Duerme, negrita

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Na história, há uma América Latina antes de Colombo e outra depois dele. Antes de Bolivar e depois de Bolivar. Antes de Guevara e depois de que “El León” se partió. Muitos outros personagens dividiram, com maior ou menor sombra, a história do continente entre o tempo anterior, seu próprio tempo e o tempo posterior a sua presença. Também na minha vida, assim como está prestes a perceber também grande parte do continente americano, foi “La Negra” quem separou o tempo em que apenas imaginávamos a cultura que habita nossa geografia e no que a percebemos em sua maior expressão, sensibilidade e, por que não dizer, força?

Força – o fuerza! – é o que gostaria de dizer-lhe ao pé do ouvido neste momento em que leio as notícias sobre seu momento derradeiro. Força foi o recado que ouvi desde quando meus irmãos mais velhos trouxeram para dentro de nossa casa, ainda na década de 70, aqueles álbuns onde vinham surrados os discos de vinil, hoje praticamente extintos.

Naquela época, quando os discos eram usados como bíblias de pessoas muito crentes, eu achava que o recado de Mercedes Sosa era destinado a mim e que a mim competia compreender o seu mosaico de zambas (e que belas zambas sabem criar os argentinos), milongas, chacareras, tangos, vidalas e tonadas. Hoje percebo que, na verdade, tratava-se de um recado enviado a milhões de pessoas que procuravam viver suas vidas num dos períodos mais cruciais da história latino-americana, quando as ditaduras militares eram a regra no continente.

Engana-se quem pensa que a obra mais importante de Mercedes Sosa é apenas arte de sua garganta portentosa. Seu último trabalho, o álbum duplo Cantora e suas 35 faixas, quando grande parte dos artistas mal conseguem gravar as 12 faixas mínimas necessárias para a confecção de um CD, demonstram o colosso de sua expressão artística, sua capacidade de reunir em torno de si compositores de diferentes gêneros musicais e, principalmente, sua generosidade cultural.

Em sua trajetória praticamente não há altos e baixos, talvez mérito de não ter sentido nunca necessidade alguma de comprovar-se “nova”, “inédita”. Sua fidelidade ao seu país é tão plena que isso por si só levou-a a consolidar uma carreira universal, baseada nas músicas cantaroladas en los barrios, en la pampa y en el mar, como diz a letra de “Los Hermanos” de Atahualpa Yupanqui, uma das tantas imortalizadas em sua voz. Outros procurem uma obra fugaz, sem temperamento, a breve luz trazida por uma celebridade ocasional. Sinto muito, mas a obra de “La Negra” pertence a outro estatuto, um que pertence ao estatuto da própria história da América Latina. Como cantou-me quando criança, deixe que lhe cante um pouco agora. Duerme, negrita.

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