Um réveillon alsaciano

suco-de-uva

Ontem eu estava no supermercado, já quase no caixa, quando de repente senti que alguém se aproximou de mim pelas costas. Não senti o desconforto de qualquer ameaça, mas virei para ver quem estava ali. Era um sujeito alto, magro e negro. Com a barba por fazer e vestido como se vestem os moradores de rua, mas não era andrajoso, era apenas miserável. Um miserável ereto e atento ao movimento de todos. Lúcido diante dos olhos dos funcionários do estabelecimento. Silencioso como um gato, mas respeitoso como um cão que sabe perfeitamente onde está pisando.

Ele tinha duas coisas nas mãos. Uma garrafa de aguardente e um pacotinho de suco de uva em pó. Eu olhei rapidamente para ele e ele me perguntou se eu “passava” o suco para ele. Os trocados que ele tinha na mão não dariam para os dois produtos, de qualquer forma. “Claro”, eu falei. Vai me custar muito pouco. Um suco em pó vale menos de um real. A cachaça que ele levava devia custar dois ou três reais, mas ele não fez a menor menção de que eu pagasse a bebida. Ele a levava junto ao peito como os demais levavam suas caixas de leite ou outros mantimentos.

Por um momento, passou pela minha cabeça que eu devia pagar a própria cachaça e colaborar de vez com sua embriaguez. O verão intolerável de Porto Alegre lhe seria mais suportável e provavelmente ele sairia dali para compartilhar a bebida com outros dos muitos moradores de rua que perambulam e pernoitam nas ruas da Cidade Baixa. Meu gesto teria uma missão social, possivelmente, porque ninguém que mora na rua bebe uma garrafa de cana sozinho. Na rua, o verbo compartilhar tem um significado concreto que envolve tanto a sobrevivência mais elementar quanto dormir juntos sobre o duro colchão do cimento e das calçadas.

Olhei rapidamente para ele antes de entregar meu cartão para a moça do caixa e percebi que, mesmo que eu quisesse, essa possibilidade não existia. Tentar fazê-lo seria uma violência comparável à profanação da honra de um samurai. Não, isso não aconteceria pela minha mão. Para ele, estava claro que ninguém deveria arcar com sua bebida tão explicitamente, embora provavelmente as moedas que pagariam-na tenham sido obtidas pela doação de alguém, mas em oculto, no anonimato pelo qual uma mão limpa deposita moedas numa mão suja, à vista de todos, no olho da rua.

Depois que passei minhas compras, fiquei enrolando um pouco ali perto, conferindo a nota. Na verdade eu queria conferir é qual seria o tratamento dispensado ao “cliente”. A moça do caixa nem piscou em passar apenas a bebida. Foi uma sorte, pois eu sabia que se alguém tentasse qualquer abuso, eu precisaria fazer alguma coisa. Nunca se é cúmplice de alguém até certo ponto, nem que seja por causa de uma garrafa de cachaça. Era a minha honra ali. A dele provavelmente já havia sido espancada muitas e muitas vezes. Eu consegui cumprir minha parte sem maiores dificuldades. Ele foi saindo do local acompanhado de longe pelo olhar dos seguranças. Talvez esse seja o sabido ônus de ter um comércio na Cidade Baixa, mas eu mesmo muitas vezes presenciei a ação truculenta de funcionários dos supermercados, principalmente com moleques de rua furtivos.

Com a cachaça e o suco devidamente ensacolados, ele dirigiu-se a uma porta oposta a qual eu me dirigi, rumo ao estacionamento. No elevador, um homem de seus sessenta anos puxou assunto: “Você viu aquele vagabundo e o outro financiando a cachaça?” Dessa vez tomei um susto de verdade, mas logo vi que o sujeito não havia percebido que o “promotor” da vagabundagem e beberagem era eu mesmo. “Ah é?”, perguntei. É uma pouca vergonha, ele continuou. “Garanto que se lhe dessem um emprego, ele não queria trabalhar.” E a viagem do elevador pareceu mais lenta do que nunca.

Do lado de fora da porta, continuou insistindo, como se eu devesse ouvir sua doutrinação. Vou lhe dizer que quem financia a vagabundagem é que vende a cachaça mais barato que o leite e o pão, mas uma pessoa dessas jamais vai entender isso. É o típico sujeito que, na noite de réveillon, vai beber tranquilamente seu espumante até começar a encher os tubos de alguém mais de uma maneira absolutamente insuportável, porque lúcido está claro que já é chato o bastante. E claro, só existem criaturas assim no mundo porque um tipo de plateia o apupa e promove. Talvez sua própria família, se é que alguma aguentaria de bom grado a sua companhia.

Falta-lhe a dignidade de beber silenciosamente como os mendigos, até que o grito afogado que adormece dentro de cada um deles irrompa de uma maneira socialmente insuportável e passe a vagar por aí, nos deslugares da cidade. Dentro do carro, procuro localizar meu beneficiário, mas não consigo vê-lo. Apenas vejo o sujeito insuportável do elevador reclamando alguma coisa com o menino da catraca do estacionamento. Há muitos moradores de rua nas redondezas, mas a maioria está dormindo sob a sombra fugidia das marquises. É bobagem procurar por alguém nessas condições. Provavelmente, ele vai guardar a garrafa para a noite, para beber na virada do ano, talvez sozinho, talvez com o amor extraviado de alguém igual a ele. Mas ele vai estar tão bêbado que nem vai lembrar disso, apenas de um gosto amargo na boca que nem o melhor néctar das uvas alsacianas poderia disfarçar.

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