Dina Di. Como não noticiar a morte de uma rainha.

Nessa história uma mulher me servirá de exemplo. (Assim começa a letra de “Confidências de uma presidiária”)

A rainha está morta. Está morta, mas a dúvida persiste: como noticiar a morte de uma rainha? Pela lógica, seria suficiente reservar o destaque dos jornais, a manchete dos portais ou, da forma atualmente mais usual, disparar uma torrente de tweets na internet. Mas, como levar isso a efeito se a rainha é uma brasileira e tem como nome Viviane Lopes Matias? Como, em se tratando de uma rainha que nasceu numa família brasileira, viveu uma vida de brasileira e morreu por complicações no parto de um filho, mesma causa que acaba anualmente com a vida de milhares de mulheres brasileiras?

A essa altura, é conveniente fazer outra pergunta: mas afinal, de quem se trata? Que rainha pode ter tido uma vida descrita dessa forma e, mesmo rainha, mesmo depois de morta, continuar incógnita, transitando entre os nomes dos jornais em linhas escassas, junto aos “meros mortais”? Viviane era mais conhecida pelo seu nome de cantora, Dina Di, e provavelmente nunca tenha feito questão de apartar-se do povo, das pessoas comuns, e isso pode explicar em parte o quase nenhum destaque da notícia de sua morte, no último 19 de março.

Apesar de ter habitado nos útimos 20 anos, com todo o direito, a alta cúpula da música brasileira contemporânea, Dina Di é muito mais conhecida como “guerreira” do que como “rainha”. É claro, onde estão os reis, mesmo simbolicamente? No trono, longe das dores do povo, a quem conhecem por mensageiros, cercados por bajuladores e traidores. Dina Di sempre esteve à vontade na linha de frente, empunhando o ritmo e a poesia (rythm and poetry) como armas de quem combate de peito aberto as agruras da vida e, por isso mesmo, as conhece do princípio ao fim.

Pensando bem, que rainha diria em alto e bom tom que “tem que ter base e pó pro seu olhar de cansaço”?

Enquanto viveu, Dina Di nunca esteve no trono, com exceção ao ganhar em 2009 o Prêmio Hutúz, iniciativa de Celso Athayde e da Central Única das Favelas, na categoria de grupo feminino da década, que levou junto com o Visão de Rua. Sua voz, como ela mesma declarou, encontrava a paz quando podia confortar presidiárias, a quem dirigiu sua primeira “canção” de trabalho, “Confidências de uma presidiária”; quando abraçava as mães que perdem seus filhos precocemente pelo vício, pelo tráfico e pela violência habitual de quem habita as periferias de São Paulo, de Campinas, sua cidade, ou de qualquer outro lugar, porque, como diz a rima, “periferia continua sendo periferia em qualquer lugar”. A voz de Dina Di, que tem o perfeito sotaque brasileiro, jamais acariciou a hipocrisia de uma sociedade cindida entre possuidores e excluídos, mas rasgou noites e noites em bailes de rap e tocou muitos corações, fossem femininos ou não.

Em algum das centenas de blogs que registraram o merecido destaque pela sua morte, há um depoimento que demonstra a força de sua presença: “por causa da Dina Di eu não abandonei minha família e não descuidei dos meus filhos.” É o sinal definitivo de que o recado chegou ao ouvido de quem precisava ouvir e que a mensagem não foi meramente jogada aos quatro ventos.

Como lembra GOG, ou mais simplesmente Genival Oliveira Gonçalves, seu parceiro e amigo, voz seminal do rap brasileiro e militante desde antes do nascimento do hip-hop, em artigo publicado em seu site, lembra a fala de outro parceiro do rap, Gato Preto: “dê-me as rosas ainda em vida, porque morto não sentirei o seu perfume.” E a guerreira Dina Di soube espalhar como ninguém rosas (e suas dores) por toda sua vida e trajetória. Não viveu por suas dores e feridas, mas jamais deixou de respeitá-las.

Os “súditos” da rainha Dina Di são os habitantes urbanos que se embalam como podem nessa vida onde o que resta é, como define a gíria, “jogar-se”. Como eles, Dina Di também se jogou. Antes disso, a vida jogou-a na própria vida. Sua biografia se parece à biografia de milhares de mulheres que vivem uma vida muito real, com a diferença de que decidiu escrevê-la a partir da sua vontade de viver. Quem conhece ou ainda venha a dedicar-se a conhecer o trabalho de Dina Di e de tantos outros compositores do rap nacional vai perceber que ali há, além de uma construção muitas vezes primorosa, uma narrativa construída totalmente através de suas vidas, de sua verdadeira identidade.

Em 2002, a jornalista Eliane Brum, de Época, reportou a insurgência feminina na cena do rap nacional e Dina Di foi seu destaque. Ali, dá para saber, entre outras coisas, que ela tinha consciência perfeita de sua vida e de suas possibilidades: “uma mina que não tem emprego, nem estudo, nem chance” e que muitas vezes fazia e cantava rap para mostrar que estava viva, que não esquecessem sua existência.

A “família real” de Dina Di não é composta de pessoas reunidas por um sobrenome pomposo, mas por pessoas que se ajudaram, deram as mãos, samples e scracths em muitos momentos, em faixas produzidas em estúdios muitas vezes caseiros. Casada, deixa dois filhos e um marido, a quem dedicou o CD “A Noiva de Thock”. Em sua biografia, o pai faleceu precocemente e a mãe foi assassinada em casa. Passou muitas vezes pela FEBEM e estudou numa escola que não confere diplomas, mas sentenças. Sobreviveu não por heroísmo, mas por ser da família brasileira e que muito bem Rappin Hood lembra que por essas e muitas outras “o brasileiro é aquele que não desiste nuuuunca”.

Dina Di também não desistiu, tentou viver de todas as formas mas acabou por confirmar a estatística que denunciou em suas próprias composições. Mulheres morrendo em maternidades, em seus corredores ou longe deles, segundo dados da UNICEF e divulgados pela BBC, atingem as raias da indecência. Nos países subdesenvolvidos, as chances de não sobreviver ao procedimento do parto, por complicações, é 300 vezes maior que nos países desenvolvidos. Essa é o mesmo tipo de indecência que exclui crianças e adolescentes, de forma sistemática, do ensino básico e os colocam na rua, no subemprego e na marginalidade antes do fim do ensino médio. Em alguma faixa de seus discos, ela diz: “terceira série foi o suficiente”. É desse jeito. Mesmo assim Dina Di será sempre autora de uma epopeia em versos. Impressionante? Impressionante mesmo é ter mantido a vontade e convicção de traduzir em ritmo e poesia uma vida vivida nessas condições.

Numa de suas letras, talvez a mais marcante delas, “Marcas da adolescência”, ela confessa: “eu quero educar meu filho e quem sabe até paz”. Um desejo que revela o sonho de viver uma vida simples mas, ficar por aí, mesmo que pareça simples, também comporta grandes dificuldades, não se resolve em um passe de mágica. Não no Brasil ou quando se está abaixo da linha da pobreza. Quem explica isso é uma de suas fontes e referências, os Racionais MCs, que na letra de “Negro drama” sentencia que “para quem vive na guerra, a paz nunca existiu”. Dina Di, ou Viviane, comprovou isso até o último de seus dias.

Manuel Bandeira disse, lá pelas tantas de sua vida, que fazia versos como quem morre. Dina Di, a guerreira, não a rainha, fazia versos como quem vive. Fazia versos como vivia. Por isso é custoso aceitar sua partida. Que vá assim, nesse tipo de circunstância. Dina Di, a rainha, não a guerreira, tem dois fihos que viverão sob o seu exemplo e uma multidão anônima que ainda lhe permanecerá fiel por muito e muito tempo. Este é o grande poder dos poetas, não dos reis e daqueles que assim se autoproclamam. Isso mostra que guerreiros também deixam legado e geram descendência. Isso, para muitas pessoas, é razão de alívio.

 

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