Uma pequena fábula joaninha

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Contam que ela tinha tanto carinho pela vida que resolveu viver no pátio da casa, junto às coisas que as pessoas fizeram trastes. Bem cedo de manhã, no orvalho que se depositava nas madeiras das cadeiras quebradas, no metal das latas furadas ou no verde das folhinhas do jardim mal cuidado, ela lavava as mãos e o rosto, cuidando de não fazer um ruído sequer que atrapalhasse o sono das pessoas dentro de casa. No pátio, viviam outros bichos também. Um cão atropelado que dependia totalmente dos outros. Passarinhos que tinham ninho no telhado carente de conserto. Até uma comunidade militar de formigas que às vezes doava gentilmente algumas folhas para o húmus da terra. Lá pelas sete horas da manhã, todo o dia, uma velha senhora abria a porta do pátio e olhava para cima, adivinhando o clima que iria fazer, e olhava para baixo, como se procurasse alguém que estivesse ali escondido ou passando ou dormindo. O cão virava os olhos em sua direção e sacudia o rabo, mas em seguida se acomodava novamente. Ela, paralisada, esperava que a velhinha voltasse para dentro de casa para continuar sua higiene. Às vezes, dormia na casa da velhinha uma netinha sua, criança de seus oito anos. Ela acordava mais cedo que a avó e, mais cedo ainda, já estava a correr pelo pátio, numa insolência que todos os bichos toleravam. Apenas a joaninha não aguentava que interrompessem o seu rito, ainda mais com dedos apressados, e saía voando.

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