Deus me O valha!

losers

Na minha carreira de ser humano, tenho amealhado orgulhosamente inúmeros segundos lugares. Sou praticamente um vice nato. E um vice bem resolvido, o que é mais raro ainda.

A título de exemplificação, fui vice-campeão de iô-iô aos sete anos de idade, ganhei o segundo lugar num concurso de poesias aos nove e, feliz e sabiamente, nunca fui o melhor aluno da turma. Desde essa época eu tenho certo desprezo pelos campeões. Pessoas que não precisam revirar o estômago e amargar uma derrotinha de vez em quando costumam ser de uma prepotência sem tamanho. Para eles, a autocrítica é algo que acontece somente a terceiros. Eles nunca acreditam que não foram feitos senão para a glória, mesmo que isso signifique apenas ser o campeão de iô-iô. Não é ó do borogodó?

Provavelmente por influência dessa peculiar característica, tenho uma simpatia ancestral pelos derrotados. Junte-se a isso o fato de que durante boa parte da adolescência devorei livros de beatniks desempregados e drogados e vagabundos e líricos como os gatos vadios a quem não se alcança um pote de leite. Meu hino, naquela época, era o Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa, e sua gloriosa desesperança e desgosto.

“(…)Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida(…)”

Toda aquela ínfima autoestima do português me ensinou a jamais olhar com desdém a dor de quem quer que fosse e a saber que, pelo menos na língua portuguesa, qualquer esforço em não parecer medíocre me estava precocemente vetado. Depois eu felizmente descobri que o sujeito foi sublime em tantas outras coisas (aparentemente) mais simples como O Guardador de Rebanhos ou O Banqueiro Anarquista, por exemplo, embora eu sonhe mesmo desde então – já não secretamente – em entrar pelo menos um instante naquela Tabacaria, como coisa real por dentro…

Às vezes, quando acompanho os bastidores de feiras e eventos literários, fico imaginando com que cara o Fernandinho encararia aquele auê todo. Acho que, sinceramente, ele iria ao bar mais próximo. Ou ao mais distante, talvez.

Mas que ninguém imagine que eu penso em entregar os pontos e ficar no fim da fila. Essa ideia está definitivamente descartada. Vou em busca do meu segundo lugar, esteja ele onde estiver. Isso que dá ser torcedor do Guarany de Bagé e eleitor do P.. Rá! Achou mesmo que eu iria falar!? Não vou, mas adianto que só voto em candidato a perder, jamais em quem vai segurando as calças e forjando pesquisas de opinião, fazendo pacto com o Canhoto e qualquer um, desses aí. Nesse caso, nem o fim da fila me demove. Antes o menos votado que o mais comprado. Antes o mais ensandecido que o mais corrompido. E assim por diante.

Assim, quando olho para eles, os não poucos bilhões de outros losers do mundo inteiro, eu posso pensar que não sou só eu que “verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo”. Por isso, quando sinto muita gente festejando glórias, sejam políticas ou quetais, eu dou logo um jeito e fujo para o bar também. Como diria o português: Deus me O valha!

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