Um pesadelo

A realidade é tão sem graça que provavelmente ninguém pagaria por ela.

Se ela tivesse um bom preço, talvez alguns até pensassem um pouco mais a respeito.

Não é o caso, porque a realidade não tem custo ou é impagável.

É dura como pão dormido ou mole como algodão molhado. É desinteressante até mesmo num segundo exame.

Há qualquer coisa bem mais bela com que valha a pena perder um pouco de tempo. Uma imagem. A música. O som da água ou do vento ou a memória.

Quer procurá-la? Ela partiu debaixo das rodas do carro do pipoqueiro, mas ficou na pegada dos cães que há pouco pisaram aquela poça d’água, evaporando.

A realidade não deixa sombra por onde passa, nem dúvida ou certezas.

É algo que se pegue, mas que não se aponte. Se alguém decide falar dela, desaparece. Demonstrada em números, oculta-se, impronunciável.

É uma das palavras perdidas dos idiomas antigos que não chegaram até o tempo presente. Por isso o que há sobre ela é um esboço incompleto que as lembranças não alcançam. Uma definição imprecisa que mais parece um sonho.

Em um sonho, alguém sonha com ela. Não é um herói ou um deus, é um homem como todos os que acordaram na manhã de hoje. Seus olhos aguardam no espelho, mas ao acordar ele lembra apenas da primeira sílaba e nem lembra dos olhos que estavam lá, pendurados como óculos. É um verdadeiro espanto, percebe, um pesadelo.

Então ele sai para a rua decidido a encontrá-la. Ele pagará qualquer preço e, se preciso, roubará. Aquilo que ele sentiu como real e que restou somente em lembrança é só o que ele deseja. Ele não pensa em mais nada.

Por que não vai ao cinema?

Ou dar farelo aos pássaros?

Ou à zona do meretrício?

A perseguição continua. O homem e a realidade.

Um duvida do outro e um depende do outro.

Ambos estão para si mesmos como o universo para os outros universos.

Há um modo de acabar com ela, ele sabe. Há vários.

Se outra noite chegar, ele resistirá?

As estrelas não são reais. Elas também já morreram. São um excesso de luz vagando no tempo impreciso e no espaço obscuro.

Alguém pode lhe dizer isso? Que não vale pagar o preço?

Antes que pense melhor, já está decidido.

Ali vai ele, entre os outros. Há uns muito grandes e outros pequenos. Homens, mulheres e crianças.

Logo não será possível distingui-lo dos demais. Nem ele nem o rastro do cão.

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