mais ou menos apavorante do futuro, bem diante dos meus olhos. Pensando bem, atrás de mim a cena se repetia também. E de ambos os lados, idem.

Eram pais acuados pelos filhos que, aos berros, exigiam que se comprasse exatamente tudo o que lhes passava pela frente e era oferecido. Filhos que eram transportados pelos pais, mas não acompanhados por eles, porque os adultos desses tempos hi-tech parece que não podem deslocar um instante os olhos para o mundo real, porque algo imperdível pode acontecer a qualquer instante numa tela de 5 por 10 cm. É o imperativo da curtição, como se bem sabe.

Não é que os números – honestos e caprichados – estivessem desinteressantes, mas era irresistível acompanhar as pessoas que, em sua maioria, nem olhavam para o picadeiro, mas pareciam sugadas para a tela das suas geringonças, gravando tudo (mesmo que houvessem pedido para que não se fizesse isso), mas assistindo a nada. Até agora estou tentando entender porque uma mãe de duas crianças que comiam pipoca compulsivamente filmava a mesmíssima cena que o pai das crianças filmava também, cada qual no seu smartphone. Será que eles pretendem fazer um concurso de borrões sem noção? E as crianças ali, comendo e berrando.

Tentei por um instante me transportar no tempo e imaginar aquelas crianças já adultas em um ambiente de trabalho, por exemplo. Ou, adolescentes, numa sala de aula, talvez. Então fica muito claro como é fácil e inútil exigir que as escolas evitem a propagação do bullying. É que se os pais não estão interessados nem nos próprios filhos, como é que estes irão entender as necessidades dos outros ou, pelo menos, perceber a necessidade de conviver socialmente com o mínimo de harmonia e respeito mútuo?

Ao fim do espetáculo, a imagem era dantesca. Crianças levavam nas mãos muito mais do que podiam carregar, quando não simplesmente depositavam no chão ou em qualquer lugar o lixo criado imediatamente após o incontrolável gasto p(m)aterno. Dessa vez, consegui evitar ter uma nova cena do futuro projetando-se em minha mente, afinal o show já havia acabado e era hora de ir embora. Mas era inútil tentar esquecer. O mais incrível é que ainda achamos melancólicos os clowns que sujam-se do pó do picadeiro para extrair (ou será doar?) um pouco de riso dos outros. Não é que esteja faltando espelho, aí estão os selfies para isso, não? É que nós, adultos, somos muito seletivos em nossas escolhas. As crianças que o digam.

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