Como você vai viver sem ser um exemplo de vida?

A capa do superman pendurada num cabide.

Inclusive

A pessoa com deficiência que não se supera é um…

Um fiasco? Um fracasso? Um traste inútil? Um loser, no melhor sentido made in USA do termo? Mas por que não seria apenas um ser humano como outro qualquer, enquadrado pelas situações normais da vida, lutando sem ter de ganhar, mas apenas por ter de lutar?

Perguntas respondendo perguntas são, para mim, um hábito difícil de superar, então tento tirar alguma vantagem disso, nem que seja para não me dar por satisfeito com respostas prontas ou fáceis, mesmo que isso não me traga nenhum benefício, pelo contrário, me deixe num estado de dúvida permanente. As do parágrafo acima nasceram em minha mente após a ampla difusão, na mídia nacional, da notícia de um jovem que nasceu com a síndrome de Down e comemorava sua aprovação no vestibular de uma universidade pública federal, no estado de Goiás.

Deveria ficar feliz, esfuziante, pelo feito do rapaz. Afinal, diante de tanto descrédito quanto às pessoas com deficiência intelectual e de tantas pedras e outras coisas no caminho, trata-se inegavelmente de um verdadeiro herói. Ou não? Será? E se seu feito for apenas decorrência de uma sequência de situações favoráveis, no que diz respeito às oportunidades, sejam elas de ordem particular, divinas ou socioculturais? Em que medida sua família tem parte em seu sucesso? Seus professores, sua comunidade escolar? Registre-se que, mesmo com todos esses questionamentos, estou muito feliz por ele, por sua família, seus professores, comunidade, etc. Ficarmos felizes importa muito, mas a vida também tem suas infelicidades. É preciso olhar para elas também, até para não confundirmos a felicidade autêntica com a bobeira pura e simples.

A situação do exemplo acima não é emblemática nem única. A todo o momento lê-se, até nos mais sérios meios ditos “inclusivos”, aqueles que lutam ferrenhamente contra estereótipos, preconceitos e todo o eixo do mal, uma manchete dando conta da tal superação. Palavra que traz o heroísmo dentro de si e que transformou-se, nos últimos tempos, num tipo de obrigatoriedade, caso você seja uma pessoa com deficiência e não queira sentir-se um derrotado em vida.

Você que é cadeirante e ainda não fez rapel ou surf, saiba que seu potencial de felicidade está seriamente ameaçado. Você que tem síndrome de Down e não está dando shows, seja nos palcos da vida, nas noites de autógrafos ou nos vestibulares, você precisa fazer algo. Você precisa imediatamente de aulas expressas de alguma coisa, nem que seja pela madrugada, até você ter direito de ser alguém por si próprio, sem andar pendurado em ninguém. Você que é cego ou surdo, dê logo um jeito de sobressair-se em algo, a despeito de sua deficiência. Ai de você, pessoa com deficiência, que pretenda ser apenas um cidadão comum. Como você vai conseguir viver sem ser um exemplo de vida?

Você, leitor, que chegou até esse ponto, deve estar pensando que eu estou super-preocupado com essas coisas. Não, não, não estou. Verdade verdadeira que não. Não acho que nenhum de vocês, meus amigos com deficiência, necessitem mesmo desse super-espanto que as trilhas da superação oferecem àqueles que topam percorrê-las. Nem de super-pena, tampouco. Nem de nada que seja super. Não desejo que vocês abarrotem-se de júbilo pelo fracasso da sociedade em reconhecê-los humanos como são, despejando uma carga de compensação que muitas vezes sequer vocês pretendem ou desejam. Isso é uma super falta de respeito que vocês não deveriam aceitar a menos que… Bem, a menos que não se importem de secularizar essa condição que na verdade não deveria chamar-se de “super”, mas de “sub”, por duro que seja pensar nesses termos.

Então quer dizer que estou dizendo que um cadeirante não deve fazer rapel, uma pessoa com síndrome de Down não esforçar-se nos estudos e assim por diante? Claro que não! Deve fazer se desejar, mas não para satisfazer a ninguém. Não para atestar que precisa ser menos deficiente para ser mais humano, ou palatavelmente humano. A ideia de estar submetido a esses valores é uma armadilha atroz para quem busca uma sociedade verdadeiramente inclusiva. É um jogo de espelhos que se sustenta socialmente na necessidade de negar o reconhecimento legítimo à diferença, com todos os entraves que isso possa trazer ao mundo e suas estruturas oxidadas. Aderindo a esse modelo de pensamento, o que se obtém é a chancela de que a exclusão se resolve a sós, com dinheiro e “superação” a não poder mais. Pode começar a esfalfar-se. Só depende de você, como dizia a propaganda de cigarros.

Já há muito tempo as pessoas com deficiência vem lutando por inclusão e dignidade, o que é justíssimo e absolutamente necessário. É chegado o momento, talvez, de lutar também por liberdade. De liberdade, entre outras coisas, certamente. Mas todas as outras coisas sem liberdade são sub-coisas, não se pode perder isso de mente. Da liberdade semântica, inclusive. A vida não é carnaval, deixemos a fantasia de super-herói guardada para os dias de folia.

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