O gigante dos Olhos d’Água

olhosdagua

Para meu pai, Lucio

Quando um gigante se aproxima dos 80 anos de vida ele encolhe, como acontece aos humanos?

É provável que sim e também é provável que não. Isso depende menos do próprio gigante do que de quem o está olhando. Depende mais da distância que se tem em relação a sua existência que da distância geográfica, que é sempre eventual. Depende mais se o viu e ouviu realmente ou guiou-se pelo rumor de seus passos imensos ou pelo trovão em sua voz. Isso, para um gigante pai de cinco filhos, é algo indeterminável, porque mesmo entre irmãos cada ser é um estranho e qualquer noção que ribomba em um não tem obrigatoriamente o mesmo eco nos outros. A vida em família é mesmo assim. A vida social, de um modo geral, também parece ser um pouco assim.

Esse gigante octogenário, meu pai, é um verdadeiro gaúcho, ou gauche, e isso em muito mais de um sentido. É uma pessoa difícil como os cavalos que só ele conseguia montar. Como sabem os cavaleiros mais principiantes, os equinos têm um lado certo para chegar, para a aproximação física; curiosamente, é o esquerdo, pelo qual naturalmente aceitam melhor a presença dos pretendentes ao seu lombo. Meu pai também sempre pareceu ter um lado certo. Ter de acordá-lo por qualquer razão, para mim, equivalia a ter de acordar um terremoto. Melhor era esperar que acordasse por conta própria e se possível, a uma distância segura, avaliar previamente o ângulo das suas sobrancelhas. Mesmo em momentos mais críticos da vida que este, quando o gigante aparecia com mais veemência ainda, acho que sempre vi no fundo dos seus olhos verdes a mesma imagem de menino que há muito tempo repousa no álbum de fotografias da família e que continua lá, confundida a dos filhos. Não é possível pensar que mesmo um gigante, afinal, não tenha tido uma infância e sua respectiva desproteção.

Às vezes, por necessidade imperiosa, era possível ver que, se preciso mesmo, qualquer lado seu servia, desde que se anunciasse de alguma forma a própria presença. Não sei se por ver-se obrigado a, por força do trabalho, lidar com os hábitos dos animais indômitos, tenha assimilado desses, sem querer, um pouco do seu próprio modo de ser e reagir. É claro que, se isso possivelmente parecesse um tanto quanto estranho – resultando num tipo assustadiço e desconfiado – entre as pessoas, em relação aos animais e à natureza de um modo geral ele parecia alguém muito natural, como se um igual às pedras, bichos, tormentas, ventanias ou madrugadas. Principalmente as madrugadas – que lhe acordavam ou ele acordava a elas, é difícil saber…

Hoje em dia é muito natural ver um pai e um filho conversando à mesma altura, como costumam fazer os indígenas. Meu pai vem de uma família, não gosto do termo linhagem, em que as relações eram verticais, fixas e imutáveis. Os pais na parte de cima das fotos, os filhos a seguir, num plano abaixo, como as fotografias antigas bem mostravam. Apesar disso, minha família não tem fotos assim, até por que sempre foi um tanto difícil flagrar-nos juntos e quietos, principalmente.

Mesmo assim, havia momentos em que era possível estar frente a frente com ele. O mais trivial deles era quando, por uma necessidade de trabalho, devíamos agachar-nos para lidar com um animal ou um serviço ao rés do chão. Sim, quando criança ajudei meu pai no trabalho, assim como qualquer pessoa que tenha passado uns dias no campo sem estar a passeio. Foi assim que aprendi a necessidade de repartir o uso da força e, de uma forma puramente instintiva, a dividir esforços. Para depois, em pé, relaxar com a tarefa pronta, pelo menos até a próxima. No campo, as tarefas são intermináveis e incessantes, mesmo que simples e corriqueiras. Isso qualquer pessoa que tenha passado uma vez na vida por essas condições pode tranquilamente atestar.

Outras vezes em que era possível estar frente a frente com ele era na hora das refeições onde nunca nos furtamos a falar de tudo, desde os problemas comezinhos do cotidiano, como política, religião ou futebol. Logo política, religião ou futebol, que dizem ser a tríade indiscutível por excelência. Bem, nesses momentos, ninguém deveria mesmo furtar-se a dar vazão às suas crenças, mesmo que isso resulte em discussões acaloradas e dramáticas. Então, inevitavelmente, era isso o que acontecia lá em casa também e, não poucas vezes, também um terremoto se fazia, fraturando sentimentos às vezes, isso talvez porque os gigantes e suas famílias pareçam num golpe de vista criaturas de pedra, mas eles não são. Ninguém o é.

Isso dos terremotos aconteceu em muitos endereços e circunstâncias, mas nunca na campanha (região rural do Rio Grande do Sul, também conhecido por pampa); lá, de uma forma muito misteriosa, nossos espíritos se aplacavam. O gigante perdia as dimensões diante do imenso cenário verde e a natureza, com seus modos peculiares, submetia-nos a um tipo inexplicável de tranquilidade perene. E o silêncio, que vinha dos campos e parecia instalar-se nos objetos antigos da casa ou dos galpões, encontrava-se com o tempo de uma maneira intacta, como se também nós, naqueles instantes, não precisássemos crescer e nos tornarmos adultos e partir dali, como se reconhecêssemos que aquilo não poderia ser real, como de fato não era, porque esse não é um tempo real, é somente o tempo da infância, no qual gigantes e natureza são colossos que devemos aprender a conhecer e controlar, se possível.

Acredito que deva ser bastante claro a qualquer pessoa que não é fácil viver com um gigante dentro de casa, principalmente quando se pode vê-lo curvar com um mero grito ou assovio uma multidão de outros seres vivos. Os marcos das portas deveriam ser maiores, assim como as patas das mesas e cadeiras e todo o espaço físico. Mesmo assim, esse gigante de quem falo criou cinco filhos, meio selvagens, mas ainda assim pessoas bem humanas. Também de certa forma gauches, mas cada um a seu modo. De longe, entretanto, quem nos viu um dia, lá em Bagé ou por aí, noutros lugares, duvido que não perceba que somos irmãos. Os filhos daquele homem impenetrável cujos olhos não vertiam ensinamentos ou exemplos formidáveis, mas energia. Por isso talvez, alguns de nós (ou nós todos), vez ou outra, mostramos um pouco dessa energia incontrolável. Nosso pai é vivo e nunca nos prometeu herança, mas delegou o ato de viver a vida e enfrentá-la, mesmo que ao custo de tropeços. É muito difícil para um gigante erguer-se, mas depois que ele o faz não é bom esperar por que fique parado, estático, como pedra.

Por exclusiva culpa da vida e seus caprichos, meu pai nem sempre foi esse gigante. Flagrei-o muitas vezes pequeno como aquele menino da foto, desamparado e perdido. Talvez essa seja uma forma indigna de um pai ser visto pelo filho, mas a vida, a causadora disso tudo, não se importa com esse tipo de dogma e mostra, de um ou outro jeito, o que intuímos muitas vezes sem querer acreditar. Um gigante pode decrescer, diminuir, desaparecer no mapa, revelado em sua mesquinhez, exatamente como acontece a todas as pessoas, porque a vida não é de fazer exceções, muito menos aos seres vivos. É assim que somos, gigantes e seres humanos. Seres humanos, esses gigantes…

Falar do gigante compulsoriamente clama por falar também da sua companhia de estatura. Não é possível conceber que um ser tamanho divida o teto e a vida com alguém muito desproporcional a si mesmo. Pelo menos no plano simbólico, um casal deve equivaler-se, mesmo que façam coisas diferentes na vida. Não estou falando do estilo das roupas nem da altura dos cabelos, mas da postura. Essa outra integrante da família do gigante nunca foi menor que ele. Mas estou escrevendo aqui por causa dele, não por causa dela. Meus pais não são seres indissociáveis. E isso porque não há indivíduo que o seja. Assim, de minha mãe tenho muitas outras coisas para dizer. Hoje, entretanto, quero falar dele. Do gigante que, mesmo no seu modo aparentemente pétreo, também me deu uma vida. Ou duas.

Numa época muito difícil de minha vida, ele me presenteou com um saxofone tenor e com uma máquina de datilografia. O saxofone foi presente, mas a máquina eu usucapi, com sua condescendência discreta. O instrumento cromado é meu brinquedo até hoje, porque nunca me profissionalizei nem aperfeiçoei o bastante para dar um salto maior que as pernas. A máquina de escrever é uma maldição que escolhi e criei para mim mesmo e que me trouxe até aqui, para registrar essas palavras.

Sem nunca ter dito através das letras, mas ainda na linguagem esquisita dos gigantes, desde muito cedo entendi uma única lição de meu pai, a de que devia fazer o melhor possível naquilo que fazia. E de que faria não por um dever aos outros, mas por satisfação própria. Isso significa ser meticuloso e insistente. Nem sei se sou tão meticuloso assim, mas procuro lembrar sempre de não afrouxar o braço até esgotar a última força, quando preciso esforçar-me. E resistir, quando parece impossível. Isso, por si só, vale-me mais que as vidas e os presentes que ele me deu, porque permite que eu desencave uma para mim, exclusivamente minha, em qualquer situação. E tenha confiança que eu possa fazê-lo. Às vezes, quando sinto que lhe trai um pouco a desesperança, olho em seus olhos como se dissesse que ele tem até esse direito, se preferir abraçá-lo, mas que ele mesmo não é assim e tento acordar dentro de si o ímpeto de reerguer-se, que este é o destino dos gigantes.

Em Olhos d’Água, distrito de Bagé, quase divisa com Lavras do Sul, há muitas árvores do passado, cravadas no horizonte como anciãs tristonhas condenadas pelas raizes. Talvez esperassem elas que continuássemos ali para sempre, tal como as pedras. O que elas não entendem, porque não pensam, é que o gigante que pastoreou por ali não criou pessoas para pedras e nunca fechou porteiras para a vida de ninguém. Naquele caminho de terra, para um ou outro lado, há ainda hoje muito mais que dois destinos. Não lhe devo perdão por nunca ter me ensinado um que fosse livre de erros, mas somente por esquecer, às vezes, de como chegar até ele próprio. Nos seus oitenta anos, eu apenas queria dizer que ainda vale a pena buscá-lo, mesmo que quase nunca ele saiba, na água escondida no fundo dos meus próprios olhos.

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