Os tais

O cerco de Bagé, em 1893.

O cerco de Bagé, em 1893.

Nos últimos dias tenho pensado muito nos meus conterrâneos gaúchos. Melhor, em seus ancestrais. Penso que não é digno – se houver um plano além – que eles possam ver seus descendentes borrados de medo. Dizendo que não aguentam mais a baderna, que durou não mais que 4 dias em duas semanas e rendeu até agora algum dano e prejuízo material endereçado quase que exclusivamente ao Estado e a algumas instituições financeiras, tirando-se outros deslizes lamentáveis, mas não insuportáveis, vamos com calma… Estou falando daquelas pessoas que, defendendo interesses que nãos os seus próprios, encararam coisas tremendas no passado, como a degola criolla, cargas de cavalaria, ditadores científicos como Julio de Castilhos, imperialistas aristocratas como Silveira Martins e uma série interminável de caudilhos e revoltas locais. Sem falar na dureza de ter de atravessar o Oceano Atlântico para dar com isso daqui.

Essas coisas não aconteceram num prazo menor do que meses a fio, anos a fio, através das gerações em muitos casos. Isso para a riqueza de alguns poucos e a desgraça de muitos.

Essas coisas aconteceram em 1835, 1893, 1923 e 1930. Nesse meio tempo, uma guerra mundial e, desde lá, outra guerra mundial e um golpe de estado. E também um episódio chamado a “legalidade”, um foco de resistência isolado ao golpe contra o presidente João Goulart, liderado pelo ex-governador Leonel Brizola.

Esses antepassados suportaram receber notícias por chasque (um tipo de mensageiro a cavalo), rádio e por jornais dominados sempre por grupos nitidamente econômico-políticos: trata-se de uma característica bem antiga do que hoje denominamos grande mídia, ou PIG. Havia também algumas pessoas que, respeitosamente, passaram a debochar do poder. O mais célebre foi o Sr. Apparicio Torelly, o famoso Barão de Itararé, mas parece que ele não foi o único. O barão morou em muitos lugares e, aparentemente, sempre meio “fora da casinha”, para usar um termo local. Foi ele que organizou uma passeata com rolhas à boca, na época em que era chamado de anarquista e em que as pessoas sabiam reconhecer o ridículo do irreverente. Mais sábio e mais velho, dedicou-se à astronomia. Os assuntos terrenos haviam exaurido sua energia.

Esses antepassados, assim como os antepassados de todos os povos que privaram-se de coisas mais sérias que tolices e vaidades pessoais, devem neste momento estar corando por nós. Sim, corando. Não confundir com orando. Nós estamos hoje abdicando do poder pela ordem, cerceando uns aos outros, duvidando uns das intenções dos outros, parece até que há gás lacrimogêneo entre nós, mesmo quando não estamos nas ruas. Embora não faltem candidatos, será mesmo que precisamos de novos caudilhos? Uma renovação “nos quadros” partidários, pelo menos? Não basta que o povo se apresente como tal e desenrole suas queixas?

Nem vou tentar o absurdo de pensar em respostas numa hora dessas. “Os verdadeiros patriotas fazem perguntas”, escreveu o astrônomo norte-americano Carl Sagan certa vez. Ele, mesmo sendo um cético, não era cético porque tinha respostas prontas para tudo, apenas se recusava a abrir mão da dúvida. Para quem acha que o ceticismo é fácil, tente por um momento duvidar de si mesmo, contrabalançar suas crenças e seus interesses individuais. Olhar para o cosmos talvez possa ser difícil para a maioria, mas quem sabe pelo menos o cruzeiro do sul possa nos fazer lembrar de que lado do hemisfério estamos, apesar de farejarmos insistentemente uma vida escandinava. Estamos ao sul do hemisfério e, no caso dos gaúchos, ao sul do Brasil. Tivemos nosso momento na história do Brasil com Getúlio e com Jango, mas ao invés de lamentarmos não tê-lo tanto hoje, talvez fosse importante olharmos mais e melhor para os próprios problemas, para o próprio povo, os tais gaúchos.

Se parece que o termo exorta ao centauro dos pampas ou ao depenado gaúcho a pé, semi-extintos pelo capitalismo galopante (que desgraça usar esses adjetivos), vejam só que gente estranha é essa que está enfrentando o inverno que chega na rua. Lá em Pelotas, Rio Grande, Santa Maria, Bagé, Alvorada, Erechim, Caxias do Sul, etc etc etc. Olhando bem, até que eles lembram mesmo um pouco aqueles que levaram a efeito um orgulho do qual dizemos nunca abrir mão. Pois então!!

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