A música que não vibra

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Há algum tempo atrás li, em algum lugar, que o naturalista inglês Charles Darwin não gostava de música. Não é que não gostasse, é que sua mente aparentemente não apreciava o gozo estético da música. Parece que ele sentia o mesmo em relação à pintura. Não podia ou não sabia como julgar o valor estético de uma obra de arte, embora pudesse observar, compreender e descrever os fenômenos biológicos de uma maneira absoluta, razão pela qual figura sabidamente entre os grandes gênios científicos da humanidade. Um gênio irrefutável e, mesmo assim, aparentemente intocado pelo prazer da percepção musical. Consta que, a despeito disso, sua esposa Emma tenha sido excelente pianista, aluna de Frédéric Chopin e por este inclusive elogiada em razão de sua técnica. Imagino que Darwin tenha sido um amante paciencioso, pois através de algumas biografias também pode saber-se que ele não se furtava ao serões de Mrs Emma. Bem, as especulações param por aqui.

Outro pilar da modernidade, o austríaco Sigmund Freud, parecia sentir o mesmo sobre a primeira das artes. Em O Moisés de Michelangelo, ele diz: “com a música sou quase incapaz de obter qualquer prazer” para, em seguida, talvez explicar as razões disso acontecer (quem sabe explicando também o que acontece a Darwin): “Uma inclinação mental em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover-me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta.”

Na minha vida, conheci pessoas com graus diferentes de sensibilidade musical. Desde prodígios infantis a pessoas praticamente indiferentes às composições sonoras, sem falar nas completamente ineptas aos instrumentos musicais. Não sei se terá a uns faltado o estímulo que chegou a outros, mas o fato é que talvez a sensibilidade musical tenha um fundo neurológico que se desenvolve de forma diferenciada nas pessoas. Ou então se desenvolva em algumas pessoas a assim chamada “amusia” que corresponderia, no campo da neurociência, à perda total das funções musicais pelo indivíduo. Através da neurociênica sabe-se também que, ao contrário de outras funções cerebrais, a musicalidade não está ligada a nenhum campo específico do cérebro, mas a muitos campos simultaneamente, o que dificulta ainda mais a compreensão sobre o assunto.

Há outros fenômenos sobre a musicalidade e o indivíduo que me chamam bastante a atenção também. Aquelas pessoas que, por exemplo, têm uma relação utilitarista com a música e usam-na como um tipo de terapia particular. Pessoas que gostam de gêneros musiciais seletivamente ou que são radicalmente refratárias a determinados estilos. Não são poucas as pessoas que se recusam a ouvir qualquer melodia mais lenta que classificam-na imediatamente como “música depressiva”. Conheci pessoas que apenas toleravam o estilo de “música ambiente”, que parece ser de um tipo que não lhes afeta o humor. E outros que apenas escutavam “músicas positivas”, com efeito motivacional ou grandiloquente. E ainda pessoas que vinculam a música exclusivamente ao gesto e prática da dança.

No livro Alucinações Musicais, o neurologista e escritor Oliver Sacks conta situações incríveis envolvendo a música e os seres humanos. A que mais me chamou a atenção foi a de que pacientes com Alzheimer, de um forma ainda desconhecida, mantêm preservada a memória musical e que inclusive o aprendizado de um instrumento, mesmo tardiamente, ajudaria a retardar o próprio desenvolvimento da moléstia. O uso terapêutico da música com animais e vegetais também parece ter algum tipo de efeito comprovado através de observações científicas. Vacas que ouvem Mozart produziriam mais leite na ordenha e alfaces tirariam mais proveito da fotossíntese se submetidas a “audições”. Coisas da natureza.

Lembro ainda hoje do quanto me espantei ao descobrir que mesmo um instrumento percussivo, como a bateria, possui uma escrita musical que pode ser transcrita em uma partitura. Mesmo que os instrumentos percussivos pareçam ter a única função de sustentação rítmica, produzem sonoridades diversas que operam em uma frequência vibratória escalonável, razão pela qual podem ser “escritos” conforme a linguagem musical. Provavelmente os instrumentos percussivos foram os primeiros criados pelo homem, embora os vestígios de rudimentares instrumentos de sopro tenham sido também encontrados em diversos sítios arqueológicos. Boa parte dos instrumentos modernos, com exceção dos elétricos, derivam de certa maneira da atividade percussiva, mesmo que de forma indireta, como no caso do piano, cujas cordas são acionadas mecanicamente.

De toda a maneira, a música é sempre o resultado da vibração das ondas sonoras e de sua harmonização (ou não, como querem os cacofônicos). Diferentes culturas têm características bem específicas em relação à composição musical e até mesmo sobre peculiaridades sonoras. Instrumentos exóticos como a cítara indiana e outros quase inconcebíveis são capazes de gerar sonoridades tonais fracionadas, os chamados semitons, que não podem sequer serem transcritos para escrita musical ocidental. Parece ser o mesmo tipo de frequência sonora que se encontra na música vocal tradicional de países do oriente médio, não por acaso hipnotizante.

Seja como fonte de enlevo, transe, euforia ou mero deleite, a música acompanha o homem desde eras remotas e é provável que acompanhe até o final de nossa experiência terrena. Diante de um predomínio tecnológico sem precedentes na história, é natural que ela cada vez mais receba daí um aporte relevante. Desde a década de 1960 isso vem acontecendo, na verdade. Que uns prefiram as guitarras e instrumentos eletrificados aos samplers digitais ou estes aos instrumentos acústicos mais tradicionais, tudo isso é bem compreensível. O difícil de compreender continua sendo a misteriosa conexão que a música faz com o pensamento e com a sensorialidade humana, chegando a anular-se em alguns casos e, em outros, gerando elaborações de extrema complexidade, como a capacidade de improvisação jazzística, por exemplo, sem entrar no mérito de Beethoven e outros compositores e instrumentisas acometidos pela surdez. De qualquer forma, mesmo que se trate de capacidade desenvolvida através da aprendizagem, sempre soará como um tipo de magia ou, como bem afirmou Schopennhauer, um tipo especial de exercício inconsciente da metafísica, “no qual o espírito não sabe que está a fazer filosofia”.

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