A testemunha aprendiz

Duas crianças jogam bola

Inclusive

Por necessidade de conhecer outros pais de crianças com deficiência intelectual, como eu, frequento há pelo menos cinco anos vários grupos de discussão na internet. No começo, frequentava mais os grupos via e-mail, onde já não vou tanto. Atualmente o que parece inevitável: os grupos formados via redes sociais. E há aos montes. Uns mais específicos, outros mais genéricos. Uns mais participativos, outros mais elitistas. Há para todos os gostos, enfim. Nesses grupos conheci e também deixei de reconhecer muita gente. Penso que isso é natural e, mais que isso, inevitável. O tempo vai criando filtros e consolidando amizades, sábio que ele é. Em um desses grupos conheci (primeiro virtualmente, depois ao vivo e em cores) o Alexandre, nome fictício, que me contou a história a seguir e com quem vivi parte dela, perguntando o que eu penso a respeito. Conto a história primeiro, digo o que penso ao fim.

Diz o Alexandre que o filho tem personalidade. Muita. Tanta que já anda, por conta disso, causando-lhe alguma dor de cabeça. Ele tem oito anos de idade e vai à escola com colegas da mesma idade. Seu grande medo é que ele possa ir até lá para, entre outras coisas, fazer o que a maioria faz: brincar e implicar uns com os outros. Seu grande medo é que ele possa estar fazendo – com pouca ou nenhuma noção de que o esteja – uma espécie de “bullying” primaríssimo com o filho de um outro pai, um menino ruivo. Ele diz que o seu filho tem síndrome de Down e também precisa aprender a conviver com as diferenças.

Como a maioria das crianças, ele é um pouco egocêntrico. Pensa que o mundo gira em torno de si. É como um sol copernicano. E, como tal, brilha, mas o fantasma do “bullying” estaria manchando sua imagem semi-santificada. Na escola, todos se perguntam: como pode? O Alexandre se pergunta: como não pode? Como não poderia, se não há quase nenhum ruivo na escola onde ele estuda? Penso em lhe dizer que se acalme, que isso não caracteriza nem de longe um tipo de preconceito racial, ou qualquer tipo de preconceito, mas deixo que vá até o fim.

O filho do Alexandre veio de mudança de uma outra escola para aquela. Lá, como na atual, o filho do Alexandre era o único com síndrome de Down, mas igualmente paparicado. E o safado, diz o pai, gosta disso, não que tire algum proveito material da situação. Mas afetivo, ah.. isso já é outra história. O Alexandre diz que “o cara” gosta de estar no centro. Que é um ator nato. E agora, como se vê, não quer competição na diferença. Quer ser exclusivo. O mais especial. O mais incomum entre os incomuns. Não sabe ele em que arapuca está se metendo. Como bom pai, o Alexandre diz que irá tirar seu chão. Ele não sabe, mas o Alexandre é o seu malvado favorito.

O Alexandre diz que a implicância (melhor que bullying, não?) dele nada tem a ver com a cor do cabelo do colega. A questão seria meramente atenção. Sua tarefa, portanto, é árdua: é podar seu egocentrismo na raiz, fazer-lhe perceber que a igualdade vale mais que a sacralização da diferença, isso no ponto de vista da sua família. E que ser tratado com base na diferença impõe muitas vezes um abismo intransponível e, paradoxalmente, bastante confortável. Por sorte dele, tem duas irmãs mais velhas com as quais exercita (às vezes fisicamente) as artes democráticas. É um “espetáculo”, diz o Alexandre.

Ele me conta que migraram da escola pública para a privada em busca da famosa “qualidade”. E também porque a economia doméstica melhorou a ponto de permitir 3 mensalidades, onde não havia nenhuma. E a maldita acomodação do ensino público já andava por comprometer etapas importantes na aprendizagem das filhas maiores, sem que espernear adiantasse de algo. O jeito, segundo ele, foi fazer as trouxas, apertar o cinto e migrar. Diz ele que a família torce para não mudar tão cedo novamente, mas assim como as escolas têm mania em avaliar nossos filhos, o Alexandre e a esposa adquiriram o gosto de avaliá-las também, e diariamente. Por enquanto tudo vai bem, as engrenagens movidas a dinheiro privado funcionam mesmo melhor que aquelas movidas a verbas públicas e ele relata que o interesse na educação de um “especial” tem sido autêntico na nova escola. Ali, ninguém – exceto os alunos – parece estar de brincadeira. Não lhe digo, mas o Alexandre é um sujeito de sorte.

Ainda assim, ele diz que vive uma situação sui generis. Diz que nunca imaginou que o “objeto” por excelência da educação inclusiva poderia transformar-se não mais que de repente em um potencial agente da exclusão e do preconceito. Penso com meus botões: ora, se este é o comportamento mediano da sociedade e convivemos às vezes até mesmo fraternalmente com o racismo, com a homofobia e com o preconceito de classe, então por que se preocupar? Não bastaria simplesmente “deixar rolar”? Essas coisas não se resolveriam, afinal de contas, “ao natural”? Seria o filho do meu amigo o primeiro “down” preconceituoso (ele há de me desculpar se imaginasse o peso do adjetivo) do planeta? Mesmo em se tratando de “anjos”, sinceramente eu duvido muito e, pela expressão do Alexandre, parece que ele também.

No momento, ele diz que estudam medidas concretas. Andam em busca de livros infantis que enfatizem igualdade e diferença, sem o imbróglio sociológico correspondente. Simples assim não tem no mercado. A diferença provoca um discurso estanque, onde todos os diferentes estão isolados uns dos outros. Não se trata de um respeito formal, mas da necessidade de um convívio real, mais igualitário e harmônico. Cansado pela busca nas letras, o Alexandre diz que foi aos filmes e destes aos desenhos animados. Ao mundo idealizado dos personagens de um Discovery Kids Channel, no qual se aboliram todos os maus sentimentos do mundo. Não é tudo bonito quando idealizado? O Alexandre diz que dá até vontade de morar ali, mas a “criancice” logo cede terreno à realidade concreta e às medidas necessárias, ao mundo do pragmatismo. Lamentavelmente, penso calado.

O Alexandre diz que estão pensando em conversar com os pais do menino supostamente “bulimizado”. Em seu lugar, gostaria que fizessem isso, confessa. Afinal, o mais óbvio é imaginar que o exemplo vem dos mais velhos, ou seja, que sua família inteira age dessa forma, belicosamente. Só de imaginar isso, eu tremo. No fundo, ele quer lhe dizer que tenta explicar ao filho o absurdo que está cometendo, mas é difícil para ele explicar a pais que não têm filhos com deficiência intelectual como faz para explicar as coisas. Ele faz isso brincando com bonequinhos, que é uma forma concreta de mostrar-lhe as coisas. Eu digo que também faço, mas que acho que não deve dizer isso ao pai do menino, o ruivo. Talvez seja melhor pensar noutra coisa. Algo mais formal, de repente. Combino com o Alexandre de ir com ele à escola, para ajudá-lo a ganhar coragem. Vamos lá.

Chegamos enfim à escola, o murmurinho é imenso, como só pode ser. A tarde ensaia um daqueles dias azulados de inverno nos quais até as nuvens se intimidam. Ali está o pai do garoto, simpático como ele só e, na altura de seus joelhos, o filho. Ele tem uma bola nas mãos. Bolas, como se sabe, são como imãs para meninos. Logo o filho do Alexandre foge do seu controle (qual filho um dia não foge?) e vai correndo até o outro menino. Ele o pega pela mão e leva até a quadra de esportes, onde as crianças brincam antes do início das aulas. As mochilas são jogadas no chão e a correria se faz. Por um momento, a cena de um livro se desenha diante dos nossos olhos. Paralisado, vejo o Alexandre aproximar-se do pai e dizer-lhe que não vai mais acontecer a chateação do outro dia. Não impunemente. Ele sorri sem tirar os olhos do jogo e responde: é claro que vai. Eles estão aqui para aprender. E nós também.

Eu penso que e registro aqui, conforme prometi no início, não poderia haver acordo melhor. Ficaram combinados assim, sou testemunha (e aprendiz).

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