O déjà-vu da pipoca

“A igualdade é um ideal que se concretiza numa fila de cinema.”
Anônimo.

Ontem experimentei na própria pele o verdadeiro e inefável sentido da igualdade, o único possível entre todos os imagináveis, que pode ser vivido por qualquer um que ouse enfrentar uma fila de cinema, à tarde, em plenas férias de julho, acompanhado de seus filhos e de aparentemente todas as crianças e adolescentes da cidade. É uma experiência que eu recomendo e que é capaz de fazer você se sentir alguém tão comum quanto uma pipoca num sacolão de pipocas ou, como estou pensando, de experimentar por breves momentos uma experiência de comunismo real, que hoje só existiria na Pipocolândia. Desculpem a falta de originalidade do exemplo, mas é uma questão de impregnação sensorial, para que não faltem aqui alguns termos científicos, indispensáveis numa crônica de bom gosto.

Não é por ainda estar tentando decantar, com a ajuda inestimável desse maravilhoso legado do séc. XX, o analgésico em comprimido, a cefaleia que se abateu sobre minha pobre cabecinha desde aqueles momentos, mas eu cuido muito de tirar lições excepcionais de fatos absolutamente corriqueiros, como estar na fila do cinema, naquela situação. Faço isso para poder me certificar que eu mesmo crio meus déjà-vus e também que tenho força o suficiente para resistir ao inferno das minhas próprias decisões – o que, afinal, pode dar no mesmo. Ai das pessoas que não insistem nos seus erros: elas pensam que sabem o que estão perdendo…

Voltemos à Pipocolândia. Lá, como quero insistir, todos são iguais. A fila é a heterogeneidade mais uniforme que pode existir. É a cultuada diversidade humana em sua forma carnal e cabal. Lugar ideal onde um criança de seis anos de idade pode conversar naturalmente sobre os mesmos assuntos que seu avô, aposentado compulsório (que saudade da repartição, hein?), apontando as telas dos seus celulares, respirando a igualdade definitiva daquele paraiso democrático e outros odores derivados do milho mas, a essa altura, isso é definitivamente o que menos importa. O que importa é o dever cívico de não fugir à fila, como os mártires jamais fugiriam aos desígnios heroicos das revoluções.

Ah, as revoluções. Dizer que chegamos ao comunismo real sem necessidade de nenhuma delas! Eu só tenho certeza que uma começaria ali se aquele jovem com franja (isso é quase um pleonasmo inevitável) ousasse entrar na frente daquele tio, quero dizer, senhor. Vamos lá, pessoal, vamos evitar que cabeças rolem, vamos começar o murmurinho – segredo de todas as turbas – “Sim, é aquele ali, seu guarda, está tentando furar a fila!”. Só mesmo no comunismo se vigia e pune tanto as pessoas! Por isso que vou ao cinema nessas condições, em absoluta tranquilidade. E levo até a família.

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