Como dourar a pauta da Copa

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Finalmente os meios de comunicação, movidos pela publicidade e pelas forças cronológicas, parecem ter acordado para o fato de que uma coisa chamada Copa do Mundo de futebol está para acontecer dia desses em solo nacional. De uma hora para outra, ou do nada, se assim preferirem, o assunto começou a aparecer furtivamente em jornais, telejornais, sites, etc. Antes parecia que não se queria acreditar que, passados sete anos desde seu anúncio, isso pudesse mesmo acontecer. Acontecer assim, quero dizer, realmente.

Enquanto projeto nacional, a Copa é um naufrágio que se viu desde a partida, mas que não foi muito fotografado ou televisionado. Analisar o que houve desde seu anúncio oficial até o momento presente é desnecessário, por enquanto. Tudo isso foi visto. Ou melhor, não foi visto. Talvez exatamente por isso não houve reportagens muito extensivas nem pessoas dedicadas a examinar e debater em profundidade o evento, que se aproxima inexoravelmente. Trata-se de complacência da mídia e formadores de opinião? Questões de patrocínio, talvez? É possível que sim, mas será que vale examinar as causas disso? É possível que não, e talvez seja mesmo melhor acreditar que assim seja preferível.

Apesar de não ter sido o objeto imediato (alguém sabe qual foi?) dos intensos protestos deflagrados no inverno passado, a Copa esteve no centro de muitas manifestações, cartazes pintados a mão e, por que não dizer?, na boca do povo. Fato sabido é que o que o povo diz não repercute muito. À exceção das redes sociais, que são redutos de pessoas conhecidas, o clamor parece enclausurado. Talvez nelas também.

Assim, o assunto foi direcionado a outros atores, FIFA, personalidades, etc. À seleção mesmo, muito pouco. É difícil encontrar quem saiba de cor até mesmo a escalação e elenco da verde-amarela. Não fosse a imponência pessoal e imagética do técnico, muito vista na publicidade, e de craques imprecisos, também muito vistos na publicidade, quase não se pode perceber a qualidade desportiva do grupo, que às vésperas do início da competição ainda parece uma improvisação imprevisível.

Depois de sete anos, entretanto, uma solução pode ser antevista. O jornalismo, e não exclusivamente o esportivo, tem a oportunidade de dourar a pílula da Copa, reduzindo o impacto emocional de um possível desastre. Épico, caso fosse considerado que o tal futebol é a paixão nacional e patrimônio da humanidade. Mas nem para um assunto tão sensível ao próprio povo a sociedade e autoridades pareceram dar importância (para onde estão olhando, afinal? As telas dos computadores e pesquisas eleitorais?). Mas pode o jornalismo, efetivamente, evitar a realidade, como se ela dependesse dele? Não será um esforço em vão socorrer uma sociedade insatisfeita com doses fragmentadas de esperança? Enfim, há muitas conjecturas a fazer, tanto quanto pontos de vista.

Para aqueles que, por outro lado, procuram reorganizar as características geopolíticas do país sede do evento antes de aventurar-se a emitir opiniões ou cumprir burocráticos roteiros de pauta, o escritor Luiz Ruffato, no El Pais, vem prestando grande auxílio. Ao elencar em duas partes o que os turistas encontrarão, porque muito do que encontrariam não encontrarão em razão do tempo exíguo e outros imprevistos, ele talvez não perceba que sua ajuda pode também, como se diz?, fazer cair a ficha entre nós mesmos, sem considerar os turistas, de que o país do futebol finalmente está conseguindo libertar-se do estigma ao oferecer ao mundo um exemplar formidável de autodescaso. Talvez, embora isso seja vendido de modo diferente no exterior, nós mesmos (povo) já o saibamos. Resta saber se é o jornalismo ou quem que irá nos alcançar a toalha, porque se o rei não está nu ainda (o que ele venderá assim?), o seu país está.

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