A melhor do mundo

margarina

Domingo é mesmo o dia da família. Ontem, quando acordei no meio da noite, fiquei pensando nas minhas: a de onde vim e a que estou ajudando a criar. Mais procurando entender o passado que escrutinar o futuro. Fazendo isso, encontrei algumas respostas sobre mim, é claro, que não sou pretensioso a ponto de encontrar respostas sobre os demais. Penso que nos últimos dias me expus bastante, acho que não “demais”. Enfim, me senti e me deleguei esse direito, afinal acho que sei de quem se trata…

Primeiro pensei nos meus irmãos mais velhos. Todos eles são mais velhos que eu, sou o último da lista. Caras, vocês tem consciência que entupiram minha mente infantil, lá nos anos setenta, de coisas subversivas? Bom, se isso – ouvir muita boa MPB e música latino-americana – era para funcionar como algum tipo de vacina anti-reacionários, quero dizer a vocês que funcionou. Eu acreditei mesmo em Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Elis Regina e tantos outros.. De tanto ouvi-los e ler suas letras, acho que até se mixaram ao meu DNA, de alguma forma. Se exagero, pelo menos me fizeram entender, na época, que meu país era o Brasil e eu mesmo parte de seu povo. Portanto vocês tem culpa por terem me oferecido desde muito cedo essa cartilha alternativa a das escolas, por onde aprendi a ler e reconhecer fatos sérios e também coisas bonitas. E eu só posso agradecê-los por isso. Minha irmã mais próxima não tem essa culpa, mas tenho certeza que traz consigo esse “legado” também e espero que hoje, diante do que estamos vivendo, também possa estar fazendo disso um bom uso.

Depois, lembrei do meu pai e de como, acho que sem querer, ele me mostrou uma forma de discernir entre retórica e prática. De como, apesar de ser rotulado a sanguínea “direita” da casa, jamais propôs a injustiça, a falcatrua e a desonestidade. E quando os filhos “comunistas” tomaram sua casa ele os ouviu com respeito, não com desdém. Isso eu vi com meus próprios olhos e, desculpem meus irmãos se entendem diferente, ainda o vejo assim, e não o defendo nem o admiro mais nem nem menos por isso, é assim que eu o reconheço. Entre tantas outras memórias disponíveis, entretanto, pretendo guardar comigo – até o fim de meus dias – algumas lembranças mais infantis. Um jogo de bola, um banho na sanga, uma visita aos avós. Afinal, como sabiamente afirmou uma vez o poeta Fernando Pessoa, o melhor do mundo são as crianças. Inclusive as que fomos.

De minha mãe eu só preciso mencionar que, dela, eu recebi tudo. Só sua paciência de Jó eu ainda estou tentando assimilar. Não deixa de ser uma forma de sempre estrar aprendendo com ela, que nunca desferiu lições ao léu, mas me deixou exemplos concretos de abnegação e conduta, provavelmente sua própria herança.

Lembrei ainda de meus próprios filhos, que me fazem seu pai diariamente e, por isso mesmo, uma pessoa mais realizada e feliz.

Minha família é assim mesmo. No domingo, às vezes brigávamos e às vezes brigamos… Nunca fomos enfadonhamente felizes nem profundamente dostoievskianos. Gosto disso, apesar de qualquer dissabor. Não escrevemos uma história petrificada, mas nos influenciamos dinamicamente por ela. E a vivemos. Sei que há mais felizes e também mais tristes, mas eu garanto que, sem dúvida nenhuma, é a melhor do mundo.

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