No aniversário de um suicídio

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Se tivesse de escolher um fato marcante, dentre as toneladas intermináveis de fatos amontoados em 2013, eu deixaria de lado todos os feitos políticos, esportivos e religiosos – mesmo os mais escabrosos e incompreensíveis – para remeter-me ao comecinho do ano, mais precisamente ao dia 18 de janeiro de 2013, data em que o ator Walmor Chagas cometeu suicídio no sítio onde vivia sozinho, aos 82 anos de idade, em Guaratinguetá, interior de São Paulo.

Sua morte pode significar tanto a mera confirmação de uma estatística sombria (no Brasil, entre as pessoas do sexo masculino, 7,1 em cada 100 mil cometem suicídio, subindo para mais de 15 após os 75 anos, segundo levantamento da jornalista Claudia Collucci, na Folha de S.Paulo), que também pode dizer respeito a várias e complexas situações, entre elas a depressão, a solidão e abandono na velhice, mas também sobre a autonomia, o livre arbítrio e o imperativo da pessoa humana sobre ela mesma e o seu destino.

Nenhuma dessas situações, entretanto, pode ser comparada ao imenso silêncio público feito em torno ao tema, mesmo envolvendo alguém tão conhecido quanto o ator Walmor Chagas. Uma pesquisa rápida no Google retorna não mais que sete ou oito páginas de resultados para “Walmor Chagas suicídio”, sendo muitas reproduções de outras já referidas pelo próprio mecanismo, ou seja, cópias exatas. Além desses resultados, o Google apressa-se a mostrar sua explicação automática para tão restrito retorno: “Para mostrar os resultados mais relevantes, omitimos algumas entradas bastante semelhantes aos 25 resultados já exibidos. Se desejar, você pode repetir a pesquisa incluindo os resultados omitidos”.

Não creio que haja qualquer manipulação nos resultados da ferramenta de busca. Na época, procurei acompanhar a repercussão do suicídio e ela aconteceu muito timidamente, como costuma ocorrer quando o suicídio deixa de ser uma “temática” e passa a ser uma “realidade”. Embora o número de reportagens ou de meras aparições do assunto tenha aumentado em alguns casos, principalmente em veículos secundários, pensei que a estatura (não a corporal) de Walmor Chagas seria suficiente para romper de forma mais ampla o cercado em que se costuma enclausurar o tema, convertendo-o (ou pelo menos favorecendo a converter-se) em uma espécie de tabu da contemporaneidade. Isso a despeito das orientações dirigidas às redações para que sejam breves ou mesmo silenciosas ao tocar na “temática”.

Em seu sentido original, o tabu traz consigo a marca da profanação e as devidas maldições. Ao revivificar o significado mitológico do termo, Freud alertou em Totem e Tabu que o tabu é a condição indispensável para a idolatria. Neste caso, não há evidentemente ninguém propondo a idolatria do suicida ao conservá-lo nesse status de intocabilidade permanente, mas talvez seja oportuno pensar que uma conservação nesses moldes possa implicar uma idolatria indistinguível que se preste a objetivos também indistinguíveis. Ou de pretendida obscuridade.

Sob muitas justificativas e motivada por estatísticas preocupantes, há cerca de 15 anos a Organização Mundial de Saúde (OMS) editou um guia voltado aos profissionais da mídia com a intenção de instituir uma série de precauções em relação às abordagens e notícias sobre o suicídio. Por muito tempo o tema foi claramente evitado nas redações, talvez sob o argumento de que a simples menção do termo pudesse fazer oposição a princípios éticos pertinentes à vida, como se a morte – mesmo a autoimpetrada – dela não fizesse parte.

No Observatório da Imprensa, em 2010, o artigo de Carolina Pompeo Grando “O suicídio na pauta jornalística“ demonstra como muitas redações e editores recomendam abordar – ou simplesmente ignorar – a realidade do suicídio. É um texto esclarecedor sob muitos aspectos, mas principalmente por descortinar situações de interesse público através da análise do supremo ato individual que é o de dar fim a própria existência. E também porque demonstra que não apenas é possível, mas plenamente desejável conhecer-se a realidade ao invés de falseá-la ou ocultá-la. Ao poder do tabu, entretanto, parece que há muito pouco a opor. As raras tentativas de encará-lo, mesmo quando envolvendo pessoas notórias, são frias e gélidas, mesmo que isso seja uma metáfora para lá de indesejável. Uma menção direta, como um obituário, às vezes poderia ser até mais honesta.

Embora seja inviável, pelo menos através dos meios terrenos, elucidar tudo o que envolve o suicídio de alguém, parece evidente que há, no caso de Walmor Chagas e em todos os outros, um desejo poderoso de ruptura, de cessação. Por mais que os efeitos de todos os suicídios sejam idênticos, nem as condições nem as motivações para tanto podem ser comparáveis. Se essa é uma regra que vale para a vida, então ela também vale para a morte. O ator Walmor Chagas, porque tirou a própria vida, não deixou de ser um ator para converter-se em um suicida entre os suicidas. Os suicidas não são uma classe de pessoas e tratá-los uniformemente, tanto como mártires ou como covardes, dá no mesmo e não explica em nada da vida e das circunstâncias da morte (e também da vida) daquelas pessoas. Resumir a biografia de quem quer que seja à forma pela qual morreu não é diferente, portanto, de suprimir sua existência. Ao negar-se a narrativa da morte de alguém por praticar o suicídio, qualquer que seja essa pessoa, o que acontece é que se está serializando-a, como se o suicídio fosse uma categoria da morte e não um gesto humano com razões na própria vida.

Se alguém se dispuser a contar a respeito do suicídio de alguém, será preciso conhecer minimamente sua vida, seus registros ou de quem dela privou intimamente. Informar sobre o suicídio de uma pessoa não é o mesmo que reproduzir as conclusões de um inquérito policial, embora exista muito jornalismo que pareça primar cada vez mais sobre essa segunda forma.

Qual o temor, afinal? Acredita-se ainda que a divulgação de suicídios possa desencadear “ondas”, como em uma reedição de Werther? Ou, por outro lado, será que se teme legitimar o pleno poder da pessoa sobre sua própria vida, mesmo que ao custo de sua manutenção? Para quem procura informação, definitivamente o que importa é saber por quê. Mesmo que não haja respostas imediatas e o assunto pareça flertar com a metafísica, é isso o que as pessoas querem (crendo estar em seu absoluto direito) saber, desde épocas remotas e, talvez, para todo o sempre. Não será tempo suficiente para que se deixe a descrição da cena restrita aos boletins de ocorrência? Será realmente invasivo, desrespeitoso ou simplesmente inviável clarificar indagações dessa espécie? Não há mesmo mais informações a oferecer sobre um gesto tão derradeiro e definitivo?

Reli mais de uma vez as informações que encontrei sobre o suicídio de Walmor Chagas. E confesso que permaneço desde então com a mesma perplexidade. Ao que tudo indica, o ator não se encontrava em crise depressiva. De acordo com familiares e pessoas que estiveram com ele nos últimos dias de sua vida, ele apenas se queixava das limitações físicas que o diabetes lhe impunha. Aparentemente, não havia queixas pela solidão em que vivia em seu sítio no interior paulista e ainda trabalhava em um novo filme. Se parece tão terrível assim dizer que ele simplesmente rompeu seu laço moral com a vida e tomou uma decisão tão autêntica quanto qualquer outra, por que se fala nessas coisas à boca pequena e, de outro lado, prosperam escândalos às vezes por fatos sem importância alguma, ou até mesmo por rumores ou coisas ainda menores?

Ocultar as condições que levam as pessoas ao suicídio obviamente não faz com que deixem de existir, mas a impressão que fica é que a opção mais clara tem sido jogá-lo dentro de uma floresta, para que sua existência possa inclusive ser questionada. Ou abafada, talvez. Mas por que tipo de necessidade isso aconteceria? Há alguma tensão social revelada no mais individual dos gestos? Ou simplesmente é preferível não acender o debate sobre morte digna, eutanásia e religiosidade?

Definitivamente, não tenho respostas para estas questões. Ainda assim, é evidente que o suicídio gera uma espécie de perturbação social. Talvez não do mesmo tipo que a violência social e suas derivações penais, mas por demonstrar claramente todo o poder e a autonomia do indivíduo perante o social e suas normas legais. Ou, talvez ainda mais, por infringir o poderoso tabu da morte, baluarte de toda a sorte de credos. Em A História da Morte no Ocidente, o historiador francês Philippe Ariès comenta que a virada para o século 20 marcou o momento em que a vida sexual, antes o tabu familiar por excelência, se tornou cada vez mais pública e o momento da morte foi cercando-se de crescente mistério e proibição. Ao que tudo indica, Ariès mais apontou tendência que propriamente registrou a história. Mesmo que muitos filósofos e cientistas sociais venham incessantemente debruçando-se sobre o suicídio e os limites da liberdade humana, a sociedade parece ainda preferir encarar o medo pelo desconhecido a apropriar-se de seus significados e daí revelar a si mesma com um tantinho mais de fidelidade, ainda que mantido algum espanto e o “devido respeito”.

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