Transcender é preciso

Qual o limite de vergonha que um cidadão pode suportar em relação ao seu próprio país? Seja como for, nada, absolutamente nada, pode ser mais indigno do que ser enxotado da própria rua.

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A Copa do Mundo nem começou e já está insuportável. Não insuportável por ser uma coisa chata e cansativa (para muitos a quem se deve o mesmo respeito que se deve aos fanáticos por futebol ela é ambas as coisas), mas porque aconteceu o acaso de realizar-se em um país que não pode suportá-la. E isso, a cada dia que passa, fica mais evidente.

A recente recomendação expedida pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) de que, para preservar inclusive a própria segurança individual, moradores de rua devem desocupar o seu lar – as próprias ruas – e dirigirem-se a seguros confinamentos de gente miserável é das mais claras evidências que se pode perceber nesse sentido.

Mesmo que haja algum sentido e efetivo desejo protetivo na medida, pensar em tudo o que a envolve e seus significados sociais e políticos também é insuportável. Pessoas mais sensíveis não deveriam sequer pensar nisso ou, se possível, transcender as notícias de remoções humanas que não param de chegar, mesmo que isso signifique algum tipo de exílio mental.

Nessas semanas que antecedem o evento, venho tornando-me cada vez mais, para minha própria surpresa, um sujeito transcendental. Desejo transcender o evento e, se possível, o mês inteiro de junho e seus significados reais. Ou poderia exilar-me no país do futebol, no estado de exceção imposto pela FIFA, e crer finalmente que as medidas de gestão adotadas desde o anúncio da Copa são necessárias e até desejáveis. Afinal, como vai ficar a imagem do Brasil com turistas tropeçando em mendigos e crackeiros?

Não pega bem. Definitivamente, não. É preciso que haja outras soluções. É preciso o apoio de outras instituições para que tudo dê certo. E é preciso dar certo, mesmo que isso seja uma manchete de jornal com conteúdo também insuportável (de tão irreal). Aí estão os poderes de Estado, polícias e forças armadas para resolver o impasse e criar soluções para que se tenha um país enfim transitável, isso tanto no que se refere ao próprio trânsito quanto à segurança pública e outros incômodos ordinários e corriqueiros. O que isso traz embutido em si mesmo é melhor nem pensar muito. Melhor transcender e esquecer-se de quem está promovendo tudo isso.

Tenho alimentado nos últimos tempos, além do desejo irrefreável por transcendência, um intenso sentimento de vergonha. E de esperança, também. Esperança, no caso, de ser possível viver sem vergonha do que vem acontecendo com seres humanos de carne e osso como eu ou você, em função de um fetiche político ou de um delírio social de que o país tenha precisado em algum momento procurar mostrar ao mundo uma possível face pujante e rosada como de um bebê pronto para encarar o séc. XXI.

E pode mesmo fazer isso o Brasil, se quiser, mas não para agradar a ninguém ou fazer parecer às entidades internacionais e países com os quais mantém amigáveis relações comerciais. Perder a máscara de país em perpétuo vir a ser desenvolvimentista e assumir (talvez corrigir, quem sabe?) as próprias mazelas pode ser um bom começo. É uma oportunidade. Criada às avessas, mas ainda assim uma oportunidade. E uma esperança também. Nesse caso, eu apenas espero que não se transcenda essa esperança também, porque aí estaríamos noutro terreno, o da confirmação histórica, do destino e essas coisas desesperançadas que podemos dar, ou não, um basta final.

Qual o limite de vergonha que um cidadão pode suportar em relação ao seu próprio país? Seja como for, nada, absolutamente nada, pode ser mais indigno do que ser enxotado da própria rua. Mas essa é a proposta social que está sendo feita às pessoas que vivem na rua. É isso que estamos lhe dizendo com as bocas fechadas, olhos indiferentes e mãos impotentes, que seu lugar não é nem aí, em lugar nenhum. E que suas existências podem corroer a sociedade por dentro, mas não nossa imagem pública internacional. E, sob o argumento da proteção, o que temos a oferecer é que sumam da face da terra, que a festa da Copa não lhes pertence, como nada lhes pertence. E devemos salvaguardar os direitos daqueles que querem festejar, com exército inclusive, mesmo que à revelia dos direitos de todos os demais.

O que se pede às pessoas é que elas transcendam a situação e entendam que agora tudo é urgente e inevitável. E que vai ter Copa, sim, a qualquer custo. E que vivemos nessa democracia cautelosa e seletiva ditada mais pela economia e pelos poderes dos cartões de crédito que pela decência, essa abstração detestável. E dispendiosa.

É por essas e outras que estou providenciando as soluções para o meu dilema e recomendo que todos façam o mesmo. Vou torcer pelo Brasil e continuar a ter esperança nele, porque isso é doença inata, mas momentaneamente vou procurar transcender o real, o meu e de todos os outros que não alcanço com olhos ou as mãos, mas nem por isso renego que sejam meus concidadãos. A solução que encontrei é oriental e nobre: a transcendência. Não é bem melhor que remoção?

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2 comentários em “Transcender é preciso

  1. Dessa vez discordo bastante de você, Lúcio.

    Não sou amante de futebol e gosto sim – mesmo que seja brega – de Copa do Mundo. Adoro reunir os amigos, torcer, colocar bandeirinha no carro e outras coisas bobinhas. Eu também já pensei que, em um país com tantos problemas para resolver, a Copa não deveria ser uma prioridade. Mas uma frase me levou a repensar: “- a gente tem o direito de querer”… Ou seja, não é porque uma pessoa é pobre que não tem o direito de querer fazer a melhor festa de aniversário que puder para o seu filho. Por isso, não tenho vergonha do Brasil sediando a Copa.

    Acho que temos condições de fazer bonito e os problemas que vierem a acontecer são normais. Seria impossível ter um evento desse porte absolutamente perfeito.

    Em um ponto concordo com você: eu também sou contrária a políticas higienistas, mas nem por isso saio criticando uma mera recomendação para que, em pleno inverno, as pessoas dirijam-se a albergues. Você conhece algum? Eu conheço e não chamaria de “confinamentos de gente miserável”. São locais muito dignos com comida cheirosa, livros, televisão e, principalmente, cobertores.

    Desvio de verbas? existem vários grupos de trabalho do MP atuando nisso desde o início das obras, com dezenas de representantes do MP seriamente envolvidos, acompanhando e entrando com as ações necessárias. São perfeitos? óbvio que também não. É possível que escape algo sim e pode ter certeza que vai ser só isso o que será noticiado.

    Acho que a grande mídia “anti-PT” vem fazendo um trabalho eficaz de desânimo dos brasileiros em relação a um evento que, em outro governo, talvez do PSDB, contaria com horas e horas da rede Globo levando todo mundo às lágrimas pela emoção de sediá-lo.

    Eu ainda sinto essa emoção e torço muito para que as pessoas deixem aflorar seu orgulho pelo Brasil e contribuam positivamente para essa grande festa.

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    1. Oi Eugenia

      Como disse no e-mail, respeito e compreendo sua discordância, apesar de manter ainda assim minha opinião. Não vou escrever tudo novo para não me repetir, mas acho que basicamente o que eu penso é o que foi ao final do e-mail, de que essa atenção toda revele-se permanente e que garanta-se, por mais que isso nos pareça indesejável, o direito de estar na rua, de modo bem simples, como qualquer cidadão “de bem”. E, como disse, vamos torcer pelo Brasil sim, mesmo que ele castigue às vezes nosso bom senso e esperanças..

      Um abraço e obrigado pela leitura e comentários
      Lucio

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