Não haverá uma nova polis sem um novo ethos

“Na minha opinião, há boas razões para questionar, falar claro, projetar novas instituições e novas maneiras de pensar.”
“Ainda falta muito a ser feito. Ainda é hora de agir.”

Carl Sagan – Bilhões e bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio.

Êxodos - Sebastião Salgado

Êxodos – Sebastião Salgado

Mudar o mundo foi o tema de uma geração. Por um desses equívocos da História, o sonho da geração de Lennon permaneceu uma utopia depois de muitas décadas de sua concepção. Sem entrar no mérito das razões que levaram ao “fim do sonho”, não seria exagero afirmar que as gerações que sucederam aquelas que protagonizaram o sonho do flower power herdaram bem mais o desalento de serem vencidas pelo sistema de produção e consumo que o legado de um mundo efetivamente modificado.

Não se trata de puramente menosprezar a revolução de costumes, mas o fato é que os desafios do século XXI ainda se parecem em muito com os do que acaba de findar. Isto principalmente porque o modo eleito pela civilização global em enfrentar estes desafios tem sido através de uma reedição indefinida dos valores liberais, a despeito da cada vez maior exclusão de grupos sociais inteiros e mesmo nações que têm vivido na periferia das decisões globais por décadas a fio, para não dizer séculos. As duas últimas décadas ficaram muito marcadas pelo que alguns historiadores resolveram denominar de “fim da história“. A queda do muro de Berlim e o fim de 99% das experiências do socialismo real se, por um lado, deveriam reforçar a esperança nas democracias, por outro trouxeram um grande vazio principalmente por soterrar qualquer possibilidade alternativa de organização econômica que não a capitalista.

Entretanto, ainda nos anos 90, começou a fortalecer-se uma mentalidade que antevia a necessidade de revisar os padrões de sustentabilidade planetária, sob pena de aprofundarem-se uma série de colapsos de grande efeito global: climático, alimentar, êxodo humano, etc. Ao mesmo tempo, a escala de consumo de bens e alimentos nunca chegara antes aos patamares de então. A produção automobilística triplicou ainda com base na queima de combustíveis fósseis e a indústria petroquímica gerou mais resíduos nos últimos quinze anos do que a humanidade inteira em quatro milênios. Se o ritmo desse crescimento (e, principalmente, a sua forma) for mantido, é possível que a imagem mais exata do futuro seja exatamente a de um sonho, mas esse também em vias de acabar-se.

Um dos mitos mais comuns da era tecnológica é acreditar-se que o fazer científico deveria ocupar-se de remediar os males criados pela humanidade. A reprodução dessa mentalidade poderia levar a crer que a responsabilização pelo estar-no-mundo é algo relativo, e que se a tradição informa que os problemas são depositados em herança, não haveria então muito a ser feito. Assim como a geração de 60 trouxe luz a questões como a emancipação da mulher, a luta pacifista e a gestação de uma nova compreensão do lugar do ser humano no planeta, por exemplo, o que seria possível apreender em termos de mentalidade de uma geração como a de agora, quando o individualismo parece prescindir da importância da existência (e do respeito ao) do outro nas relações humanas e sociais? É por isso que, se as dificuldades em mudar o mundo são maiores que o desejo para tal, talvez seja o momento de pensar em reformar a mentalidade de agora. Não haverá um novo mundo sem uma nova mentalidade. O mundo não é apenas uma representação da mentalidade de uma época, ele é a própria obra dessa mentalidade. Talvez os desafios de hoje não sejam tão gritantes e evidentes como foram os das geração de 60. É bem provável, aliás, que pareça até desnecessário tentar fazer qualquer coisa que seja. Agora, ao indivíduo é dado e retirado todo o poder. Haverá um sonho a legar ao futuro?

__________________________________________________________________

Spot criado pelo Greenpeace: “Lembra como sua geração sonhou mudar o mundo?”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s