Fechando a janela

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Que o Facebook é um instrumento poderoso não há mais quem duvide. Assim como Bill Gates inventou uma forma de interação com as máquinas baseadas em janelas e a internet abriu uma delas dentro da casa da gente para um sem fim de lugares e fontes de informação, esse garoto – o Mark Zuckerberg – parece nos ter convencido da suposta necessidade de olhar para dentro até mesmo dos pensamentos mais íntimos de cada um, lá onde muitas vezes nem nós mesmos temos acesso. Isso quando se trata de nós mesmos. É como se a janela que ele criou servisse para dar a um labirinto de espelhos no qual, de forma seletiva, interagimos ou observamos a interação e tudo que diz respeito à individualidade alheia.

É fantástico, o Facebook dele, mas ao mesmo tempo tem um poder magnificamente exagerado. Tem um brilho como o brilho da lua (que não é seu, mas do sol) e, como lua, tem um lado oculto e incompreensível. Pelo menos para mim, muitas vezes totalmente incompreensível. É fantástico ainda porque se alimenta do mesmo indivíduo que, ao mesmo tempo, fragmenta e estilhaça, num lance de olhos, num rolar da scrollbar.

Sou uma pessoa que precisa da clareza para entender o mundo e as pessoas. Não aguento e duvido que alguém aguente pensar tanto sobre tão pouco e tão superficialmente. Também tenho dificuldade expressa em compreender como as pessoas conseguem apresentar-se tão multifacetadamente a ponto de parecer Dr Jekyll de manhã cedo e Mr Hyde antes do anoitecer. É humanamente impossível manter a clareza de discernimento e até mesmo de distinção entre diversão, hipocrisia, cinismo, bondade, compaixão, vaidade e demais sentimentos multipolares, que parecem ser as características mais evidentes de todos os seres conectados do mundo contemporâneo. Fora os indefectíveis, os mais inconcebíveis entre todos.

No fundo eu sempre imaginei que isso pudesse acontecer um dia desses. Que eu fosse acordar e fosse simplesmente querer fazer outras coisas, noutras plataformas ou simplesmente no atabalhoado mundo real. Coisas que estão esperando por minha atenção e das quais simplesmente o artefato digital do garoto Mark forçosamente quer desviar-me. Acontece que tudo tem limite e o desejo de dedicar-me a atividades que exigem atenção concentrada era tudo o que eu precisava para fechar essa janela do meu cotidiano. E felizmente há muitas delas esperando por mais que a ponta apressada dos dedos e uma faísca dos olhos. E que não podem mais ser adiadas.

Isso significa que não quero mais me comunicar com as pessoas? Claro que não, eu apenas não quero que seja mais da forma proposta por esse simpático e caridoso garoto, o mais benemerente da América. Não quero configurar nem selecionar as palavras, os destinatários ou o conteúdo do que penso e escrevo, se essa é a única forma de transitar entre publicidade e privacidade. Não quero privar da intimidade, da grandiosidade e das oscilações de humor de 5.000 criaturas, entre pessoas queridas e estranhos absolutos, com muitos matizes entre os dois polos.

Essa forma de linguagem que busca satisfação e constituição através do outro é tão somente o aprisionamento do outro em si mesmo. É o congelamento das identidades e das subjetividades. No fundo, não esperamos novidades no Facebook, mas apenas confirmações. E diálogos improváveis no qual alguém diz (ou se espera que diga) grandes coisas para a admiração alheia, como se pudéssemos com isso nos tornarmos subitamente espetaculares. É por isso que nunca de jamais haverá o botão descurtir no Facebook, porque ele revelaria o descuido às vezes inevitável, às vezes intencional, que temos para com os outros ao conhecê-los e não reconhecê-los (às vezes as pessoas são mesmo irreconhecíveis)..

De qualquer forma isso é uma coisa indesculpável entre amigos e uma forma de desrespeito entre pessoas que se conhecem, mesmo que a isso queiram nos convencer que seja um comportamento civilizado. Mark, você é mesmo um sujeito genial, mas eu sinto dizer, você não vai tão longe assim. Mas fique tranquilo com seus bilhões. Do jeito que o mundo está, você e sua engenhoca realmente não vão tão longe, mas trilhardário, ah com certeza isso você vai conseguir ficar.

Esse meu perfil vai ficar aqui e essas palavras talvez também fiquem por algum tempo ou talvez para sempre (quanta pretensão!). Talvez essa mensagem se desintegre ou simplesmente seja esquecida ou suplantada por uma torrente de informações mais relevantes e emergentes, o que no fim das contas pode dar no mesmo. Certamente uma pontinha de mim gostaria de continuar on-line ou prometer voltar a abrir essa janela, mas isso é tudo que eu não quero/posso fazer agora. A titulo de inadiável experiência uno-me daqui em diante aos “amigos”, não, aos amigos (sem aspas), que nunca deram as caras por aqui e, pasmem, continuam amigos e pessoas queridas. Espero que as pessoas que conheci e reencontrei aqui possam juntar-se a estes. Do contrário, só posso lamentar. Ou acenar.

Para quem quiser falar comigo por escrito (acredite que isso seja possível), pode usar meu e-mail lucioscjr@uol.com.br Os mais íntimos têm meu telefone. Meu blogue também continua no mesmo lugar, no mundo necessário dos sonhos, em Morphopolis. Também sou encontrável lá, embora mais exageradamente que aqui nesse espacinho em branco do seu feed de notícias.

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