Clarice, música a perder de vista

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Em Clarice, a cantora Simone Guimarães transita entre a bossa nova e a sonoridade do Clube da Esquina para fazer o que mais sabe: música. E em alto quilate.

Desde sempre a produção musical brasileira é um intento de coragem. Coragem e despojamento, dadas as circunstâncias desiguais colocadas recentemente pelo mercado do disco e pelos impasses da novíssima cultura digital. Ainda assim, há muito já os artistas locais têm buscado formas alternativas de realizar de modo independente o seu trabalho. O mais recente trabalho da cantora paulista Simone Guimarães, Clarice, é mais um exemplo de que, a despeito das dificuldades, o trabalho não para. E não para porque não pode. Porque por detrás dele há uma intensa vontade criativa que desafia as dificuldades, ao mesmo tempo em que faz pensar sobre o que vem sendo feito sobre música brasileira e como isso vem acontecendo.

Destra tanto ao piano quanto ao violão, Simone mantém em Clarice a voz “selvagem”, pela qual Milton Nascimento a definiu (e com quem participou recentemente nos espetáculos comemorativos aos 50 anos de carreira do cantor mineiro). Na composição de Milton e Márcio Borges, Vera Cruz, e em faixas que tiveram a parceria de Novelli, outro “clubeiro” bem conhecido, o tom é marcante. Nas colaborações com Miúcha e Danilo Caymmi, a inspiração e a presença vocal são diversas, mas mostram capacidades inauditas para quem conhece os trabalhos anteriores de Simone, como a exploração de graves maiores e uma sonoridade que remete diretamente às influências jobinianas (amplificada pelas cordas de Ocelo Mendonça), ainda mais quando divide os vocais com Paulo Jobim.

O mosaico de Clarice extrapola em muito os próprios estilos que o inspiram ao tempo que não se limita a reproduzir o já feito, mas por descobrir uma musicalidade brasileira um tanto quanto adormecida se comparado às produções mais recentes de outros cantores. Além disso, Simone compõe – e de um modo especialmente particular, trazendo além de suas próprias referências uma dicção muito pessoal, produto de sua trajetória artística.

Por certo Clarice remete a outros de seus próprios discos (Piracema, Casa de Oceano, Flor de Pão, etc.), mas sua aventura atual vai muito além de produzir e distribuir de forma independente o trabalho. A aventura diz respeito a sua ousadia em reposicionar a composição popular quando mal se podem perceber identidades musicais em tudo o que está aí para a música brasileira. De certa maneira, Simone Guimarães volta à cena para nos ajudar e perceber quem somos e onde vivemos. Clarice é “mais do mesmo”: é música brasileira a perder de vista.

Músicos e participações

Com direção musical de Ocelo Mendonça, o disco conta com várias participações. Miúcha divide os vocais com Simone na faixa título, Clarice, Anseios de Sereia e em Como A Vida, que assina a letra. O pianista e arranjador André Mehmari participa em Clarice, Sem Mais Tristezas e Vi. Na faixa Estrela do Mar, divide os vocais com Danilo Caymmi, que também participa com a flauta. Paulo Jobim, parceiro desde o CD Piracema, aparece na faixa título, Clarice e em Anseios de Sereia, que tem letra de Carlos di Jaguarão e música de Simone Guimarães. Janaina Meu Canto de Guerra e Beija-Flor Colibri tem parceria com Novelli, na composição e nos vocais. Beija-Flor Colibri tem letra de Ana de Hollanda, que também aparece nos vocais. Além destes, o CD registra a presença de Leandro Braga no piano, Tiago Penna da Costa, João Gaspar. Em praticamente todas as faixas, Simone Guimarães toca piano, violão ou percussão e Ocelo Mendonça aparece nas cordas. Ainda traz como convidados Ilessi Silva, Leonel Laterza e o percussionista Cristiano de Barros Novelli.

Assista, no YouTube, uma prévia do disco
Vera Cruz, de Milton Nascimento e Marcio Borges

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