Entre os muros, na escola

Crianças esculpidas no muro pulam o próprio muro

Antes de qualquer outra coisa o título acima não está errado. Não irei falar aqui (atrasadamente) do premiado filme francês “Entre os muros da escola”, mas de uma situação muito real acontecida recentemente aqui mesmo no Brasil, na cidade de Belo Horizonte, revelada numa reportagem do Jornal da Record, disponível neste link: http://noticias.r7.com/videos/direcao-de-escola-em-bh-quer-separar-com-muro-alunos-com-deficiencia-de-outros-estudantes/idmedia/51313f686b710e72f1d31c5f.html

Trata-se de uma iniciativa dos “gestores” da escola em erguer um muro dividindo seu pátio interno para separar alunos com deficiência dos demais. Através das declarações das autoridades competentes pode-se saber que a escola, que no passado havia sido exclusivamente destinada às pessoas com deficiência, enfrenta alguns problemas de convivência. O muro, no caso, foi a solução encontrada para resolver o impasse.

Murar os pátios escolares e os espaços públicos não é exatamente uma novidade mundo afora, muito menos aqui. Sob o pretexto de conter pessoas supostamente incontroláveis ou apenas como edificação de um critério distintivo explícito entre pessoas, muros – queira-se ou não – são símbolos inequívocos do apartheid. Tampouco trata-se de uma novidade para as pessoas com deficiência, afinal por anos elas estiveram encerradas em pátios especiais e instituições filantrópicas. O espanto consiste em verificar-se que, em pleno séc. XXI, ainda se busque esse tipo de solução para a convivência entre os seres humanos, ainda mais em se tratando de crianças.

Muito provavelmente o gênio que bolou a ideia deve pensar consigo mesmo: como não pensei nisso antes? Diante de um problema, o melhor a fazer é liquidar com ele. Não parece verdade o fato de não se perceber um problema significar que ele não exista? Pois é, parece mentira que alguém ainda pense assim, mas não é.

Mas o que mais incomoda na situação é o fato de que a medida, adotada sob as tendas do “gerenciamento” e da “administração escolar”, seja debitada exatamente na conta de uma implausível preocupação com as pessoas com deficiência. É “para o bem” dessas pessoas, dirão outras, de cenho franzido. É claro que uma medida dessas foi gestada sem consulta alguma à comunidade escolar ou mesmo às leis vigentes sobre educação no país. Caso contrário isso não teria sido levado adiante, não é possível.

O fato é escandoloso sob muitos outros aspectos, mas nada que se compare à humilhação que se quer perpetrar sobre as pessoas com deficiência e sua famílias, como aponta uma das mães da entrevista. E, além disso, há tanta coisa para ser construída nas escolas do Brasil inteiro que não sejam muros.. Para que, afinal, gastar tempo, recursos públicos e energia com isso?

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