Geraldino, ou um pouco de autobiografia

sao_francisco

Seu nome era Geraldino. Sua salinha ficava quase no corredor da saída do imenso colégio dos padres, onde fui estudar mais ou menos com oito anos de idade, acompanhando meus irmãos mais velhos, que foram ali fazer o que hoje se chama de ensino médio. Nosso pai pensava que ali teriam melhor estudo e melhores condições de prestar o vestibular do que se ficássemos na escola pública. E isso era só em parte verdade, porque o interesse no estudo deve estar mais no próprio filho do que no pai, e isso ele também sabia bem, por sua própria experiência. Não obstante, jamais o ouvi reclamar de saldar mês a mês a mensalidade dos filhos, às vezes com um custo que só nós mesmo sabemos. Acho que meus irmãos já haviam terminado seus três anos finais de instrução e tinham ido estudar fora quando Geraldino chegou ao colégio, vindo de um seminário de outra cidade do estado.

Ele dava aulas de Religião e sempre o fazia acompanhando de um violão. Em plena década de setenta, ele cantava letras que falavam de solidariedade, pobreza e esperança. Na sua salinha havia dúzias de discos de vinil dentre os quais ele escolhia as músicas que eram tocadas no pátio da escola, na hora do recreio. Por insistência dos alunos e sobretudo por respeitá-los, muitas vezes ele os poupava das canções que cantava ele próprio e sintonizava rádios FM de outras cidades, como Santa Maria ou Pelotas. Em Bagé, naquela época, não havia ainda estações FM. Então o que se ouvia era o rock estrangeiro, com o qual ele também parecia simpatizar.

Geraldino não parecia um padre, mas também não parecia com os outros homens da região, sempre muito espaçosos e barulhentos. Ele era quieto e humilde, mas quando cantava olhava direto nos olhos de todos os seus ouvintes, mesmo que sob a letra de canções claramente subversivas, é o termo empregado à epoca, e olhares pouco amistosos. Algumas vezes entrei naquela sua salinha e vasculhei seus discos, desde então tinha bastante curiosidade musical, o que tento conservar apesar do imperativo das telas de todos os tamanhos. Ali encontrei, entre sua coleção, os discos do Pe. Zezinho e uma antiga coleção de música brasileira, eram coletâneas intituladas por “A arte de…” que dedicava um disco duplo a cada autor/intérprete. Como se vê, Geraldino era eclético. Apesar disso, sua especialidade mesmo era cantar a Oração de São Francisco, à maneira de louvação, e todo mundo no colégio cantava com ele.

Hoje pela manhã estive com meus filhos em sua nova escola. Assim como eu, vieram da escola pública onde por mim estariam ainda hoje, não fosse a negligência com que se tratou a educação de minha filha, que tem também apenas oito anos de idade. Seu irmão veio a reboque, que é como se diz em Bagé, ou de carona, por uma questão meramente logística, porque estávamos bem satisfeitos com o trabalho que vinha sendo feito com sua turma, apesar de ele ser sempre considerado um caso especial, em razão da sua deficiência intelectual. Essa mudança, portanto, nada tem a ver com ele. Como se trata de uma escola católica – como é a grande maioria das escolas particulares, sabia que enfrentaria pela frente alguma cantoria religiosa.

Dito e feito. Logo surgiu entre os professores um sujeito ainda jovem com um violão na mão e cantando também à moda de louvação. Embora me saiba ateu desde a infância, não sou um ateu implicante, apenas descreio porque minha razão não permite aceitar verdades cabais a respeito da existência ou não de Deus e outros dogmas daí derivados. Prefiro a dúvida, com todo o desconforto que ela me causa. Essa escola nova de meus filhos eu já sabia que pertencia a uma congregação franciscana, mas ouvir novamente a Oração de São Francisco no pátio de uma escola lotado de crianças funcionou como uma catapulta no tempo, ainda mais porque depois pude constatar que aquele cantor de canções religiosas era muito carinhoso e amistoso com as crianças, e me lembrou imediatamente do Geraldino, que sempre tinha um olhar especial para cada pessoa, fosse criança ou adulto…

Bem, assim como meu pai há muitos anos atrás, estou ciente dos custos desta nova escola. Diante da dificuldade em encontrar uma com boa vontade para “incluir” uma criança com deficiência e “necessidades educativas especiais”, sua atitude para com minha família foi balsâmica, capaz mesmo de nos fazer esquecer as más experiências que tivemos nessa busca. Talvez seja ainda cedo para pensar se o projeto educacional como um todo dará certo ou não para os meus dois filhos e permito inclusive que eles embebam-se até mesmo do ensino religioso oferecido – com o qual poderia ter alguma discordância. Penso que a crença ou a descrença é uma característica absolutamente pessoal e que sua construção ou desconstrução faz parte de uma trajetória que se faz a sós. Nunca pretendi interferir nisso. Só posso dizer que não consigo escutar a Oração de São Francisco (Fazei que eu procure mais/consolar, que ser consolado;/compreender, que ser compreendido;/amar, que ser amado/pois é dando que se recebe/é perdoando que se é perdoado/….) sem que trema por dentro e que, no momento, me sinto feliz por meus filhos poderem a ouvir como se da voz do Geraldino do meu passado e – talvez – compreender o profundo amor de Francisco por seus semelhantes e a responsabilidade total pelas próprias opções, mensagem que está para além de qualquer doutrina ou religião.

Ouça abaixo Maria Bethânia cantando a Oração de São Francisco.

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