Tenho uma casa no CIDADE

CIDADE

Antigos amigos me pedem uma tarefa das mais complicadas: manipular memórias. No meu caso, memórias que encontro na minha própria história. É aqui que devo procurá-las, não no passado. O que tenho do CIDADE dentro de mim? É a primeira pergunta que me faço. Mas eu gostaria que a
Regina Pozzobon me respondese, se me encontrasse hoje. Ou a Delma Vargas, o Sérgio Baierle, a Vera Amaro, a Ângela Gomes, a Adriana
ou o Eduardo, e todos os outros que a memória não me permite lembrar de imediato, que um pouco de idade e o trabalho da leitura acabou por cansar um pouco, mas nem tanto assim… Para mim, todos seus nomes são mais que seus nomes, são suas pessoas. E o CIDADE uma cidade por onde cada um de nós passou ou está, como me lembra a Delma Vargas, sustentáculo do dia a dia desse lugar fundamental. Confere, Delma?

Vou adiante um pouco mais, pulo essa parte dos esquecimentos factuais e me dirijo às memórias simbólicas, as que verdadeiramente importam. Lembro que o CIDADE funcionava de semana a semana, todos os dias, mas o primeiro dia da semana sempre teve para mim um gosto especial. Não, não estou falando do café, esse nunca foi frio nem ruim. Garantido que não. Falo desse dia que chamarei, para efeito do que quero dizer, o dia da coerência. Eu digo isso porque vivi o CIDADE no tempo em que a democracia participativa extrapolava em muito o sentido burocrático ao que lhe amarraram mais tarde. Essa democracia participativa nós experimentávamos ali mesmo, reunidos em torno da mesa, organizando a pauta, ouvindo uns aos outros e, principalmente, planejando formas de nos ajudarmos mutuamente.

Vejam, isso é uma memória simbólica. Não consigo lembrar exatamente das pautas ou das conclusões, apenas sei que consertávamos nossas ideiais em conjunto. Depurávamos nossas expectativas juntos. Trabalhávamos às vezes sem harmonia, mas sempre simetricamente. Sinto muito pelas
pessoas que, em suas vidas profissionais, possam ter passado sem esse tipo de experiência. Trata-se de mais que uma prática. É uma forma
de respeitar o que levamos aos outros. Essa é a coerência de que falo.

Do meu próprio trabalho também não lembro detalhes. Lembro mais que me intrometi muitas vezes no trabalho alheio e sempre fui bem recebido. Às vezes fui a isso convocado. De qualquer forma, tive coisas a fazer e inventei outras coisas também. Coisas que espero tenham feito sentido para o CIDADE e sido úteis no tempo em que não estive mais lá. Trabalho de retaguarda é assim mesmo. Documentar nos ensina que não há fim na história (mas que balela é essa?) e o que fazemos registra-se em nós mesmos indelevelmente.

Por isso eu sei que tenho uma casa no CIDADE, embora hoje more e trabalhe noutros lugares. Ora, uma casa não é um ancoradouro final, é uma referência, um ponto na urbe que nos desloca no espaço (pelo jeito no tempo também) em direção a experiências múltiplas, como uma cidade (como evitar a metáfora?). Pois é por isso mesmo que eu tenho uma casa no CIDADE, porque ele é como uma cidade que abrigou e ainda abriga mais até que pessoas, acolhe suas práticas, converge e amadurece suas experiências, sempre no sentido de apontar uma cidade melhor para todos. Então o CIDADE ainda é mais para mim do que eu para ele. Não por acaso, foi lá que entendi que a sociedade, apesar de tudo, sempre será maior que o indivíduo. Na minha pequeneza, guardo um imenso orgulho de todos nós. Obrigado por fazerem parte de mim.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s