A exclusão sustentável

Inclusive - direitos humanos: o globo terrestre e ícones representando pessoas de várias cores.

A vida dá lições, o que há é pouca gente disposta a recebê-las. Parece frase de para choque de caminhão, não é mesmo? Mas não, não é. As lições da vida não se dão em salas de aula, poucas estão nos livros e, mesmo assim, pululando diante dos nossos olhos, as rejeitamos, seja por que às vezes não nos interessam ou porque nos sentimos inertes e impotentes diante da realidade dos outros.

Há poucos dias recebi uma boa lição dessas, um verdadeiro sopapo, e não era exatamente da “vida”, mas do sistema financeiro, talvez um de seus mais fervorosos representantes institucionais, da vida como a vivemos nestes dias. Era um anúncio de crédito, o tal crédito que dizem ser capaz de salvar ou afundar a economia das nações. A mensagem era clara, representada em percentuais incapazes de gerar dúvida. O panfleto, impresso em bom papel, anunciava o que parece óbvio: oferecia desconto no crédito para correntistas que mantinham poupança junto ao banco. Quanto mais dinheiro o indivíduo mantivesse junto ao banco, menor taxa seria cobrada na concessão de financiamento. Parece evidente o funcionamento dessa lógica. Significa castigar com altos juros justamente aqueles que mais necessitam de crédito.

Nem vem ao mérito da questão o fato daquele ser um banco estatal que, por definição, deveria ter como primeiro compromisso desonerar o cidadão comum de práticas abusivas. Mas não é possível pensar em tamanha tolice, trata-se de um banco como todos os outros, que está competindo com aqueles privados no atendimento às pessoas e empresas, inclusive as mais simples dentre elas.

Aqueles que têm a sorte de não precisar viver na própria pele as lições que o sistema financeiro pode proporcionar, ou as demais disponíveis, talvez não dimensionem bem o tipo de situação a que os mais pobres se submetem, oficialmente, em nosso país. É uma exclusão sistemática capaz de corromper os mais nobres caracteres, capaz de marginalizar camadas inteiras da população, submetê-las a uma extorsão privilegiada para a qual são escolhidos pelo critério da miserabilidade, miserabilizando no fim das contas a nação inteira, em função de um sistema que busca garantir privilégios justamente para quem deles pode prescindir.

É por isso que a exclusão social não aceita remendos, mas pede soluções concretas e, se possível, definitivas. Não se trata de bolar um novo plano econômico, mas de engendrar uma sociedade que não se sustente mais no escárnio social e na distinção econômica, como a que temos hoje, já que por esses dias ouviremos muito o termo sustentabilidade. Trata-se de impedir que pessoas de carne e osso, iguais a mim, iguais a você, continuem sendo submetidas a um critério moral e real de subalternização, de desvalorização, ou que isso seja dado apenas como uma trivialidade com a qual devemos nos acostumar.

Fonte: O autor/Inclusive

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