A arte de ser não sendo

Tavares e copo

“Sou, mas quem não é?”. Essa era a indagação convidativa que o personagem Tavares, criado pelo humorista Chico Anysio, costumava fazer – olhando direto ao câmera – logo após descortinar alguma de suas canalhices ou malfadadas aventuras amorosas, do alto de seu topete e de dentro do seu terno amarfanhado. Na falta de uma obra filosófica de maior vulto, o Brasil pode realmente orgulhar-se de uma proposição ética deste porte ter impregnado o senso comum por tanto tempo na história recente, mesmo que “midiaticamente”, ao tempo que a atualidade é cada vez mais recheada de humor ofensivo e piadas prontas com quase nenhum sentido provocativo. Tempos explícitos estes. Ironicamente, é uma época em que não se lida bem com ironias. Mais do que nunca é preciso ser claro e objetivo. Trata-se de um país austero, em desenvolvimento. A China da América do Sul ou talvez, como certa vez afirmou o hoje senador Fernando Collor de Mello, o rabo do cachorro do primeiro mundo ao invés do indesejável focinho do porco do terceiro.

Um país sério requer cidadãos sérios, mas por estas paragens uma coisa não tem necessariamente algo a ver com a outra. A cidadania daqui, descrita com pormenores no clássico de Lima Barreto, Os Bruzundangas, sequer requer um update significativo se transportada para o séc. XXI. Ainda perambulam por aí a nobreza oficial e suboficial descrita no folhetinesco romance, assim como a plebe e outros tipos, que não podem nunca faltar. Em seu tempo, Lima Barreto fez as vezes de humorista também, fosse porque a realidade é mesmo uma coisa risível ou porque talvez não haja modo mais eficaz de suportá-la. Na vida prática, entretanto, sua vida não foi feita de risos nem de comédia. Dado por insano e possivelmente alcoolista, morreu precocemente, aos 41 anos. Um gênio interrompido. Em quase um século, pouco se recobrou da lucidez do escritor carioca, com a qual nem mesmo os mais arrojados modernistas da geração de 20 se identificaram efetivamente. Talvez a literatura de Lima Barreto tenha sido, à época, séria demais para o Brasil e só agora se possa perceber isso.

Parecer ser, a bem da verdade, sempre foi mais importante do que “ser”. A história tem sido pródiga em exemplos de falsidades, desde políticos nanicos que queriam parecer gigantes, medíocres que gostariam de passar-se por gênios e falastrões de outras áreas, dos mais diversos ramos. Não é o caso aqui de citar nomes, mas apenas de convocar a memória particular do leitor. Sem dúvida, qualquer um guarda registros ativos deste comportamento tão tipicamente universal e atemporal. Afinal, ser ou não ser, tirando Shakespeare e a filosofia existencialista, importa bem pouco na época do apogeu das redes sociais, na qual identidades são inventadas, ilustradas e compartilhadas. Mas identidades servem para isso mesmo, para o uso. Trata-se da forma pela qual cada um se apresenta, mas não necessariamente pela qual é reconhecido. Daí as pessoas se enganarem tanto ou, como quis provar Eduardo Gianetti em Auto-engano, se auto-enganarem. Os recursos para tanto são tão abundantes que é cada vez mesmo mais impossível resistir a si mesmo. É o triunfo da egocracia sobre a democracia, cuja religião não poderia ser outra que não uma combinação de consumismo desenfreado e exibicionismo.

O debate de ideias, nessa perspectiva, é sempre uma coisa inviável e indesejável. O que prepondera hoje são discursos particulares e narrativos, sobre os quais não cabem indagações. É uma forma confortável de solidão mantida por canais particulares (o meu twitter, o seu facebook, o blog dele) de informação nos quais a pessoa é ao mesmo tempo personagem, autor e testemunha. O outro é uma categoria defasada que a própria psicanálise custa em manter de pé. O outro é um tipo de sombra, um leitor, um intérprete que lida com informações tão imprecisas quanto líquidas (ou até vaporosas) e que pode ser tanto um absoluto desconhecido quanto um familiar com o qual não se convive. O mútuo desconhecimento garante uma certa indiferença e uma empatia precária. O reconhecimento é desvirtuado e sempre aponta numa supervalorização da diferença. Identidade é uma coisa que se ofereça e que se obtenha, mas quando se trata de reconhecimento e aceitação tudo se complica.

Por essas e outras é que o bordão “Sou, mas quem não é?” se encontra há muito superado e fazem tanto sucesso atualmente as comédias stand-up. Afinal, o que há ali que não sejam monólogos pretensamente engraçados onde cada um e todos riem a sós? Aliás, quem em sã consciência aceitaria um convite desses, como o de Chico Anysio? Querer parecer com alguém que não se reconhece é um tipo de paradoxo inextrincável. É algo inviável. Semelhança se busca com ícones, com os modelos, os arquétipos reeditados. O discurso da tolerância e da diferença, por outro lado, é procurado com impressionante sofreguidão, mesmo que se obtenha com isso muita complacência e quase nenhum respeito autêntico. Significa que o respeito apenas é devido ao se aderir a uma identidade comum, mesmo que daí não resulte efeito social algum. Revive-se o tribalismo de sempre, agora talvez como e-tribalismo. E o mais incrível de tudo é que, com toda essa horizontalidade, a estrutura de castas mantém-se intacta. Com o cimento do imobilismo social, a nação conta com cidadãos hiperconectados, mas órfãos e desiguais como sempre. O triste é que as tentativas atuais de tornar essa época cômica, como logrou Lima Barreto há quase um século, tornaram-se um espetáculo repetitivo borrado pelas cores da violência social. O Tavares, de Chico Anysio, dizia saber quem era e convidava seu interlocutor a assumir-se autenticamente. Definitivamente, não se fazem mais Tavares nem Silvas nem Souzas e nem etcéteras como antigamente.

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