Diversidade, mas por inteiro

Capa do livro “Tudo Bem Ser Diferente”, de Todd Parr.

A divulgação de campanha promovida pela ONU em parceria com setores da sociedade civil, lançada no dia 16 de novembro, com o título “Igual a você” foi proposta para falar à sociedade de igualdade e direitos humanos. De discriminação e preconceitos. A iniciativa, proposta pela UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), UNIFEM Brasil e Cone Sul (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher), UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), com apoio do UNIC Rio (Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil) chega no fim de ano e depois de um ano em que se divulgou amplamente à sociedade que os índices de preconceito na escola chegam a números alarmantes, confirmando nossa era como a era do bullying e onde todas as tentativas de combater a intolerância, qualquer que seja ela, devem ganhar força na vida prática e presença significativa na mídia.

Os índices de que falo referem-se à pesquisa encomendada pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) à FIPE/USP (Fundação Instituto Pesquisas Econômicas) , intitulada “Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar” na qual foram divulgados percentuais de preconceito que ultrapassariam os 99%, dentro das comunidades escolares de todo o Brasil. Em que pese estes dados referirem-se a grupos heterogêneos, muitos destes grupos não estão representados ou mesmo sugeridos na campanha proposta pelos organismos das Nações Unidas. É o caso das pessoas com deficiência que, a partir deste ano, com a regulamentação da política de educação especial na perspectiva inclusiva, passam a ingressar de modo mais efetivo nas escola regulares, no que seria muito importante que fossem consideradas como alvos do preconceito, fato que pesquisas como a da FIPE comprovam e que muitas famílias Brasil afora sentem na própria pele.

Além das pessoas com deficiência, não seria difícil imaginar outros grupos excluídos deixados de fora também da campanha. Os indígenas, que lutam pelo respeito e pelo direito a sua história e encontram falta de lobby no Congresso para levar adiante suas demandas centenares, ou milenares. Os idosos, que precisam enfrentar o governo e a oposição ao mesmo tempo para efetivar seu direito à aposentadoria digna. As crianças, que são vitrine preferencial de grande parte da ação social praticada no Brasil mas que são conduzidas cada vez mais sem pudor ao mundo do consumo e da precocidade. Os ciganos não poderiam ficar de fora desta lista. Os migrantes. Os presidiários. Os pobres. Além destes, os negros, as mulheres, gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais que já participam do lançamento desta campanha. Mas ninguém deveria ficar de fora. Talvez, unindo a todos, fosse enfim evidente que os de fora possam ser até mais que os de dentro.

Mas na exclusão social não cabe um ranking, como tantos que somos levados a conhecer e são divulgados com destaque em portais de conteúdo e veículos informativos. Seria um desejo lúgubre o de dar a ver uma disputa deste tipo, embora até mesmo através da pesquisa da FIPE seja possível antever alguns dados indicativos. O que não podemos aceitar é que, ao propor-se a defesa e promoção dos direitos humanos, a exclusão também seja praticada. Se os organismos das Nações Unidas perceberem a necessidade de retratar a sociedade em seu mais amplo e fiel recorte e as próximas campanhas considerarem a diversidade humana em sua maior dimensão possível então finalmente estaremos diante da lição que o recém falecido antropólogo francês Claude Lévi-Strauss nos deixou a convite da UNESCO em fins da II Guerra Mundial: a de que não há hierarquia na diversidade e representá-la só faz sentido se por inteiro.

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