Uma história de bailarinas nesse Natal

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Para Isabel e Rodrigo, meus filhos amados

Às vezes a emoção atropela. Hoje fomos assistir a apresentação de fim-de-ano da escola de dança da minha filha de 4 anos. Quanta coragem a sua em se mostrar num palco diante de centenas de pessoas.. Sua criancice não comporta o medo nem a timidez. Mais do que torcer para que não errasse um dos passos ensaiados, torci silenciosamente para que o futuro jamais pudesse a impregnar com medo ou vergonha. Mas isso, na vida, não acontece ao acaso. sapatilhas1Esse é o tipo de sentimento que, ou sedimentamos, ou pulverizamos diariamente, não é algo que se dê num passe de mágica e ou se realize exclusivamente através das melhores intenções. A emoção de que falo, entretanto, não se deve a presença de minha filha naquele palco, mas numa série de pensamentos que toda aquela apresentação me causou.

Na primeira coreografia apresentada naquele início de noite, que era um aquecimento coletivo, um grupo muito grande de dançarinos iniciava seus movimentos. Um grupo totalmente heterogêneo, sem um padrão de corpo mas em perfeita sincronia. Irmanavam-se ali os altos, baixos, gordos, magros, jovens, velhos e inclusive uma moça com síndrome de Down. Na sequência de movimentos, muitas vezes era ela quem vinha a ficar bem diante da platéia. E sua atuação era perfeita, natural. Ali, ela exalava sua liberdade de ação e movimento, desimpregnada daquele mesmo medo e daquela mesma vergonha dos quais eu falava há pouco. Também havia entre os dançarinos uma jovem com ataxia, como vim a saber mais tarde. Essa escola de dança nós a conhecemos na vizinhança, não a procuramos por ter um caráter inclusivo ou algo assim. Mas ficamos muito felizes ao conhecer os alunos com deficiência que também a frequentavam, em total igualdade de condições com os outros alunos. E a Isabel não nasceu com a síndrome de Down, quem nasceu foi o Rodrigo, então nossa única preocupação foi a de que ela pudesse experimentar a dança de um modo lúdico, infantil. Nessa escola, que é de dança e de adultos, jovens, velhos, altos e baixos, há espaço para que as crianças dancem assim: brincando.

Duvido muito que na porta dessa escola um dia tenha sido colocada uma faixa dizendo “aceitamos pessoas com deficiência” ou “escola inclusiva de dança”. Acredito que o mérito de que pessoas com deficiência tenham ali sido acolhidas venha da visão de que, para aquela escola, a condição da deficiência não elimina ou diminui o potencial de ninguém. Isso principalmente porque cada dançarino está num nível de desenvolvimento diferente de suas habilidades e potencial. Alguns farão coisas que outros apenas esboçarão um movimento, mas isso não será razão para que aqueles menos desenvolvidos não participem das coreografias ou ensaiem/atuem em separado. Não poucas vezes assisti os dançarinos com deficiência mostrarem maior desenvoltura do que muitos sem deficiência. Mas por isso não são heróis, são dançarinos e tem plena consciência do que estão fazendo ali. Não estão numa competição, mas numa celebração. E isto faz muita diferença.

Vivemos num mundo e num tempo nos quais, queiramos ou não, são privilegiados e exacerbados valores estranhos à solidariedade, à cooperação e mútua compreensão. A competição em detrimento da colaboração, a aparência em detrimento da realidade, a pressa em detrimento da calma, o particular em detrimento do todo. Esses valores estão cada vez mais profundamente enraizados na maneira como trabalhamos e consumimos, como estudamos e aprendemos, como nos relacionamos com as pessoas e até mesmo como formamos nossas famílias. Assim como na escola de dança que minha filha frequenta, não há no mundo uma placa dizendo “mundo inclusivo” ou “mundo livre de preconceitos”. Mas não nos é dado o direito de recusar pertencer a este mundo tal como ele é e também como queiramos que ele seja, através da nossa esperança e capacidade de imaginação.

Enquanto aquela moça dançava junto aos seus colegas, imaginava o quanto do seu esforço em estar ali devia-se exclusivamente a sua vontade pessoal. Também pensava na sua família, em seus amigos e em todos que não obstruíram o seu desejo com impedimentos triviais ou artifícios de má-vontade. E então foi que me atropelou a emoção. Não por causa dela ou de sua dança precisa, mas pelos outros. Os outros que dançavam com ela e também os outros que a assistiam, sem dúvida emocionados. Sua coragem em estar ali sobre o palco era, sem dúvida, resultado de sua determinação em obter seu lugar entre os demais, mas também porque não lhe impingiram o medo de descobrir a graça do próprio corpo nem vergonha pela alegria contida em seus gestos. Definitivamente não estou emocionado por ela. O que ela fez naquela noite foi resultado da sua pura competência: não merece lágrimas, mas aplauso. Mas estou emocionado pelos outros e por sua coragem em recusar esses valores que tem gerado tristeza e decepção às pessoas, desencontro ao invés de encontro. Pela sua família ao sonegar-lhe a possibilidade do arrependimento. Pela confiança de seus professores e colegas em serem apenas seus coadjuvantes.

Quando olho para a minha a pequena dançarina e para seu irmão que assiste absolutamente compenetrado a tudo que se passa, percebo com muita clareza que tenho minha parte no que são agora e em seus futuros. E que todos temos a nossa parte irrecusável de mudar o mundo exatamente ao nosso modo, na nossa medida. Seria uma injustiça atroz querer que uma pessoa só, somente uma pessoa, resumisse nossa inércia e tomasse a atitude que às vezes nos falta como sociedade. No passado tivemos muitos exemplos disso, e todos acabaram muito mal, com finais muito tristes.. Talvez por acaso, não pensei nisso ao começar a escrever, isso possa até parecer uma mensagem de Natal.. Não sei se era pra ser desde o início e eu não sabia mas, se era, eu gosto de ver que ela se deve a muitas pessoas e não apenas a um sentimento isolado. Talvez seja uma boa maneira de comemorar o Natal, não lembrando o sofrimento de um indivíduo, mas celebrando a participação de todos num mundo que pode ser verdadeiramente melhor.

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3 comentários em “Uma história de bailarinas nesse Natal

  1. Somente quem enxerga no outro seu semelhante poderia descrever com tanta delicadeza um momento tão especial como esse. Realmente, a coragem pode existir de várias formas, essa é uma delas, declarando seus pensamentos ao mundo. De uma dançarina que admira a beleza do existir!

    Daniella

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  2. Lindo, Lúcio! Emocionante e cheio de verdade! Quem dera em todos os lugares tivéssemos a atitude desta escola, de abrir as portas, sem filtros, sem bloqueios, sem medos. Mas a cada lugar como este renasce a esperança de que é possível chegarmos nisso um dia. Há muita batalha ainda, mas havemos de conseguir!

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